Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:
oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/05/04/logica-da-politica-na-copa-de-2014-916493223.asp
Olá, pensadores!
Acostumados a tratar um povo passivo e que, muito raramente, faz valer seus direitos, as autoridades públicas brasileiras e a Comissão Brasileira de Futebol receberam, do presidente da FIFA, Jerome Valcke, um constrangedor “puxão de orelhas”, pelo atual descumprimento dos prazos estabelecidos para as obras que comporão o plantel para a Copa do Mundo de 2014.
O francês foi duro, incisivo e mandou às favas todo e qualquer eufemismo ou tentativa de gentileza na admoestação. Jerome usou o popular e disse na cara: “Porque vocês assinaram todos aqueles documentos e não cumprem?”, obrigando o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, a ficar sem resposta. Que feio, hein?
A reclamação da FIFA tem sentido: hoje, todas as cidades habilitadas à sede do Mundial já deveriam ter iniciado suas obras... Mas apenas seis (Manaus, Cuiabá, Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre), das doze, iniciaram as reformas e construções necessárias. Mesmo assim, em todas elas, as obras seguem fora do cronograma.
O que aconteceu, particularmente no Brasil, é que prevaleceu a lógica hedionda de escolha de representantes políticos. Até a eleição (nesse caso, do país sede), tudo foi dito para assegurar o evento, como promessa de campanha: projetos mirabolantes, previsão de recursos orçamentários sobrepujantes, assinatura termos de compromisso, etc. Mas, uma vez escolhido o Brasil, os responsáveis pelo projeto querem que tudo aquilo que foi dito e prometido não tenha a menor importância prática: afinal, já nos escolheram!
Há quem pense que é uma birra sem motivos essa que o presidente da FIFA está criando para com o Brasil. Eu, particularmente, acho da mais sincera pertinência. Ora, nesse caso da Copa de 2014, além do Brasil, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Chile, Colômbia e Venezuela, demonstraram interesse em sediar a competição. A escolha do Brasil envolveu, além da conveniência política, a avaliação do melhor projeto e de sua execução, situação indissociavelmente ligada a prazos. Daqui até a Copa das Confederações são apenas três anos e há estádios, como o “Nacional de Brasília”, que sequer saíram do papel.
A verdade é que a maioria dos gestores públicos brasileiros não gosta de prazos, nem está acostumada a eles. E, quando eles os são impostos, sempre se arruma uma maneira de burlá-los: é a rua esburacada que estará pronta daqui a seis meses, a escola nova que será construída em um ano, a compra de equipamentos que em quinze dias será licitada... Desculpa pra repórter. Balela pura!
Essa má fama brasileira parece correr o mundo a ponto de Jerome Valcke, quando “descia a lenha” em nosso “jeitinho” de conduzir os acordos que assinamos e as promessas que fazemos, usar ironicamente alguns velhos argumentos conhecidos nossos: “o Brasil só funciona depois do carnaval”, “até a copa do mundo, nada será feito...”, “esse ano tem eleições e, até lá, nada anda”.
Espero que a FIFA, diferentemente do passivo povo brasileiro (salvo raras exceções), tenha mecanismos eficazes para cobrar o adimplemento das condições aceitas pelo Brasil para sediar o Mundial. Mas temo que, logo logo, a FIFA conclua o que aqui não é difícil perceber: no Brasil, a demora não é fazer a obra; o que leva tempo, de verdade, é equilibrar os “ganhos” dos envolvidos na construção.