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Postado em 15/12/2011 às 07:44 por Redação em BlogBalaio do Teles

Lei da Palmada: mamãe estava errada?

O tema entra de novo em discussão, com a aprovação do projeto pela Câmara dos Deputados.

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Olá, pensadores!

Há certas coisas, no Brasil, que de tão absurdas chegam a ser engraçadas. Esse projeto da “Lei da Palmada” é, perdoem-me os amigos, uma piada sem precedentes. Não pela intenção – que é até louvável –, mas pela forma que seus autores acham que vão mudar a cultura social.

Pretende o projeto, através da aplicação de sanções legais, impedir que pais, professores e responsáveis usem qualquer tipo de castigo que provoque dor em crianças e adolescentes, ainda que para fins pedagógicos. Isso quer dizer que, se aprovado pelo Senado (porque na câmara já passou), a velha e boa palmada corretiva passa ser motivo para sofrer os rigores da lei. Já pensou?

Antes que os defensores ardorosos dessa mal interpretada onda de Direitos Humanos se levante, ponho-me na condição de criança que cresceu sob o efeito da orientação verbal de meus pais, mas que não foi poupado de uns merecidos beliscões e palmadas, sobretudo, quando deixei a birra ou a falta de modos aparecerem mais do que deveriam.

Podem vir me analisar: não sou doente, nem tenho qualquer problema de ordem psiquiátrica, nem psicológica, nem trauma, nem odeio os meus pais pelas palmadas de outrora. Muito pelo contrário, lembro de beliscões que foram decisivos para podar certos maus costumes que eu tinha (como o de desacreditar minha mãe, em público, matando-a de vergonha ou, aos nove anos de idade, me recusar a voltar pra casa, achando que meu momento de diversão, na rua, não devia ter hora para acabar).

Antes de me dar o moderado corretivo, ela me perguntava: “quantas vezes eu já falei com você sobre isso?”. Realmente, ela tinha falado diversas vezes... Tinha usado até desenho para me fazer entender... E, como eu continuava avesso, sua sábia pedagogia, no momento correto, funcionava que era uma beleza!

Que fique bem claro: não estou falando de espancamento, nem de excesso. Quem assim age, que sofra as sanções do Direito Penal. O que eu acho inadmissível é que, agora, venha o Estado, numa intervenção particular exacerbada, dizer que o que minha mãe fez é inaceitável, que precisa ser mudado, com a enganada crença de que a letra da lei tem o condão de, repentinamente, mudar o padrão cultural.

Chega a ser ridículo. Imaginemos a cena: a mãe, em casa, pedindo para o filho tomar banho e o garoto sem querer sair da frente do computador. Depois de meia hora de pedido e insistência, a mãe olha para os lados, para se certificar que não há um fiscal do Estado e, violando a lei, taca-lhe um beliscão. Agora, imagine essa e outras diversas cenas similares ocorrendo em vários lares, ao mesmo tempo. Cadê o governo nessas casas todas? É piada ou não é?

Ora, o Estado não tem dado conta de reprimir os principais crimes e, mesmo contra as crianças, tem sido tão negligente quando à correta e eficaz aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, afirmo sem medo de errar, não terá como fazer cumprir essa bobagem que a câmara e nossos ilustres deputados acabaram de aprovar.

Embora a essência do projeto não seja reprovável, o modo de tentar fazê-la ingressar em nossa cultura, através da imposição legal, será, tenho certeza, frustrante. Essa questão, muito antes de passar pelo Direito, passa pela Educação. E esse projeto é o principal sinal do Estado ineficiente: não tendo como garantir uma mudança de postura pela via da educação, usa a força para camuflar sua incompetência.

 

Estou no twitter: @sjteles

10 comentários

  • José Vitor

    Há 5 meses

    "Só se perdeu a que não pegou", assim ainda diz a minha velha mãe, a esse respeito. E é verdade pura.

  • Cud Carlos

    Há 5 meses

    Estamos caminhando para o final dos tempos!Quantas pessoas não levaram "bolo/cascudo/
    chinelada/palmada/palmatória/pisa/surra" e nunca tiveram traumas ou ficaram com raiva dos pais ou dos professores?Ao contrário,respeitavam e gostavam deles.Hoje,poucos respeitam os pais,os mestres e os mais velhos.

  • Shirleide Mendes Omena

    Há 5 meses

    Concordo plenamente com suas palavras, Teles! A conversa na educação é fundamental, mas tem horas em que uma palmada corretiva é bem vinda! Eu prefiro dar umas palmadas na minha filha hoje, se ela merecer, do que vê-la crescer sem limites e ver o mundo bater nela mais tarde.

  • Vanessa Amorim

    Há 5 meses

    Sou grata a Deus pelas palmadas que levei, pois elas ajudaram a me tornar o ser humano que sou.

  • Claudevan Nicacio

    Há 5 meses

    E aí meu amigo, mais um excelente texto!!! Se isso for aprovado vamos ser criminosos em nossas próprias casas. A velha e boa palmada vai ser considerada crime e quem através de muito esforço tenta educar seus filhos serão os criminosos. Pergunta: O Estado vai agora educar nossos filhos?

  • claudionor

    Há 5 meses

    Eu já levei pisa do meu pai e nem por isto sou marginal é melhor eu dar uma chinelada no meu filho do que a policia na rua quem nuca levou uma chinelada dos seus pais e por riso nem ficou doido o traumatizado? Por falta de pisa o jovem não respeita mais ninguém 90% envolvido em assalto e com drogas

  • Alagoana

    Há 5 meses

    E tem mais: ANTES EU CORRIGIR MEUS FILHOS COM UM TAPA (lembrando: tapa é diferente de espancar), DO QUE VÊ-LOS APANHANDO DA POLÍCIA! Muito lamentável essa proposta, tem inúmeras outras coisas para nossos governantes se preocuparem!

  • Alagoana

    Há 5 meses

    Francamente, mais uma forma que encontraram para ganhar votos futuros! Pois uma criança sem limites (entendam que limite é bem diferente de espancamento!!) é o futuro MARGINAL/TRAFICANTE! Vou corrigir meus filhos SIM, e se o ESTADO achar ruim, dê tudo o que hj dou!

  • Chyara Paiva

    Há 5 meses

    Como sempre, muito inteligente em seus comentários... Mais que curti... Tb levei boas palmadas e chineladas merecidas e nem por isso fiquei traumatizada nem virei marginal...

  • Crisely Albuquerque

    Há 5 meses

    A minha não! Nem meu "velho".

Balaio do Teles

Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.