Olá, pensadores!
Em 28 de novembro de 2008, a Secretária de Estado da Segurança Pública do Rio de Janeiro deu início a um projeto de implantação de bases de polícia comunitária em comunidades cariocas que, até então, eram dominadas por traficantes. Nessas localidades, a ausência do Estado era tamanha que os criminosos conseguiram montar uma estrutura de poder paralelo, passando a ditar as regras e controlar os cidadãos que moravam na região.
O projeto – conhecido nacionalmente como a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) – cresceu vertiginosamente a ponto de, até junho de 2011, já serem 25 as comunidades “libertas” do controle do tráfico. O aparente êxito do programa destacou o trabalho do delegado federal José Mariano Beltrame, idealizador das UPPs e secretário de segurança, a ponto de o Rio tornar-se modelo de combate à criminalidade. Semana passada, o TJAL organizou um seminário onde o modelo de policiamento das comunidades cariocas foi apresentado aos alagoanos pelo próprio Beltrame e pelos comandantes das forçar armadas, que participam da ocupação.
Não se pode deixar de reconhecer que, para milhões de pessoas (os habitantes das favelas e morros ocupados), a implantação das UPPs e dos demais braços estatais que integram o projeto (escolas, áreas de cultura e lazer, centros profissionalizantes, infraestrutura de saúde, etc.) significou um marco decisivo. De brasileiros comandados despoticamente pelas leis do tráfico, milhões de cariocas passaram a sentir na pele o prazer da palavra liberdade. Pelo menos um pouco, passaram a conhecer o que é fazer parte de um Estado que lhes garanta a mínima condição de se viver em paz.
Mas, por outro lado, não se pode achar que o modelo carioca é a fórmula mágica para a solução do periclitante problema da criminalidade violenta que, em Alagoas, parece não ter fim. Aliás, o modelo carioca adéqua-se às particularidades daquele Estado e atende a um objetivo bem específico: libertar comunidades isoladas do poder de traficantes, de preferência sem trocar um tapa. Para isso, como todos sabem e como faz questão de alardear o próprio secretário Beltrame, todas as ocupações são previamente comunicadas, divulgadas na mídia, dando tempo aos criminosos a deixarem a área.
O que se tem, na verdade, é apenas o deslocamento dos criminosos para uma outra área, onde, sem que paire dúvidas, ainda continuarão desenvolvendo suas ações delituosas. Os criminosos, que até serem expulsos, sustentavam-se do comércio de drogas e armas na comunidade ocupada, certamente, procurarão novas estratégias para continuar “sobrevivendo”. Policialmente falando, o projeto não resolve o problema, apenas maquila-o. Mas, há que se lembrar, o objetivo era “libertar” a comunidade e isso, não há dúvidas, foi conseguido.
E em Alagoas? Será que ocupar áreas poderia mudar nossa realidade? Tenho minhas dúvidas. Enquanto, no Rio de Janeiro, a ocupação das comunidades se deu após um estudo planejado, nossa “ocupação” se deu como resposta a um crime violento. Não bastasse, em Alagoas, além da PM, nenhum outro órgão do Estado participa do projeto.
Diferente do Rio, que possui uma geografia que facilita a ocupação de uma área (num morro, por exemplo), Maceió é uma cidade de áreas contíguas e de fácil comunicação, de sorte que a ocupação do Carminha – ou do próprio Benedito Bentes – pode simplesmente afastar os criminosos para as comunidades e bairros vizinhos, tão periféricos e tão assolados pelo crime quanto. Ocorrerá, no máximo, o deslocamento do local de refúgio dos bandidos, mas os crimes, com prevalência para o acerto de contas decorrente do tráfico de drogas, continuarão ocorrendo.
A Polícia Militar faz, na minha opinião, um trabalho digno de elogios, mas não deve – nem pode – assumir, sozinha, as rédeas do processo de devolução de segurança à Maceió, como está ocorrendo agora no Benedito Bentes. Eu não tenho dúvidas, enquanto o Carminha está ocupado, muitas outras comunidades estão bem desguarnecidas, dado o insuficiente contingente policial militar. Prova disso é que, somente na primeira noite desse fim de semana, 5 mortes e 3 tentativas de homicídio foram registradas, só na capital.
