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Postado em 03/05/2012 às 16:19

Uma charge

Em protesto ao fechamento da Rádio Comunitária Paraíso, em Pão de Açúcar

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Uma charge

Goretti Brandão

Liberdade de expressão é preciso!!!

Postado em 24/04/2012 às 10:42

Canudos, um lugar...

Entre pedregulhos e escarpas a beleza da natureza e a história se completam

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Canudos, um lugar...

Ida Tenório

Goretti Brandão

Saindo de Paulo Afonso e viajando alguns quilômetros em estradas asfaltadas, o rumo escolhido a seguir, subordina quem quer conhecer Canudos, no sertão baiano a outro tanto de viagem, agora, por estradas de barro e pedregulhos. A paisagem aprofunda o viajor por exóticas gargantas de paredes rochosas, com pouco mais de metro e meio de altura. Inevitável, a sua vista vai-se acomodando aos poucos, a registrar bancos de areia, terra vermelha, árvores desfolhadas ou com folhas secas. Jumentos andam juntos pelas margens dos caminhos. Também as cabras saltitantes, atravessam a estrada. Há certos momentos em que se tem a impressão de se vivenciar um déjà vu: Homens montados em cavalos magros, em marcha lenta sob o sol escaldante, à cabeça, seus chapéus de couro e uma mesma fisionomia empoeirada, que se opõe à alegria com a qual cumprimentam os estranhos, são imagens que se repetem, constantes, no decorrer do percurso.

Canudos, a atual, não é mais a mesma cidade, embora tenha trazido o mesmo nome para três localidades através do tempo. O lugar onde Antônio Conselheiro (Guerra de Canudos) chegou e se fixou no século XVIII, fica a 12 km dali, às margens do rio Vaza-Barris. Tratava-se de uma pequena aldeia no entorno da Fazenda Canudos.

Em 1893, Conselheiro e seus seguidores rebatizaram o lugar, como Belo Monte. A segunda Canudos surgiu em 1910, sobre suas ruínas e desapareceu embaixo das águas do açude Cocorobó em 1969. Antes, em 1950 a construção de uma barragem determinou a sua inundação. Cocorobó era o nome do vilarejo que em 1985 foi elevado a município, sendo rebatizada também como Canudos.

Mas, como tudo no sertão nordestino, por trás dos caminhos desolados, belezas exuberantes se escondem. Em Canudos, o visitante é surpreendido por grandes vales que, só para sirvam aos interessados como referência, têm paisagens que lembram o Monument Valley, nos Estados Unidos, um local bem visitado, onde fica situada a reserva dos índios Navajos. Além do que, ali se encontra ninhos das Ararinhas Azuis, um pássaro tipicamente brasileiro.

Espécie ameaçada de extinção, a ave é considerada como uma das mais belas do mundo. A Arara Azul chega a ter até um metro de comprimento. Apreciá-las exige que se acorde antes mesmo do dia amanhecer. A marcha até o local desafia os que se atrevem, mas é um deleite para os olhos e um refrigério para a alma. A Natureza a postos, diligente, vai se revelando aos poucos, descoberta pelas primeiras luzes da manhã.

Memorial, Parque, Instituto, são locais em Canudos, que preservam a História do lugar. As paisagens, por sua vez, revestem lugares imateriais, nossos, mais sutis. Elas constelam sentimentos inertes, os adocicam e nos convidam às proezas de conhecer seus viventes, de confiar neles para nos guiar pelos desafios de andar sobre pedregulhos, encostas íngremes, vegetação áspera, terra fofa entrando nos calçados, atoleiros e travessias de riachos.

Em meio a toda jornada, o contato humano com os outros, até então desconhecidos, é o que alinhava as emoções e borda na nossa própria história, a narrativa recente, feita com as cores mais bonitas da experiência vivida, costuradas com suas linhas que desenham e unem pontos para referir significados.
 

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Postado em 05/04/2012 às 18:26

Do Cinema feito em Alagoas até a Crítica Cinematográfica - debate

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Mediante o tamanho dos comentários, suscitados pela reportagem que intitula a matéria, resolvi disponibilizá-la aos interessados em acompanhar as argumentações:

Nuno ( Frequentador dos Cineclubes alagoanos) com a palavra:

Primeiramente quero parabenizar pela reportagem e mais ainda ao trabalho do Filmologia. Gostei das palavras do Ricardo Lessa quanto a sua crítica ao pensar cinema por parte dos realizadores alagoanos. A crítica é fundamental para o desenvolvimento da produção alagoana, porém senti que o diálogo se isolou em realizador e crítico, esquecendo-se de tudo que há entre os dois. Não foi ressaltado em nenhum momento o importante papel dos cineclubes no pensar cinema. Temos em Maceió diversos cineclubes funcionando semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente, que tem sim cumprido o papel de buscar o pensamento crítico e cinematográfico em seus debates e discussões. Ressalto o papel dos cineclubes Olho Vivo, Olhar Periférico, Filme de Quinta, Ideário, Tela Tudo, Projeção entre outros que não me veio na memória no momento. Ressalto também o papel desempenhado pelo Ideário e Projeção que mantêm em todas as suas sessões o debate pós-filme. Essas discussões sempre buscam uma visão que superam sua temática, visando o pensamento na crítica e num olhar mais cinematográfico. As escolhas dos filmes também são de grande importância, buscando exibir filmes do cinema clássico e contemporâneo como também seus realizadores; dessa forma criando d O Tela Tudo tem desempenhado um importante papel ao exibir clássicos do cinema na tela do cine sesi (exibiu Persona do Bergman, Noites de Cabíria de Fellini, Encouraçado Potemkin de Eisenstein). O Filme de Quinta exibiu ano passado diversas produções alagoanas, exibindo mostras e retrospectivas voltadas a realizadores alagoanos. Se tudo isso não for pensar cinema eu não sei o que é. O festival de Penedo esteve aí e os cineclubes desempenharam papel de importância na programação e realização. Falta a crítica também desempenhar seu papel, afinal as coisas estão acontecendo.
 

