Olá, pensadores!

Ontem, dia 23, parei com o carro num semáforo da Avenida da Paz, na altura da sede da Procuradoria Geral de Estado. Lá, um jovem de barba mal feita e roupa surrada fazia, com malabares incandescentes, estripulias, galgando as moedas dos motoristas mais comovidos.

Eu catei nos bolsos e, infelizmente, não havia trocado algum... O artista de rua aproximou-se do meu carro e eu, com vergonha, fiz um sinal com o polegar pra baixo. Ele me olhou e estendeu a mão vazia (a outra segurava os malabares, agora apagados) e disse: "Feliz Natal, doutor, e vá com Deus!". Eu apertei a sua mão, receoso. O sinal abriu e pisei no acelerador, deixando pra trás o homem. Na mente, rodopiando como suas bolas de fogo, suas palavras e votos...

Se verdadeiro ou não, o desejo daquele jovem, devotado a mim, me ocupou o pensamento. Entregue à própria sorte, ao talento e à generosidade do público eventual, a cada sinal vermelho, aquele homem escolheu ganhar dinheiro de forma honesta e corajosa, afinal, o contrato, ali, é de risco. Ele parecia ir na contramão do caminho que lhe destinaram.

Porque dependesse somente de nossa visão, egoísta e mesquinha, ali estaria não um artista em busca do sustento, mas uma ameaça aos motoristas e nossos carros cerrados... Os políticos vêem, nele, não um cidadão invisível ao Estado, mas um desocupado, preguiçoso ou um dos poucos não alcançados pela política de trabalho e renda...

Na visão da polícia, ele seria não um cidadão a ser protegido, mas um suspeito em primeiro grau... Dependesse da Justiça, em vez de um desamparado privado de direitos, aquele malabarista seria visto como um iminente agressor do ordenamento jurídico.

O meu carro é modesto, eu não trajava paletó e gravata e, mesmo assim, aquele homem me chamou de "doutor". Deve estar acostumado a cumprimentar os figurões que passam naquela entrada de Maceió ou deve achar que, diferente dele, todos o são. Preso à condição social, segue circense, distribuindo aos que passam sua arte e sua boa vontade, sendo visto por poucos e ignorado por todos.

Mais à frente, próximo ao Detran, me dei conta que não tinha retribuído o voto de "feliz natal" do malabarista. Ele, suponho, já deve estar acostumado com a nossa insensibilidade. No máximo, quando viu meu carro partir mudo de reciprocidade, deve ter remoído – e com razão – dentro de seu peito: "Feliz Natal, doutor infeliz".