Olá, pensadores!
A matéria publicada pelo Cadaminuto, intitulada “Vídeo mostra policial do BPTran cobrando propina para liberar motorista em blitz” (clique aqui e veja), denunciando a repudiável atuação de um policial militar de Alagoas, pertencente ao Batalhão de Polícia de Trânsito, deu visibilidade a uma situação que, todos sabemos, há anos subsiste na atividade fiscalizadora de trânsito.
Aliás, a cobrança da propina ou a aceitação do suborno não são práticas exclusivas de policiais militares, nem de agentes fiscais de trânsito. É um mal que assola parte considerável dos servidores públicos que, de algum modo, estão investidos do poder de aplicar, em desfavor do cidadão, uma medida penal ou prejudicial, seja ela administrativa, como uma multa ou um embargo, seja ela judicial, como uma sentença desfavorável. Os noticiários estampam, com frequência, tais lamentáveis acontecimentos.
No caso específico da reportagem, por R$ 60,00 negociados (o valor inicial era de R$ 100,00), o agente policial militar, responsável por garantir a ordem e o cumprimento das leis, macula a imagem da corporação e do Estado, rasga o ordenamento jurídico, incluindo a Constituição Federal e o princípio da moralidade administrativa, agride o direito penal e, de quebra, ainda assenta na sarjeta sua própria honra e dignidade.
Além disso, o ato é de uma covardia inenarrável. O PM arvora-se da farda e do temor que ela, certamente, ainda impõe para, de forma nojenta, exigir para si vantagem indevida. Ampara-se no monopólio da força que o Estado lhe delega para agir da maneira mais vil e torpe, não executando a fiscalização que, em tese, serviria para garantir a segurança do motorista, liberando irregularidades que poderiam colocar em risco a vida do motorista e, ainda, cobrando para tudo isso.
No outro lado dessa história, temos o motorista, cujo comportamento também merece análise. Salvo raríssimas exceções, o motorista que sustenta o policial corrupto, pagando não sei quantos R$ 60, é aquele que, de fato, está descumprindo a legislação. É o que está com o emplacamento atrasado, dirigindo embriagado, sem documentos de porte obrigatório, sem cinto de segurança ou cometendo qualquer outra infração de trânsito que, se corretamente autuada pelo policial, render-lhe-ia multa e o registro de pontos em sua CNH. Assim, o motorista, igualmente corrupto, prefere alimentar o sistema. Paga ao agente fiscal para não ser multado, consumando o fenômeno bilateral da corrupção. E, assim, o círculo vicioso não tem fim.
No caso noticiado, vejam a curiosidade da situação: se o motorista estava pagando a propina indevidamente, por que precisou esconder a câmera para flagrar o ato? Se estava regular, porque não filmou o caso de forma direta, sem artifícios? Afinal, como ficou claro no vídeo, a situação era real e, portanto, não se tratava de um “flagrante” forjado. O motorista tinha, realmente, cometido alguma infração de transito e, para não ser multado, estava subornando o guarda que, absolutamente sem qualquer princípio moral, exigiu a propina.
Há quem diga que o agente fiscal de trânsito, quando quer “bola”, inventa a infração. A estes, dou um conselho que, estou certo, ajudará a reduzir sensivelmente a ação de policiais mal intencionados, que enojam a profissão com suas condutas indignas: se, numa blitz, você estiver absolutamente certo de estar regular, desde o início da abordagem do PM informe que, para sua segurança, está filmando a ação. Se você estiver regular, duvido muito que, sob o registro da câmara, o PM “invente” a infração.
Entretanto, se você, de fato, estiver irregular, cabe a você escolher se cede à eventual propina cobrada ou oferece o suborno (torcendo para que o agente seja corrupto), dando combustível ao motor da corrupção, ou se, arcando com a responsabilidade por infringir as normas de trânsito, aceita a autuação e responde administrativamente por sua inobservância à lei.
Acabar com a corrupção na fiscalização de trânsito, ou pelo menos minorá-la, passa por uma postura mais austera dos órgãos correcionais das corporações, impondo penalidades duras aos servidores flagrados em tais práticas. Passa, igualmente, por um tomada de consciência da população em geral. Não adianta apenas denunciar o evento como se fosse somente vítima dele, criticando o agente mas não tendo a hombridade para arcar com eventual desrespeito à lei. Só há corrupção porque há quem se beneficie dela, repito, bilateralmente. Um corrupto sempre depende de outro.
Estou no twitter: @sjteles
Parabens companheiro, é esta a postura que queremos dos nossos oficiais e jornalistas, mesmo sabendo que as propinas do cotidiano militar ainda hoje sustenta o luxo e a permanencia de certos grupos no comando de setores importantes da nossa PM.
Duvido que este cidadão, como diz ser, não tenha em nenhum momento de sua vida pago propina pra quem quer que seja. Isso é o Brasil! Se as autoridades agissem corretas 'de acordo com a lei' isso não aconteceria.
O BRASIL AINDA NÃO ACORDOU, PARA AS MUDANÇAS QUE ESTÃO OCORRENDO EM TODO O MUNDO. NOS PAÍSES DE PRIMEIRA GRANDEZA, SUA POLÍCIA TEM MAIS ESTRUTURA,SEUS AGENTES MAIS CAPACITADOS E COM UMA LEGISLAÇÃO A SEU FAVOR, NÃO PARA REPRIMIR, MAS PARA EDUCAR. TEMOS UM MODELO ARCÁICO E DA ÉPOCA DE DOM PEDRO.
Aconteceu comigo,vinha guiando minha moto, ao sair de casa verifiquei tudo e certinho segui meu caminho, quando chguei nas imediações da Araforros, fui parada numa blitz e de repente com tudo certo documento e tal, um canalha de farda qd viu q não tinha o q multar apagou o farol da moto e aplicou
A corrupção se apresente de varias formas, eu nunca vi nenhum jornalista combater o funcionalismo fantasma. que é uma forma de corrupção praticada por milhares de pessoas inclusive jornalistas. varias pessoas recebem salarios de orgaõs publicos sem da um dia segundo de trabalho
Concordo. Só existe a corrupção ativa por causa da corrupção passiva. Ambos merecem as devidas sanções penais, cabendo ao militar também a sanção administrativa que provalvelmente será a exclusão dos quadros da coorporanção.
cont. dessa forma, como mostrou, o CIDADÃO fez o que vc e outros tinham vontade de fazer e nunca teve coragem. Mostrou o que todo mundom já sabia e não era homem pra denunciar (vejam quantos se falaram que foram vítimas)e ficaram pianinho para não apanhar na cara. Reprove o ato, mas defenda o cidadã
Teles, quando vc for parado numa blitz dessa com uma câmara e diga que vai filmar a operação para vc entrar no camado rodízio de multa. Ou seja, de três em três dias vc recebe uma notificação por não usar o cinto de segurança e o meliante, tem fé publica e pra vc só resta pagar a multa e esperniar
Excelente texto! Bem escrito e verdadeiro!
Não há mal que vem pra o bem... Talvez, agora, tomem vergonha e deem canetada e utilizem a lei para qualquer um que for pego errado. Sou PM honesto e sempre sonhei com esse dia.
Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.