Ranieri Brandão - Editor do Filmologia responde:


"Boa, Nuno. Acho, primeiramente, que o diálogo proposto foi mesmo sobre "cineasta e crítica", porque o "o que há entre os dois" já é uma coisa mais legitimada, por aqui, coisa conhecida - daí os cineclubes terem conseguido organizar o festival de Penedo que nós, da "crítica", nem sequer fomos convidados como tal(como "críticos").

Se estamos numa luta pelos mesmos direitos de "visibilidade",acho que nós da crítica temos que reconhecer o papel dos cineclubes de Alagoas,ao passo que o pessoal do cineclube deve reconhecer o nosso papel como críticos,como pessoas que,como todos do cineclube estão desejando um certo cinema que deve ser visto.Penso que na matéria (feita por minha mãe, por sinal, porque por outros meios a gente não consegue aparecer aqui em Maceió, a não ser pelos "conhecimentos") o enfoque dado pende mais para uma questão de ter um local onde sejam expostos pontos de vista publicados, escritos.

Uma publicação que debata cinema, que não seja nem cineclube(sim,é questão lógica que os cineblubes "pensam cinema", isso não foi jamais negado),e nem o jornalismo tradicional,que a gente vê aos montes (isso quando vê),dizendo alguns absurdos como o que Ricardo citou na entrevista acima.Para mim,o que falta é essa junção,esse reconhecimento de que escrever sobre cinema, além de ser pensá-lo, é também um modo de fazê-lo,como Nando bem colocou aqui,na entrevista que saiu ontem.Se a crítica exerce mesmo um papel importante no Estado,onde estávamos nós,da única revista de cinema do Alagoas,q não recebemos nenhum convite oficial para irmos à Penedo,fazer parte de júri ou público-tanto faz?Acho que a crítica não tem obrigação de ser amiga de cineastas,mas sobretudo amiga ou não de seus pensamentos.E q esses pensamentos devem ser publicados.

O cineclube é uma etapa realmente bastante importante para o pensar(e também para formar grupos de amigos), não há dúvidas.Creio que os cineclubes por aqui ainda possuem uma posição bem mais privilegiada do que nós da crítica(somos só dois q nos auto-proclamamos:Ricardo e eu),pq acima de tudo,vcs exibem filmes,vc são vistos e não lidos vcs primeiramente estão COM OS FILMES,e nós,em tese,estamos primeiro com as opiniões sobre eles. Isso faz toda a diferença.Seria mais noticioso informar sobre a exibição de um filme de Werner Salles no festival do que sobre um texto que escrevi sobre ele no Filmologia(texto que seria publicado na revista Graciliano e nunca foi e nem me foi dada explicação sobre o porquê não).

A impressão q dá é q quem escreve aqui(e não quem exibe aqui)fica sempre pra segundo plano.Aí,se estabelece uma certa ideia clássica de q todo crítico é mal-humorado,q não têm moral pra falar sobre nada,pq não sabe nem ligar uma câmera(já ouvi coisas assim).E aí,procede-se à mesma coisa de sempre,às mesmas ideias sobre cinema,e tal.Acho que falta ao Filmologia,não sei como ainda,um contato maior com toda a produção (ainda pequena)alagoana.Não para ficarmos amigos dela,mas para q ela seja debatida num espaço fixo (numa revista eletrônica),tratando os filmes como outros quaisquer e não como "filmes bons,pois conseguimos filmar apesar das adversidades".Não sei dos debates q se travam nos cineclubes(eu,de fato,fui apenas naquela sessão do Projeção),mas ainda assim não vejo esses debates extrapolarem para fora de suas esferas.

A gente fica sempre numa coisa marginal,viciada-e tenho que confessar:identifico um certo problema nos cineclubes de Maceió quando eles exibem "os clássicos do cinema" e se filiam,aparentemente(esta é a opinião de quem está de fora),a uma História do Cinema puramente oficial.Para cada Fellini,Bergman e Eisenstein (um cinema que já se estabeleceu há décadas),ficam de fora milhares de Mambétys,Vecchialis,ou até mesmo Argentos,Bavas,Fulcis(que são mais conhecidos,mas meio negados pelo "bom gosto oficial").Bem como até cineastas tido como "comerciais"são ignorados pq me parece,a ideia do "cinema de arte",aqui em Maceió,é incorruptível,denota todo um padrão de cinema a se filiar e a ter inimigos para combater.Fica-se refém,por muito tempo,de olhar(Bergman,Fellini,Eisenstein,cineastas que amo,mas que nunca me impediram de amar um Jean Garrett ou Mario Salieri) e não se parte para outros-e,quando se parte,chega-se a cineastas também já bem legitimados nos "circuitos de arte"(termo q eu,particularmente,odeio).

