Favor digitar pelo menos 3 caracteres
Postado em 11/05/2011 às 19:30 por Redação em BlogEnsaio Geral

Artes plásticas para a maioria não passam de peças de decoração

  • email E-mail
  • mais Mais...

A tela em branco é a condição desafiadora da criação artística. Bem diante dos seus olhos, o artista sente o ímpeto de trazer para fora de si, algo que quer sair. Às vezes esse sentimento aparece como forma de inquietação, outras vezes, como uma vertiginosa alegria, que rompe a casca imaginária do momento que reclama luz e nascimento. O carvão entre os dedos, o primeiro risco que prenuncia o desenho sobre o propósito do branco como expressão do nada posto.

Os traços seguintes surgem como um novelo de linhas feito da junção de pontos seguidos. E o artista, como Ariadne de Teseu, vai soltando de suas mãos, o fio que arrebenta o vazio da tela e que evidenciando saídas para o seu coração, aponta caminhos para outros labirintos. A sua alma, novelo feliz que se desenovela, desenha em rabiscos, emoções que une e aparta fios sobre o suporte.

Palavras românticas as minhas. Mas procuro com elas estabelecer qualquer premissa que seja à produção de arte. Um pressuposto para situar a matéria prima, e que se imagine necessária, para que alguém se lance à aventura de construir e expor visualmente, um universo interior feito dos seus próprios ruídos - e que estes, sejam belos, feios, apocalípticos, esperançosos, cinzentos, alegres ou não -, que nele habitam.

Ter obras de arte, sempre foi privilégio dos nobres, desde séculos passados. A liberdade de criação artística ganhou novos rumos com o surgimento da burguesia. Refiro-me aqui às cores, aos temas, onde o artista pode, finalmente, pintar o que sentia, sendo o senhor em parte, dos seus próprios olhares. Temas dramáticos e sentimentais foram inspirados a partir da literatura e da história. Os conteúdos artísticos foram buscados, através de efeitos de emoção pessoais. Surge daí novas formas de expressão artística.

Hoje, é difícil delimitar linhas que separem ou conceituem o que é belo ou feio, agradável ou não, em uma obra de arte, mas elas estão por aí. Mesmo quando os referenciais são cada vez mais abolidos. Mais fácil, porém, é buscar entender o que está em voga, como representação do belo, do sofisticado, do atual, para se chegar à conclusão de que a arte atual passou a ser uma peça de decoração a mais, capaz de valer, não pelo próprio valor em si, mas pela representação que lhe é dada. O objetivo? Vender algo para agregação de valor pessoal, a quem puder tê-la.

Salvo os grandes painéis do grafite, expressão artística que considero inclusiva e que burla conceitos e estabelece um diálogo visual e reflexivo, com a população. Isso até enquanto esse canal não for alvo da apropriação por parte do mercado, como fonte de lucro, e passar a ser como tudo, enquadrado nos falsos valores de arte, como produto ou destinado a vender produtos de consumo. Quem disse que os artistas estão livres das conceituações do que é bom e belo? Ilusão de quem assim pensa.

Ao levantar a questão, pareço estar sendo contraditória. Mas isso apenas mostra o paradoxo dos conceitos de arte, da livre expressão artística, das linhas que são colocados e que ‘separam’ o que é considerado como tal ou não. Cada grupo de influência dentro dos espaços onde arte plástica veicula, determina o que é arte e até quem é artista. Pelo menos aqui em Alagoas. Se por um lado há muita boçalidade por parte de alguns, há uma completa falta de bom senso por parte de outros.

Enquanto uns escolhem como arte e artista, pessoas e trabalhos, movidos por questões e conceitos muitas vezes tradicionalistas e conservadores, há os que saem elogiando tudo o que parece diferente. É sempre aquela mania perigosa de louvar aquilo que vem com o selo de novo. Os paradigmas estão aí para serem quebrados. Se a arte não serve aos artistas nem à sociedade como local de canalização para as diversificadas formas de ver e sentir o mundo, a sua função sócio-cultural está morta. O seu sentido está perdido.

Defender que os artistas nascem artistas, pode ser considerado pretensão, num contexto onde se acredita que as técnicas podem transformar o homem naquilo que ele quer ser. Todo mundo pode ser tudo. Todo mundo pode fazer um traço vermelho que atravessa uma tela de um lado a outro, e um crítico de arte, que se diz apreciador do novo, pode gastar uma página inteira, numa revista nacionalmente conhecida, descrevendo o que aquele traço significa.

De uma hora para outra, um ‘artista’ é construído, e todo mundo corre atrás para adquirir um trabalho seu, para ser valorizado e figurar como chique, moderno, como consumidor de arte. Uma arte que tem data para prescrever. Essa pergunta me incomoda: Vivemos o fim da arte? Porque a aparência daquilo que pode vir a ser, passou a ser a própria coisa, quando ainda não é. Qualquer pessoa é capaz de criar. Isso nos identifica como humanos.

É a nossa característica de ser pensante: o homem produz cultura e história. Mas convenhamos que nem toda criação é artística. E o sentido de duração e registro histórico de uma obra de arte, hoje, adquiriu a condição atroz de descartável. Há muita mediocridade exposta nos salões de arte. Como eu conceituo arte e artista? Pelo bom senso, pela lógica, pelo sentido. O fio condutor de Ariadne, eu o sinto envolto em minha cintura, desenovelando o interior da minha alma.

Não sei como, mas artista para mim é aquele que, diante do seu trabalho, posso resgatar o coração e encontrar a saída do meu próprio labirinto. O sentimento que uma verdadeira obra de arte propõe não é descartável!
 

Seja o primeiro a comentar!

Ensaio Geral

Blog de Cultura editado pela jornalista Goretti Brandão

Últimos posts

Veja mais posts