Muito menos, o Estado deve pautar suas ações como resposta a atos isolados. O crime do Carminha foi brutal, mas foi pontual. Comuns e rotineiros são os homicídios, os pequenos assaltos e roubos, em toda a cidade (e não apenas em comunidades isoladas), que decorrem do tráfico e do consumo de drogas, em especial, do crack. A estratégia do governo deveria partir desses índices.
Maceió não tem o perfil do Rio, nem possui comunidades encasteladas, geograficamente isoladas, dominadas por senhores do tráfico. O que Maceió tem é uma rede capilarizada de abastecimento de drogas e um número considerável de jovens envolvidos nesse processo, praticando crimes para nutrir o vício. O que Maceió não tem são projetos de educação profissionalizante, nem estrutura de desenvolvimento econômico para propiciar aos jovens oportunidades de futuro. A solução do nosso problema, meus amigos, passa muito mais pelas Secretarias da Educação, Trabalho e Renda e Saúde, que pela pasta da Defesa Social.
Estou no twitter: @sjteles
Situação: uma grota qualquer periférica de maceió, ocupada pela pm. fato. e depois quem dará o suporte seguro, quando a tempestade acabar, para nós moradores periféricos? Lembrem-se que, principalmente, o tráfico de drogas é financiado pelo asfalto. e favela é favela.
TELES, excelente texto! Não há que acrescentar. É elogiosa, também, sua de atitude publicar os comentários contrátios ao que você escreve. O "blogueiro", que fica logo acima só publica o que convém ao mesmo. E cá pra nós, ele escreve muita @$%@*&%$
O modelo de ocupação das UPP/Rio visam pacificar o terreno (libertando-a da criminalidade organizada) e garantindo a chegada da força pública (saúde/educação/bem estar). É sim o melhor exemplo para Alagoas. o 1º passo tem que ser dado, senão ficaremos a mercê dos criminosos. Parabéns à PMAL.
...para garantir ambas as funções... Mas isso, como disse, é só a parte da PM. A criminalidade violenta não será domada apenas pela força. Ela até pode ser amenizada, temporariamente. Mas se queremos mudança mesmo, outros pólos de atuação devem ser mais explorados. Abraço!
Embora não queiramos aceitar, é também dever do Estado garantir a segurança de determinadas autoridades. Parece arcaico, mas é algo que decorre naturalmente do nosso modo de sistema político. E essa "proteção" é garantida pelas forças policiais. O que deve haver, na verdade, é polícia suficiente...
Pois é. Os deputados tiveram a oportunidade de corrigir isso, mas a perderam ao não aprovar a lei que extinguia as assessorias militares. Entretanto, tal medida não é que o falta, ainda. Talvez, pra começar, o dobro do nosso efetivo total pudesse, pelo lado da PM, começar o trabalho. Mas e o resto?
Sei que a PM faz a sua parte e muito bem.Só está faltando tirar os PM's que fazem a segurança do Condomínio Aldebaran, dos deputados (tem verba para isto para pagarem seguranças particulares)de tirar Oficiais que servem como empregados domésticos dos membros do Judiciário e colocá-los nas ruas.
Grande Cabreira, obrigado. Mas, meu amigo, não é falta de estudo, nem de estratégia. É falta de vontade política. Todos sabemos como resolver grande parte dos problemas de saúde, educação e segurança. Por que não se faz? Porque ninguém diz "o problema é nosso". A PM está fazendo sua parte.
Teles, vou tratá-lo como Oficial da Policia Militar de Alagoas (burocrático?). Você tem a obrigação de ajudar à Corportação a investir em estudos sobre como combater a criminalidade (tolerância ZERO?)não adianta cobrar dos Governos providências que deverão ser tomadas por TODA a população.
Teles, sua visão esta correta e é semelhante a minha, porém, sabemos que tais investimentos só terão retornos a medio e longo prazo e o povo não tem essa visão, acha que tudo se resolve com puliça e pau.Sabemos também que o modelo politico de hj detesta investir na saude e educação do povo.
Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.