Tenho a impressão q o cinema americano é bastante ignorado(acho q revolucionário e inédito será o dia em q algum cineclube exiba um filme do Spielberg para explicar pq o odeiam),ou algum do Craven,por exemplo,pra explicar pq ele não vale nada.Acho q por isso,aqui em Maceió,ter uma revista de cinema é bem menos visível do q ter um cineclube.Sinto q as escolhas q temos feito para nossas edições,outras mais e outras (bem)menos,são arriscadas.Pq ainda assim a gente está entre dois polos legitimados dos quais existem coisas q gostamos:o "cinemão",como dizem,e o "cinema de arte".A gente tá tentando dar o mesmo espaço a esses cinemas,pq temos carinho por muitas coisas de ambos.E não sendo tentados a cair nessas definições do q é cinema (Bergman,Fellini,Eisenstei,os filmes alagoanos válidos pq pequenos) ou do q não é (Craven,Spielberg,e por aí vai),delimitando oq deve ou não ser visto.Achei interessantíssimo o SESI ter exibido o "Cavalo de Guerra",do Spielberg;o SESI,q sempre teve a alcunha de cinema "alternativo".

Achei extremamente louvável eles terem exibido um filme tão bonito e tão deplorável(pra mim o foi) quanto esse Spielberg.Foi uma atitude mais hardcore do q qualquer cineclube daqui,pelo menos nos últimos dois anos,teve a coragem de realizar.Mas no final das contas,acho,já me estendi demais,e não quero,com isso,criar nenhum mal entendido..Só debate(impresso,registrado,para que os cineastas,donos de cinema,etc,q não foram ao cineclube,possam ler aqui oq pensamos sobre as coisas).E quero,de verdade mesmo,deixar claro q os cineclubes são importantíssimos sim,por aqui.Talvez até mais do que os filmes alagoanos q estão sendo feitos.Em todo caso,também saí do foco da matéria(onde estão os cineastas que não reconhecem a crítica em Alagoas?).Mas é isso.Um abraço."
 

Ricardo Lessa - Editor do Filmologia responde:

Nuno, meu amigo, não citei os cineclubes porque eu tentei direcionar aos que é produzido em termos de filmes no estado. mas claro que os cineclubes em Maceió tem um papel importante (como tem em Recife, no Rio, em SP), porque só no ato de programar a exibição de filmes que estão fora da zona de segurança.

Nuno:

Olhe, sei que não foi seu foco de seus comentários, mas na questão de exibir aquele não aquele outro como ser 'hardocore' parece equivocada. É só dá uma olhada na programação exibida por Olho Vivo (q já passou até trapalhões) e Ideário (em que o público muitas vezes escolhe o q quer ver). Claro que em nenhum momento busquei desmerecer o papel de crítico (jamais!), o fato é que busquei um pouco desse diálogo (inexistente?) de quem escreve, realiza e projeta cinema. Ser convidado ou deixar de ser não impede de ir ver de perto. É lamentavel que não se tenha essa dialogo com quem escreve, mas não podemos ficar apenas em discurso reclamando daquilo que falta. Por isso importante fazê-lo. Vocês fazem, mas pouco ou nada se vê prestigiando aquilo que acontece. E esses que fazem não esperam ser convidados, tomam a iniciativa. Cineclube tem conviver com público de 20, 30, 1 ou nenhuma pessoa. Acredito que a conversa já tenha se desvinculado da proposta da reportagem, mas é dificil não tocar nesses pontos.

Ranieri Brandão:

