Olá, pensadores!

Não é novidade para ninguém que as novelas de Manoel Carlos são verdadeiras crônicas da vida real. Desde História de amor (1995), cujo roteiro foi alterado pelo Ministério da Justiça que considerou a temática de mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem inadequada para o horário, passando pela memorável Por amor (1997/1998) que abordava temas como bissexualismo, alcoolismo e jogo do bicho, e por Páginas da vida (2006/2007), onde a adoção e a síndrome de down foram abordadas, até a atual Viver a Vida (2009/2010), Maneco conseguiu inserir, em suas tramas, dilemas do cotidiano, trazendo à discussão popular, graças ao elevado grau de penetração das telenovelas, temas tidos como tabus ou intocáveis.

Contudo, em seu atual trabalho, apesar do esforço do escritor em tratar problemáticas como as dificuldades dos deficientes físicos, a vida do crime em periferias, os dilemas da profissão médica e as futilidades do mundo da moda, e alguns outros incidentais, nenhum outro tema tem tido maior destaque que a traição conjugal.

Em todos os núcleos da novela, a traição é elevada a primeiro plano, sendo o norte dos principais acontecimentos da trama. Tereza (Lílian Cabral) e Marcos (José Mayer), Betina (Letícia Spiller) e Gustavo (Marcelo Airoldi), Jorge (Mateus Solano) e Luciana (Aline Morais), Helena (Taís Araújo) e Marcos (José Mayer), Ricardo (Max Fercondinni) e Elen (Daniele Suzuki), Renata (Bárbara Paz) e Miguel (Mateus Solano), para ficar só nesses exemplos, são personagens que, na novela, já traíram ou foram traídos. Sinceramente, usando uma música popular de péssimo gosto, “é gaia pra todo lado”!

Não quero parecer antiquado ou conservador, mas há um exagero intencional no trato deste tema. Por que será? Ninguém duvida que, na vida real, sempre existiram e sempre haverá traições como as retratadas na novela. A grande diferença é que aqui, fora das telinhas, trair é um ato nocivo, causador de inúmeros malefícios, entre os quais, um dos mais danosos é a desestrutura familiar.

No glamour global, a traição tem sido tratada como normal e não repudiável. Ao contrário, ela é apresentada como uma ação legítima, moderna, aceitável. As cenas de enganação são embaladas por trilhas românticas, discursos apaixonados que aludem a verdadeiros amores, experiências inesquecíveis, sangue nas veias e calor. Os traídos e traidores, com raras exceções, estão mais felizes e mais livres. Quanta apelação!

É preciso ficarmos atentos! O poder de indução das novelas, que faz com que a moda de roupas ou jargões se dissemine no seio da população, não tem triagem. Aliás, não foi feito pra ter. A mensagem vai direto às mentes incautas que, sem pensar, passam a reproduzi-la. A traição de Viver a vida, como um produto, tem tido uma vitrine chamativa, sendo ofertada à  essa sociedade já tão carente de bons valores morais e sociais.

Não estou querendo dizer que, por causa da novela, mais pessoas passarão a trair. Aliás, não tenho como prever se isso vai ou não ocorrer. Mas a novela, como um produto da indústria cultural, tem o poder de mudar percepções coletivas acerca de fatos e situações e temo que, cumprindo seu objetivo, ela catalise esse processo e a traição passe a ser aceita como padrão desejável de comportamento, como o é na ficção.

A cena que foi ao ar, no capítulo 184 da trama, exibido no dia 15 de abril, em que Tereza (Lília Cabral) e Ingrid (Natália do Valle) discutem, desfecha-se em um incentivo expresso à infidelidade. Tereza encerra o debate, arrematando: “posso lhe garantir que é melhor amar e ser traída do que não amar nunca”. Ai de nossas famílias – e de nossas cabeças – se essa infeliz conclusão passar a ser o norte de nossos relacionamentos.