Olá, pensadores!

Não há dúvidas que, em Cuba, impera um regime ditatorial que, mesmo sendo a “democracia de lá”, no dizer de Lula, nem de longe é aceito com unanimidade pelos cubanos. Como todo bom regime “democrático”, há dissidência. Também, não é novidade que Lula, Fidel e Raul Castro são amigos e parceiros ideológicos de longa data, parceria que teve uma de suas primeiras feições públicas em 1990 com a edição do Foro de São Paulo, que desde aquela época congrega os movimentos de esquerda (agora nem tanto esquerdistas) da América Latina e do Caribe.

É verdade, ainda, que quando tinha seu discurso firmado nos ideais revolucionários, Lula foi considerado pelo regime militar um dissidente, em 1980, ficando detido por trinta e um dias no Departamento de Ordem Política e Social, em São Paulo. Em 1981, foi condenado pela Justiça Militar por desordem coletiva, embora tenha recorrido e obtido a absolvição. Sua história pública não nega. Lula, até antes de assumir a presidência, era o dissidente por excelência.

Desde os tempos desse Lula combativo, operário, revolucionário e realmente esquerdista, muita coisa mudou. Depois de sucessivas “trombas” eleitorais, Lula entendeu que o discurso deveria ser outro. Agradar a gregos e troianos. Repaginou-se, fez a barba e foi eleito presidente do Brasil. De carona no bom momento internacional, fez seu nome. Anda por ai, procurando projetar sua imagem como o grande negociador.

Na sua ficha, a trapalhada com Manuel Zelaya e a frustrada restituição ao cargo do presidente hondurenho; o inconveniente com Mahmoud Ahmadinejad e suas pretensões atômicas; e, agora, as mundialmente rechaçadas declarações contrárias aos dissidentes cubanos. O parlamento Europeu, que Luís Inácio tem se esforçado por agradar em troca de reconhecimento internacional para suas pretensões pós presidência, declarou sua desaprovação ao regime de Raul Castro, deixando Lula descabriado. Até dentro do PT, muitas foram as censuras a mais essa falta de zelo do presidente.

Nesse caso de Cuba, com a intenção de ficar bem na fita com os velhos amigos de revolução, o presidente negou seu próprio passado, apoiado num falso discurso de apoio à democracia. Que democracia há em Cuba? Esqueceu que os dissidentes cubanos representam, exatamente, o que ele foi um dia. Que lutam pela mudança de um regime que oprime, assim como Lula lutou pelo fim da ditadura militar e dos governos de Direita. Os revolucionários de Cuba foram tão inocentes que clamaram ao “ícone brasileiro” que intercedesse na libertação dos presos políticos, junto aos Castro. Mas receberam do ex-revolucionário brasileiro uma punhalada fatal, em forma de discurso, comparando-os a bandidos.

A morte de Orlando Zapata e o gravíssimo estado de saúde do jornalista Guillermo Fariñas, ambos provocados pela greve de fome, não podem ser vistos, como quer fazer parecer o nosso presidente, atos de capricho. Se bem analisadas, são as legítimas extensões do Foro de São Paulo, se mantidos fossem seus objetivos iniciais. Morrem e estão morrendo em busca de liberdade, coisa que em Cuba não há, há muito tempo. Não são bandidos, são mártires. O mundo todo vê e declara isso. Mas Lula, sofrendo de amnésia presidencial e demonstrando ser mais fiel a conveniências que às idéias pelas quais um dia se sacrificou, demonstra, novamente, como tem habilidade em mudar de discurso.