Então, Nuno. Bem colocada a questão dos Trapalhões – mas eu sinto que a escolha dos filmes deles é ainda um pouco mais segura, porque de algum modo, os filmes dos Trapalhões, hoje, consistem num imaginário já legitimado, sim: é o filme que vamos ver esperando encontrar o “trash”, o ridículo e a infância. Mas essa é apenas uma opinião minha, como tudo o que estou dizendo aqui, são visões bem particulares que tenho no contato com os filmes e na minha relação com eles enquanto público (porque eu sou público, também, todos somos). Acho que nunca recebi e-mails deles (Olho Vivo), daí, confesso, pode ter sido um erro de minha parte afirmar o que afirmei, se isso saiu num tom muito generalizante, peço desculpas – e aqui conserto dizendo: alguns cineclubes, sim, possuem um olhar mais voltado para um único tipo de cinema que, a mim, mesmo gostando, não é suficiente. A questão que coloco a respeito de um filme do Spielberg que poderia ser exibido em algum cineclube parte da ideia que o cineclube, aqui em Maceió, continua a exibir, SEMPRE, a exceção, e não a exceção da exceção. Claro, o cineclube existe muito para isso, para trazer o não-visto para a visibilidade; trazer a raridade para perto de nós. O que me assusta, às vezes, é que esse “fora da zona de segurança” que Ricardo fala pode se tornar uma sim uma legítima “zona de segurança”, como às vezes eu vejo aqui. Sinto que alguns filmes mal-vistos demais (e, paradoxalmente, muito vistos, como os do Spielberg), merecem, vez por outra, uma sessão, um debate que coloque aquele filme nos trilhos, no amor ou no ódio. É o que digo sempre: digo que seria bastante interessante sessões desses filmes. Talvez eu esteja, com minhas manias, querendo “reinventar” a natureza do Cineclube. Mas como possibilidade de uma sessão realmente desafiadora, cito, como exemplo, o Dissenso, de Recife, que dia desses exibiu “Pânico”, do Craven, um filme bem conhecido, que gerou toda uma série de continuações (o quarto filme, inclusive, eu acho ótimo). O que eu acho urgente aqui, é reconhecer que determinados filmes “comerciais” tem muito a dizer ou não – e, sendo ruins ou bons, como eu sempre falei, acho que um filme pode gerar boas discussões, boas exibições, bons textos (e não textos dizendo que o filme é bom, claro, se não tem jeito de gostar dele). O que cansa bastante, a meu ver, aqui, é ver escolhidos para serem exibidos geralmente muitos dos “filmes de arte” ou “clássicos” (eu nunca mais recebi e-mail de nenhum cineclube, mas os últimos que recebi, eram em sua esmagadora maioria,, se bem me lembro, de filmes que já estão bem estabelecidos no imaginário – e note-se, eu adoro esses filmes, só acho que eles devem dar espaço, também, para outros, daí eu sempre ficar sem vontade de ir para nenhuma sessão, totalmente desanimado. Eu sairia de casa, sem dúvida, pela curiosidade que um filme do Spielberg me despertaria não só por ele mesmo, mas por ele ser exibido num cineclube). Todos os filmes exibidos desses que tenho notícia, merecem totalmente ser vistos (e a rigor, todo filme, pra mim, merece uma olhada, um textinho que seja), não há dúvida alguma. O que falo aqui é sobre essa impressão que tenho, de que ao invés de passarem os mesmos filmes dos mesmos cineastas, porque não passarem filmes menos conhecidos desses mesmos cineastas, ou até mesmo os ultra-conhecidos desses cineastas “comerciais”, que são geralmente ignorados?

E claro que eu entendi totalmente seu ponto de vista, Nuno, meu amigo, e sei, certamente, que você, em nenhum momento, buscou desmerecer o papel da crítica, aqui em Maceió – tanto que você mesmo fez parte da equipe do Filmologia por um tempo. Creio que a questão que se coloca aqui é que não recebemos um retorno de ninguém, daqui da cidade – cineastas ou não. A gente recebe de alguns amigos, conhecidos, mas nunca de alguém inédito. Acho que é necessário compreender que, antes de mais nada, nós somos UM ÚNICO SITE, não temos companheiros nem parceiros, enquanto os cineclubes são muitos, ou aos menos bem mais do que nós, e, aparentemente muito bem organizados. Para nós, é importante sim, sermos reconhecidos e convidados para eventos do porte do festival de Penedo, porque aí sim se constitui o reconhecimento de que existe toda uma cadeia de cinema, de pensamento cinematográfico, circulando e acontecendo em Maceió. Isso pode parecer bastante absurdo, mas esses festivais acontecem tão raramente aqui que, acho, seria muito interessante para todos os envolvidos com realização, exibição e crítica terem seus respectivos postos reconhecidos, aproveitados, executados dentro de um evento do porte que foi o de Penedo. Claro, a gente não precisa ser convidado para nenhum evento, a gente pode ir se quiser, e isso pode parecer uma coisa mimada, esse desejo de ser convidado, mas pelo menos, em particular aqui em Maceió, sinto que, da parte de todos os que organizam eventos de cinema e tal, dentro de toda a dificuldade que a gente sabe que existe para organizar, deveriam, sim, nos chamar, porque nós também passamos pelas mesmas dificuldades que vocês, e porque, como eu já disse, nós não estamos com os filmes, mas com as impressões que temos deles – é um outro tipo estágio no contato com filme e público. Deveríamos sim ser chamados, porque nosso trabalho, aqui, ninguém faz, e ele é um componente, complemento do de vocês, e seria uma chance grande para a organização do festival, de levar mais coisas inéditas para sua estrutura, entende? Se a crítica é realmente algo importante por aqui, porque não reconhecê-la, convidando-a? Creio que seria uma bela tacada da organização, e o festival então ficaria realmente completo, sem nenhuma das etapas de pensamento de cinema ficando do lado de fora, marginal entre os marginais. Certamente, o festival renderia bons artigos (e não notícias), a gente gostando ou não dos filmes exibidos – porque o que importa é que os filmes sejam debatidos, escritos. E então o debate com os cineastas, e até mesmo com os cineclubistas que estavam na organização, seria fascinante, pois mais completo, mais cheio de outros olhares.

