O professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Carlos Eduardo Carvalho, afirma em estudo sobre o Plano Collor que o confisco de uma parte das contas correntes e das poupanças da população brasileira poderia ter sido adotado por outro presidente, mesmo que vinculado a planos econômicos diferentes.

No artigo "As Origens e a Gênese do Plano Collor", o professor diz que a proposta do confisco já havia sido discutida pelas assessorias dos candidatos às eleições presidenciais de 1989, Ulysses Guimarães (PMDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atual presidente da República. Segundo ele, a medida teve ainda apoio de setores acadêmicos.

Há 20 anos, o então presidente Fernando Collor de Mello e a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, anunciaram o confisco de parte das contas correntes e da poupança dos brasileiros na tentativa de conter a hiperinflação registrada no período.

A ideia, segundo Carvalho, era impedir que situações como a do Plano Cruzado, em 1986, se repetissem: com a queda da inflação, o dinheiro que voltou a circular criou uma euforia que superaqueceu a economia e pressionou os preços para cima.

Oficialmente chamado de Plano Brasil Novo, o pacote econômico acabou reduzido, na memória nacional, ao bloqueio do dinheiro da população. Em muitos casos, economias ao longo de uma vida ficaram congeladas no Banco Central.

Com o Plano Collor, 80% de todos os depósitos das contas correntes, das cadernetas de poupança e do overnight (modalidade em que o investidor aplicava no fim do dia e recebia os juros no dia seguinte) acima de 50 mil cruzados novos foram congelados por 18 meses. O governo prometeu corrigir o dinheiro pela inflação da época, mas, na prática, apenas metade dos recursos foi devolvida.

Convertidos aos valores atuais, os 50 mil cruzados novos corresponderiam a R$ 5.588, corrigidos pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Caso fosse usado o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) da Fundação Getulio Vargas, a quantia representaria R$ 7.866.

Além do confisco, o Plano Collor caracterizou-se por medidas de liberalização econômica que visavam a tornar a economia brasileira mais dinâmica. As principais medidas nesse sentido foram a abertura do comércio, com o fim de restrições à importação e subsídios às exportações, e o fechamento e a privatização de empresas estatais, que resultaram na demissão em massa de servidores públicos.

Uma lei de 1994 anistiou os servidores demitidos durante o governo Collor, mas não garantiu a reintegração aos postos de trabalho. Em 2007, uma comissão especial composta por vários ministérios autorizou a readmissão de parte dos funcionários, conforme as necessidades de quadros e a disponibilidade de vagas nos órgãos federais.