Olá, pensadores!

Carlos Drummond de Andrade já dizia que “quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente”.

Nessa ânsia de ver tudo novo e mudado, os mais incautos se agarram às previsões... Buscam nas cartas, búzios e bolas de cristal o que a nova fatia de tempo nos trará. Ingênuos, depositam todas as suas fichas nessas projeções improváveis, como se 2010 fosse um pedaço de tempo desconectado do nosso tempo de agora... Como se as coisas fossem começar do zero pela simples virada do calendário...

Se é verdade que o novo janeiro nos enche de vontade de ver tudo renovado, é mais verdade que um ano novo é o fruto que se colhe do que se vai. Doce ou azedo, vai depender do que plantamos. Portanto, como um diligente motorista, enquanto não aprendermos a usar o retrovisor, de nada adiantará fazer previsão, comer romã, chupar uva ou pular sete ondinhas...

Enquanto não tivermos o hábito de olharmos para trás e a coragem de, nesse revival, irmos na contramão dos erros que cometemos, jamais encontraremos estação mais feliz que a que hoje, dia 31, deixamos para trás! A mesmice imperará e, excetuada a ilusão da virada, o ano novo será um antigo conhecido: é o velho ano novo!

Não podemos esquecer que 2009 foi um ano exemplar em escândalos e corrupção! Tivemos atos secretos, farra de passagens aéreas, castelos e fazendas não declaradas, agressões mútuas no Senado, deputados gazeteiros e suas notas fiscais falsas, panetones recheados, dinheiro em bolsa, meia e cueca...

Se, pela simples chegada de 2010, acharmos que “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”, esquecendo os nomes dos ladrões engravatados ou dando-lhes novos votos de confiança, coitados dos videntes: perderão seus empregos. Afinal, ninguém precisará ser babalorixá para acertar, na mosca, a previsão: o Brasil continuará essa pátria mãe gentil que a muitos esquece e a poucos enriquece.

Quem sou eu para discordar de Drummond, mas afirmo que, realmente, quem teve a idéia de fatiar o tempo foi um cara genial. Mas não por permitir que descansemos e recomecemos, do nada... O fabuloso do tempo em pedaços é que a gente pode escolher a fatia certa para fazermos o que é correto, justo e necessário e, efetivamente, nos orgulharmos de ter um ano novo, em verdade, novo. Essa fatia pode ser agora! Escolhamos um 2010 feliz!