Acho que tudo é uma questão de via de mão dupla. Começamos, no Filmologia, divulgando algumas sessões de alguns cineclubes, tínhamos páginas fixas para isso, porque reconhecíamos o esforço de fazer tal trabalho aqui, e era parte de nosso trabalho divulgar algumas coisas, ajudar aqui e ali, ainda com os poucos acessos que tínhamos. Depois de um momento, ficou meio complicado manter aquela página, porque ela estava indo contra um certo perfil que o site assumiu no início e que, depois de quase dois anos, mudava gradativamente com a entrada de novos membros. Acabamos por tirá-la do ar, mas ainda assim, continuamos a divulgar algumas sessões de alguns cineclubes via Twitter, o que dava no mesmo, pois indicávamos os endereços com as informações direto nos blogs dos cineclubes. E ainda assim, ficamos no desejo (Ricardo e eu) de ter contato com os filmes feitos aqui (e não são poucas as vezes em que já se combinou – e em breve deve sair – fazer alguns artigos sobre filmes feitos em Alagoas), porque retirar aquela seção não queria dizer nada. Pode até ser uma questão de remorso, de “reclamar, em discurso, daquilo que falta”, mas, provavelmente, ficar calado não renderia uma conversa proveitosa como essa. A noção de cinema, aqui em Maceió, me parece muito limitada às questões particulares que nós, críticos, exibidores e cineastas, vivemos particularmente, sem conjugar muito bem nossos problemas, sem apresentá-lo assim, publicamente (e esse me parece um primeiro passo dado, não é, Nuno? Sim, é um grande passo que estamos dando), procurando alguma saída para sermos mais vistos e lidos.

Em todo caso, também não estou, de maneira alguma, atirando pedras na atividade cineclubista. Eu, particularmente, admiro muito vocês, sua força de vontade para fazer as coisas, sua organização que é de dar inveja. Novamente, o que me faz falar e reclamar, quando o foco foi virado para a questão do cineclube, é apenas uma posição quanto aos filmes escolhidos. Falei apenas para levantar uma questão, para finalmente, compartilharmos nossos problemas. Mas isso, esse meu problema com alguns filmes que são exibidos aqui nos cineclubes, a gente sabe, é puramente uma questão de gosto – de gosto ao escolher filmes, etc. Só acho que dentro desse pequeno público cinéfilo, devemos ser apresentados a visões de obras que merecem esse olhar, seja filme “de arte” ou “comercial”. Da mesma forma que estou dizendo que acho interessante trazer certos filmes pouco conhecidos ao lado de outros conhecidos que geram, da mesma forma, algum debate, acho que senti que existe também, Nuno, seu desejo que a gente cubra eventos, etc, que a gente dê essa visibilidade – e você está certíssimo. Expus as questões de minha perspectiva, você expôs as suas, e, resumindo, acho que, a partir de agora, os pingos nos is dessa questão tão inesperada (mas foi ótimo que ela tenha aparecido assim, tão de repente), entre crítica de cinema e cineclubes em Alagoas, talvez tenhamos resolvido e esclarecido que, se de fato, queremos uma movimentação cinematográfica em Alagoas, não dependemos só de cineastas, cineclubes ou crítica, separados entre si. Mas antes, da integração de ambas instâncias. Não necessariamente sendo amigas, dando tapinhas nas costas daquilo que se escreve, realiza e exibe, mas debatendo, conversando, sabendo um da existência do outro, sem ignorar ninguém. Para mim, é só o que falta para a coisa andar de vez. 

Postado em 05/04/2012 às 11:58

Do Cinema feito em Alagoas até a Crítica Cinematográfica

O confronto crítico é uma carência do cinema alagoano?

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Goretti Brandão

A minha intenção ao abordar o assunto sobre a crítica cinematográfica, inclui, além da opinião de Fernando Mendonça, um dos redatores do site Filmologia, outra opinião, desta vez, a de Ricardo Lessa, um dos editores da revista de cinema eletrônica. Ele é jornalista, um dos idealizadores e executores da proposta do site em abrir espaços à crítica cinematográfica em Alagoas. Deste modo, a nossa conversa ainda que sobre o mesmo tema, aconteceu dentro de um contexto bem delimitado: O papel do site, sobre o cinema, o espaço à recepção ou em como os diretores de cinema recebem a crítica cinematográfica, confronto crítico, enfim, assuntos discorridos a partir das observações e dos pontos de vista do editor, acerca do que ocorre no cenário da cinematografia alagoana.

“Toda crítica de cinema tem de trazer consigo alguma reflexão: o estado das coisas é muito mais torturante do que a margem parece querer dizer. Acredito que de tantos outros papéis, um dos mais primordiais do site seja justamente atravessar o pensamento que se mantêm à margem”. As palavras de Ricardo Lessa já definem a essência do Filmologia.

Ele observa que desde a inauguração do site, em 2010, a movimentação na produção cinematográfica de Alagoas deu uma chacoalhada, mas no tocante à percepção do que é e do que pode ser o cinema, o cenário ainda é rude, antiquado, anêmico. Sendo possível visualizar premiações “independentes” destinadas aos curtas metragens produzidos no estado, mas não existe um debate amplificador direcionado a esses filmes, diz ele. E por quê? Lessa pergunta: “Por que se faz filmes em Alagoas, mas não se pensa cinema? Por que se cristaliza essa noção prematura de que primeiro se faz um filme para depois pensá-lo? Por que não inverter, ou melhor, por que não fundir os papéis entre realizadores e pensadores?” São tais perguntas, que segundo o editor, fizeram o Filmologia surgir e que o faz permanecer na ativa.

