Olá, pensadores!

Já deixei claro, aqui neste blogue, que, ultimamente, não tenho sido muito de acompanhar telenovelas. Aliás, não era até que veio ao ar a belíssima Cordel Encantado, da Rede Globo, sobre qual teci algumas considerações (veja aqui). Pois é! Talvez, o hábito de ver o folhetim no horário das dezoito fez-me começar a acompanhar a novela que substituiu Cordel, intitulada “A vida da gente”, de autoria de Lícia Manzo e direção de Jayme Monjardin.

De cara, gostei da proposta da novela: diferentemente das demais tentativas dos folhetins nacionais, em “A vida da gente” a autora decidiu por lidar com problemas de todos nós, sem a construção de mocinhos, nem bandidos. Lícia Manzo optou por lidar com as escolhas que fazemos diariamente, com os erros que cometemos, com os gênios indobráveis, com as personalidades transtornadas, mas comuns, que não se consertam. Resolveu retratar as pessoas bem próximo do que elas são, sem forçar bondades episcopais, nem maldades maquiavélicas.

As dificuldades e superações da velhice e as nuances do amor em idade senil, absolutamente bem apresentadas por Iná (Nicete Bruno) e Laudelino (Stênio Garcia). As famílias da modernidade, materialmente ricas e absolutamente falidas em valores e afeto pessoal, como o caso de Jonas (Paulo Betti), Nanda (Maria Eduarda) e Rodrigo (Rafael Cardoso) e, depois, com o mesmo Jonas, Cris (Regiane Alves) e o pequeno Tiago (Kaic Crescente).

As obsessões pessoais de Eva (Ana Beatriz Nogueira) e da treinadora Vitória (Gisele Fróes) que, para ver suas metas atingidas, manipulavam e ultrapassavam o limite da sensatez. Os relacionamentos amorosos e suas crises, seja por conta do homem que não cumpre seu papel de provedor, vivido por Marcos (Ângelo Antônio), seja pelo surgimento de uma potencial nova paixão, como no caso de Renato (Luiz Carlos Vasconcelos), pai biológico de Alice (Stephany Brito), e Suzana (Daniela Escobar), mãe adotiva da garota.

O ponto central da trama, entretanto, foi protagonizado por Ana (Fernanda Vasconcellos), Rodrigo (Rafael Cardoso) e Manuela (Marjorie Estiano). Um triângulo amoroso que, de fato, pecou na construção do cenário (afinal, não é todo dia que alguém entra em coma e acorda, quatro anos depois, absolutamente sem sequelas e encontra sua irmã casada com seu ex-namorado e criando sua filha), mas que, nem por isso, deixou de ser fiel a uma realidade comum a todos nós: muitas vezes, somos compelidos a fazer escolhas que não queremos fazer, mas que são inadiáveis. Situações que os caminhos da vida nos apresentam e exigem de nós uma ação. E o pior: não raro, tomamos as decisões erradas, amargando as consequências. E, aí, somente o tempo para curar as feridas.

As idas e vindas de Rodrigo com Ana e Manuela, os relacionamentos delas com outras pessoas nos períodos de separação, a briga das irmãs ao decidir encarar de fato o drama que viviam e a desconstrução do amor predestinado permitiram ao espectador mais atento perceber o quanto a autora estava preocupada em ultrapassar ideias romancistas, dando à trama esse ar de “isso poderia ocorrer comigo”, que fez tanta gente dar ao folhetim a marca de um dos mais assistidos dos últimos tempos.

Em “A vida da gente”, o amor ideal não sobreviveu. Quem falou mais alto foi o amor real, aquele que as pessoas vão construindo de acordo com suas experiências, com a vida. Um amor que sofre abalos e que, as vezes, muda de feição. Que deixa de ser arrebatador, mas permanece acalentador. Um amor sem coração, mas com cérebro. Um amor sem coração, mas com sangue. Por tudo isso, Lícia Manzo merece, de minha parte, meus sinceros parabéns. Detalhe: ela não poderia ter escolhido nome melhor para a novela.