Olá, pensadores!

Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo: 

http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2011/05/12/porque-parlamentares-nao-precisam-de-greve-924446578.asp

Não é difícil entender porque nunca, na história do Brasil – e, muito menos, na de Alagoas – se ouviu dizer que um grupo de deputados, empunhando faixas nas mãos, apitos e gritando frases de ordem, tenha marchado pelas ruas, em protesto por reajustes salariais ou por melhores condições de vida. Mesmo sendo servidores públicos, os senhores parlamentares nunca precisaram – e, do jeito que a coisa anda, nunca precisarão – de tal expediente.

É porque, meus amigos, protestar é coisa, por exemplo, de policial militar, que diariamente está nas ruas, enfrentando a criminalidade que é reflexo da malversação do dinheiro público, da falta de escolas e de educação de qualidade, da ineficiência estatal para fomentar a geração de ocupação e renda, da falta de urbanização e moradia dignas. É coisa de PM que se desdobra em escalas sub-humanas, sofrendo com a escancarada falta de efetivo (que só faz cair, enquanto a população de Alagoas cresce); ou que termina seu serviço e sequer precisa sair do local da operação, pois mora nas grotas, vielas, no seio da criminalidade violenta; que vive em permanente estado de receio, com medo de descobrirem seu ofício e ser morto, ali, mesmo.

Protesto, desses com apitaço geral, é coisa para policial civil, que é obrigado a investigar os crimes de mando que são ordenados ninguém sabe por quem – se alguém sabe, é melhor ficar calado: esse povo é vingativo; que precisam desvendar o porquê de tantos jovens estarem se matando, o porquê de tantos assaltos estarem acontecendo, o porquê de tantos crimes; que se imbuem na caçada de bandidos e malfeitores que não temem nada e nada tem a perder, fazendo da bala sua principal saudação.

Fazer greve é coisa de professor, que enfrenta, durante anos a fio, por um salário de fome, salas de aulas com alunos cada vez mais hostis, filhos de famílias cada vez mais desestruturadas e pouco informadas; que trabalham em escolas – como noticiou o Jornal Nacional, hoje – sem a menor estrutura para abrigar alunos, com infiltrações, tetos prestes a desabar, sem material didático adequado, com déficit de professores e de profissionais; que precisam compensar, com habilidade, a fome dos alunos que não tem merenda ou dos que a tem de péssima qualidade, por conta da propina que algum político safado está botando no bolso.

Marchar pelas ruas é coisa do pessoal da saúde, que tem de transformar água em bálsamo para dar conta da imensa quantidade de pacientes que necessitam de tratamento; que se expõem, diariamente, a diversos tipos de contágio para, num ato que se aproxima da piedade, tentar salvar quantos podem; que dobram plantões e serviços para remediarem a ausência de profissionais suficientes, necessários ao atendimento daqueles que não podem esperar; que adoecem por não poderem fazer muita coisa com as condições que tem.

Em resumo, meus amigos, estou convencido de que fazer protesto é coisa de quem trabalha! De gente que sofre, que sua e que, dia a dia, vem tentando fazer Alagoas se libertar dos índices desgraçados que a nossa classe política faz questão de manter, ou, o que é pior, de atrair. Falo em atrair porque há um sentido nessa lógica nefasta: enquanto Alagoas for um lugar desgraçado, as arbitrariedades podem ser cometidas sob o pretexto que é nada se comparada à situação do Estado.

Repito, reivindicar é coisa de quem trabalha. Para os outros, que, em vez de trabalho, trazem em seu histórico uma lista imensa de crimes e desvios milionários de dinheiro, é mais fácil, mais prático e menos cansativo fazer uma assembléia entre si e decidir dobrar seus vencimentos – que já não são pequenos, considerado e efetivo benefício que trazem à sociedade – pouco se importando com a realidade do Estado, dos outros servidores públicos e, principalmente, da população que os elegeu.