Se a narrativa clássica é vista como defasada, a mensagem do Filmologia não pode ser compreendida

Eu pergunto a Lessa se ele acha que a crítica de cinema é realmente entendida e, digamos, percebida, tendo com referência e parâmetro, o próprio site. Por Alagoas? Ele me responde com outra pergunta e opina: “Eu acho que o site é muito mais lido do que debatido. Afinal, ele mexeu em alguns calos até então intocáveis. E se é compreendido? Sim e não. Os que poderiam compreendê-lo mais profundamente se negam a alçar o site para um status de confronto, preferem espiá-lo de longe, à espreita, de forma titubeante”.

Além disso, segundo Ricardo, também existe, evidentemente, a parte que não o compreende: “ Se uma editora de cultura do maior jornal do estado diz que a narrativa clássica é uma narrativa defasada, então, uma pessoa dessas não pode compreender a mensagem do Filmologia – porque ao criticar o clássico de forma tão rasteira, ela aniquila também o moderno, o contemporâneo, o pós-moderno, grosso modo: ela aniquila TODO o cinema”, lamenta ele.

O cinema feito em Alagoas


O confronto crítico é uma carência do cinema alagoano identificada por Lessa. Para ele, todo bom cineasta é antes de tudo um bom cinéfilo, e muitas vezes, um bom crítico. “Enquanto não houver uma verdadeira e profunda proliferação do pensamento crítico, o cinema alagoano continuará dedicado a ser exibido somente nos próprios cinemas – que aqui emite sinais de “currais cinematográficos -, será sempre condicionado ao olhar do “cinema amador”, do “filme amador”, não construirá asas mais potentes porque sua delimitação, enquanto filme de confronto – nível de pensamento – é quase que inexistente”, sentencia Ricardo.

Diretores alagoanos ignoram a crítica

E sobre a entrevista recente com Werner Salles, sobre o seu último filme? Por que a crítica alagoana não é citada? O Filmologia é acessado por grande parte dos países europeus: Inglaterra, Portugal, Espanha, Alemanha... No Brasil, com uma média de 130 acessos diários, e aproximadamente 3.900 visitas mensais, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, lideram a visitação ao site. Ironicamente, porque alagoano, Maceió, apesar de uma boa frequência de visitas, registra o seu menor número de acessos. Paradoxos à parte, o site existe. É referência. É acompanhado. É visto. E aí eu pergunto: Há alguma relação entre os cineastas alagoanos e o Filmologia ? O que falta?

Ricardo Lessa explica que aí se encontra o que ele analisa como: esse “pensamento de realizador”, esse espasmo fenomenológico. “Se pensa na imagem que é projetada – nua -, despida dos signos que ela poderia conter: a imagem enquanto presença imediata. Quando se faz um filme e não pensa nos signos cifrados que existem a cada plano, então há algo muito errado e esse equívoco é sintomático: é porque não existe um debate, uma troca de idéias entre o pensar e o realizar”, afirma.

Lessa acredita que os diretores alagoanos ignoram a crítica, porque, segundo ele, em Alagoas até o surgimento do Filmologia, ela não existia. Ele diz que, sinceramente, não sabe se esses diretores alagoanos acessam o site ou se importam com o que está sendo vinculado nele. Existe esse estado das coisas que já faz acelerar a produção cinematográfica em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Rio, Recife em que os novos cineastas andam de braços dados com o pensamento crítico: isso é importante, porque mesmo se por ventura atrapalhar, o confronto já estará lançado. E o que falta? A única vez que o Filmologia recebeu um convite para cobrir alguma mostra foi do Henrique Oliveira para a Mostra Sururu de Cinema, mas por alguns probleminhas não conseguimos cobrir o evento. Só isso.

Pelo número de acessos à matéria anterior e ao número de recomendações nas redes sociais, a partir do Ensaio Geral/ CadaMinuto, percebe-se que há um público interessado no assunto. Seria proficiente que alguém, talvez, cineastas alagoanos, por exemplo, tivessem algo a dizer a respeito dos pontos de vista de Fernando Mendonça e Ricardo Lessa. Com prazer os convido e deixo aberto o espaço do meu blog para o debate!

 

Para que você acesse

Site: www.filmologia.com.br
Twitter: @filmologia
Página no Facebook: http://www.facebook.com/pages/Filmologia/236446366391374

 

Postado em 04/04/2012 às 10:27

Da crítica cinematográfica até Werner Salles

Filmologia: Indicadores ou quase dois anos de atuação

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Goretti Brandão

Semana passada, tive a oportunidade de assistir a uma entrevista concedida por Werner Salles à TV Pajuçara, sobre o lançamento do seu filme: Interiores ou 400 Anos de Solidão. A gente percebe que nessas entrevistas, a conversa gira em torno do tema do filme e não do cinema em si. Ao final falou-se sobre o surgimento de novos cineastas, mas, em nenhum momento, sobre a crítica cinematográfica, atuando em diversos sites existentes em Alagoas. Na tentativa de entender o que acontece, a partir da ótica de quem faz crítica cinematográfica, conversei a respeito, com Fernando Mendonça, um dos redatores do site Filmologia. Formado em Biblioteconomia, pela UFPE • Mestrado/Doutorado - Teoria Literária, ele é integrante do Cineclube Dissenso e professor da disciplina Cinema e Literatura no curso de Cinema da UFPE.
 

