Comerciantes de Palmares, na Zona da Mata Sul, que perderam tudo na enchente e precisam de empréstimo bancário para se reerguerem ainda não conseguiram sequer ter o cadastro aprovado. Grande parte das portas do comércio está fechada. Poucos conseguiram iniciar a reforma. Ao contrário do que o governo prometeu, inclusive assegurando o empréstimo mesmo para quem tem restrições na Serasa, a burocracia para ter acesso ao dinheiro é gigante. As exigências são muitas. Vão desde certidões negativas até comprovante de votação na última eleição. Pendências e dívidas também são obstáculos.
Gideone Santos é dono de uma ótica em Palmares. A chuva destruiu tudo. Ele viu mais de 700 armações de óculos e 200 relógios serem levados pela água. Um prejuízo de aproximadamente R$ 150 mil. Desde que ouviu o presidente Lula prometendo ajuda fácil e rápida, com R$ 1 bilhão de linha de crédito, o comerciante vai de banco em banco para tentar pegar R$ 50 mil. Em todas as tentativas, voltou de mão vazia. “Desisti. Perdi muito tempo. Agora, estou me virando como posso. Preciso limpar tudo aqui ainda. Exigiram até comprovante de votação. Só para pegar o boletim de ocorrência, provando que fui atingido, esperei das 5h até as 16h.”
O pai dele, Severino Bezerra da Silva, que é proprietário de uma clínica oftalmológica, foi até o Banco do Brasil de Catende e voltou para Palmares com um “não”. “Eles pediram muitos documentos. O governo prometeu emprestar dinheiro sem burocracia. Não tenho mais o que fazer.”
Marcionilo de Carvalho Pedrosa tem um frigorífico e, há 20 dias, não faz outra coisa a não ser tentar juntar todas exigências dos bancos. “Eles não estão liberando para os comerciantes que estão na Serasa. Se for assim, acredito que apenas 1% dos comerciantes vai conseguir o dinheiro.” Ele reabriu as portas ontem. “Graças ao meu fornecedor de frango estou começando novamente”, diz.
Em entrevista, na manhã de ontem, à Rádio Jornal, o presidente Lula comentou o assunto. “Falei com o Guido (Guido Mantega, ministro da Fazenda). Quero saber o que está acontecendo. Fui lá (em Palmares) e vi a situação. A gente precisa liberar os recursos. Eu disse ao companheiro Guido que não é possível, depois da enchente, a gente ficar exigindo as mesmas garantias que se exige para uma empresa sadia, que não passou por crise.” Lula criticou os gerentes de banco.
“É preciso que as pessoas larguem um pouco o manual e façam alguma coisa diferente porque o que interessa é voltar à normalidade.” O crédito foi repassado pelo BNDES para o Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal. O prazo de dez anos para o pagamento vale para operações de até R$ 50 mil. Entre R$ 50 mil e R$ 1 milhão, o prazo é de cinco anos, com os mesmos dois anos de carência. Os juros são de 5,5% ao ano, quatro vezes mais baixos do que os praticados normalmente.
Escrito por João Valadares,do Jornal do Commercio Recife