Paulista, Mendonça mora no Recife há 10 anos. O amor aos filmes, de falar sobre eles, através do fórum MAKING OFF, um dos mais importantes espaços virtuais da cinefilia em língua portuguesa, segundo ele, propiciou o relacionamento afetivo com os editores do alagoano Filmologia. Ele estreou logo na sua primeira edição. Sua participação: um texto para o Dossiê Aki Kaurismäki. O seu comprometimento com o site, bem como pertencer ao grupo, como crítico, confirmou-se logo que o projeto se concretizou.

A proposta original do site

Embora não tenha participado na elaboração da sua proposta original, Fernando Mendonça sabia que ela dizia respeito a um estado crítico, ou mesmo a ausência dele, identificado pelos editores, particularmente, em Maceió. “O Editorial da primeira edição é claro. O site levantava certo grau de resistência contra o olhar crítico fragilizado que a região enfrenta. De certo modo, este foco se diluiu com o passar do tempo, a exemplo do fim para a seção de Cinema na Cidade, que pretendia se concentrar nos acontecimentos cinematográficos alagoanos”, pontua Mendonça.

Mas, segundo ele, a preocupação regional do site continua, já que seus membros continuam todos, num certo contexto nordestino. A fundo tal preocupação não desintegrou, mas se abriu a problemas que são muito próprios da percepção contemporânea de crítica de cinema à divulgação cultural, que não deixam claras as margens entre uma e outra abordagem e terminam por confundir ainda mais as mídias e a valoração do audiovisual.
O interesse crítico de reflexão anterior ao de oposição das fronteiras, das geografias, foi para Mendonça, um reforço positivo que as modificações do site trouxeram. Além do que, criaram uma heterogeneidade que atualmente é presente no Filmologia. Elas surgiram das articulações internas entre membros, de um para outro, de crítico para filme, de filme para espectador, muito mais do que das carências externas identificadas no início e combatidas.

Contextos da crítica cinematográfica

Inserido num oceano de semelhanças (a rede mundial), os espaços críticos proliferados, que nascem e morrem, dificultam o estabelecimento de propostas mais sérias ou duradouras. “Nunca tivemos como objetivo a popularidade e o recorde de acessos (que são verificados pelo editor Ranieri Brandão, que compartilha conosco alguns bons resultados), geralmente mais identificados em sites que se movimentam no ritmo dos lançamentos de cinema, conforme o sistema de mercado pede”, afirma Mendonça. Sem ter a preocupação de o site ter popularidade ou de cobrir filmes na sintonia da suas estréias, e sim, à medida que tais títulos os tocarem e pedirem ‘o espaço da letra’, esta poderá ser entendida como uma proposta de contramão romântica, mas, o redator se pergunta se existe algo mais romântico, no mundo contemporâneo, do que dedicar um tempo à escrita.

Conexão Alagoas - Pernambuco

Comparações entre as diferenças da aceitação do site, entre um estado e outro, são acompanhadas por Fernando através de sites e jornais alagoanos. Ele diz que não pode afirmar que Recife seja um paraíso cultural, mas que há um pequeno abismo entre Alagoas e Pernambuco encoberto por nossas fronteiras. E aponta, por exemplo, o interesse crescente pelo cinematógrafo em Pernambuco, perceptível em diversas áreas de difusão: exibições, pesquisa universitária, produção audiovisual. Mesmo assim, apesar do que pode ser um contraste com a realidade de Maceió, a reflexão crítica em ambos os estados, não é muito chocante.

“As diferenças que localizamos no interesse de nossa voz em relação aos críticos da publicidade e da imprensa oficial são bastante próximas nos dois estados, e pelo que identificamos de nossas leituras, a nível nacional. É curioso que a crítica eletrônica, esta que se difunde nos ambientes virtuais e naturalmente fratura uma compreensão geográfica, tem sido das mais ricas alternativas em todo painel crítico brasileiro”, assevera, Mendonça.

...Até Werner Salles. Interiores ou 400 anos de solidão. A entrevista aborda o tema fílmico não o cinema em si

Mendonça diz que esta é uma tendência muito comum atualmente: “Particularmente, acho que a discussão temática de uma obra (e não restrinjo ao objeto fílmico porque realmente me preocupo com isso em outras instâncias de representação) é um elemento que não pode ser deixado de lado, pois permite um horizonte de percepções que necessariamente atravessa a obra e justifica sua existência. O que me preocupa é ver que muitas vezes tais intenções não são ultrapassadas, tornando-se o ponto de partida e chegada do trabalho artístico, esgotando desde o início todas as possibilidades próprias de um sentido estético”.

Sem ter assistido a entrevista com o Werner, Fernando Mendonça não pode julgar os caminhos por ela seguidos. Mesmo assim, ele diz que chama à sua atenção que minha pergunta (em nossa conversa) envolva uma outra entrevista que certamente também se construiu por outras perguntas. “Isso me recorda uma reflexão seminal que T. J. Clark, um crítico e historiador da arte que muito admiro, fez nos idos dos anos 70, quando apontou como grande problema da interpretação artística o “não saber perguntar” a uma obra ou autor.

Provavelmente este excesso de culturalização que vemos ser abarcado por filmes e mídias decorre do que perguntamos a respeito destes materiais (o tempo plural cobre os artistas, o público, os críticos e derivados). Se continuarmos fazendo as perguntas erradas ao que assistimos e recebemos, nunca chegaremos de fato ao que tais experiências nos quiseram dizer”.

Novos cineastas e crítica cinematográfica

O desvencilhamento na prática de produção cinematográfica de sua cobertura crítica pode ser observado mundialmente. Esta é uma observação feita por Mendonça. Segundo ele, críticos não iluminam mais os cineastas como um dia o fizeram, mas apenas recebem e projetam sua sombra. E prossegue dizendo que enquanto não for retomada a consciência de que um exercício crítico perpetue a experiência de cinema (pois se a crítica literária também é escritura, a cinematográfica bem poderia ser comparável ao ato fílmico, elemento de pós-produção), dificilmente este cenário será alterado. Nesse sentido, ele diz não ser muito otimista: “Escrever sobre filmes não traz os holofotes que recaem sobre quem os realiza, isso não vai mudar. Mas de alguma forma os espectadores chegam aos textos, pois sempre há algo que fica do filme neles, entre as palavras que dedicam ao que se viveu numa sala escura”, pontua Fernando Mendonça.

 

 

 

 


 

Postado em 29/03/2012 às 12:29

Uma ideia curiosa: Não tenho como negar

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Goretti Brandão

A vida é curta. Não há como negar isso. Criança ainda, a morte é uma ideia vaga. A ausência das horas, com o significado que elas têm ou a própria condição de inocência, forja uma certeza inquestionável, de que morrer é coisa alheia. É para os outros. A gente nunca, mas, nunca mesmo, vai morrer. Pelo menos era assim que eu pensava aos sete, oito anos de idade. O tempo da infância é lento e a sua temperatura se mede por outros termômetros e se fixam na nossa mente, mais tarde, através de memórias que vão farejar cheiros, escutar onomatopéias, restos de conversas, objetos...

As minhas galochas, o barulho dos meus passos, pela avenida esburacada, o frontispício do Grupo Escolar, a bandeira do Brasil hasteada, são lembranças que aparecem bem em cima do meu baú de relíquias sagradas.
Minha vida é a sagração de miudezas, as quais mantêm o exato tamanho da minha altura, se assim posso dizer, porque revejo a meus pés, que pisam na lama da rua. Das mãos pequenas, meus lápis de cores espalhados sobre o chão frio de cimento, colorem ilustrações. E dos cheiros, as goiabas serpenteiam sob a luz do sol, entre os galhos, oferecendo perfume quase enjoativo. Quase.

Mais lembranças: Há um muro separando quintais, há vozes do lado de cá e do lado de lá. Um menino que se perdeu no meio da feira, veio ter à porta da minha casa chorando. Na sala da frente, o homem coberto de farrapos, bebe em goles avantajados, o café oferecido e, com as mãos ásperas e sujas, come pedaços de pão em grandes mordidas. Está com fome. Muita, coitado. “Nossa Senhora é quem há de lhe dar mais”, agradece e vai embora.

A infância é um grande misturar de estações. Do inverno, as goteiras pela casa, as bacias espalhadas, o tique-tique da água caindo, a impressão de que o mundo é parado, e dizerem que gira em dois movimentos é uma grande mentira, senão a gente caía no chão. Em que chão? Caía no espaço. Noção zero de espaço. A infância cabe a si mesma e faz as perguntas certas, nas horas certas. Quanta exatidão! E na primavera brotam das craibeiras, mulungus, barrigudas e canafístulas, singulares floradas. Quem anda pelo mato pode vê-las. Do caule de um Pau d’arco, se tiram cascas para fazer chá e o tronco do Anjico curte couro. Realidades imutáveis, ancoradas sobre um tempo que se arrasta enquanto a gente descobre coisas, leva safanões e aprende com quantos paus se faz uma jangada.

Como em uma fotografia, lembrei da minha boneca preferia, a minha Lucy. Amiga inseparável. Aonde foi?

Hoje eu acordei com uma ideia curiosa e contei quantos jogos de jantar já tivemos em minha casa, desde o início do casamento. Seis jogos, em quase três décadas. As mãos ensaboadas, os desleixos, deixaram quebrar a maioria. Fui conferir. Velhas caixas, em um dos quartos da casa, guardam peças soltas de cada exemplar. A poeira e a solidão de objetos que perderam funções ativam o meu desejo de mobilizar ainda mais memória, de contabilizar pires, xícaras, pratos de sobremesa. Hoje, todas as miudezas se fazem grandes e me contam.

O museu que me refaz  está guardado. Ele é cheio de coisas que falam, e, estranhamente, iguais às coisas da infância, elas continuam a requisitar e a exalar cheiros, onomatopéias e memórias que se colorem quase sozinhas, e que forjam em mim, uma arrojada certeza de que como os outros, eu também morrerei. A vida é infinita. Curto é o tempo que se tem para estar nela. Não tenho como negar isso!
 

Ensaio Geral

Blog de Cultura editado pela jornalista Goretti Brandão

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