Com o objetivo de valorizar a cultura local e engajar os jovens na preservação das tradições das comunidades alagoanas, o projeto “Entre Marés: Memórias e Retratos dos Jangadeiros em Alagoas”, idealizado pelo fotógrafo e educador Mateus Almeida, promove uma formação em fotografia documental em Maceió. Por meio do minicurso “Memórias e Retratos dos Jangadeiros: documentando um patrimônio cultural”, 15 estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Benedito Moraes, na Pajuçara, estão sendo capacitados para registrar e documentar o legado cultural dos jangadeiros.

Durante o curso, os alunos estão aprendendo aspectos técnicos da fotografia, com ênfase na documentação visual das práticas culturais dos jangadeiros, figuras essenciais para o patrimônio cultural alagoano. A proposta vai além da formação técnica, abordando temas como a passagem de conhecimentos intergeracionais, as dinâmicas do trabalho dos jangadeiros, o impacto do turismo na cultura local e as questões contemporâneas relacionadas à acessibilidade nos passeios de jangada, entre outros.

Para a Secretária de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas, Mellina Freitas, o projeto tem um grande impacto tanto na preservação da memória cultural quanto no envolvimento das novas gerações no processo de valorização do patrimônio imaterial.

"A iniciativa é um exemplo de como a educação e a cultura podem se unir para garantir a preservação da nossa história. Ao envolver estudantes da rede estadual, estamos não apenas oferecendo uma formação técnica, mas também promovendo uma reflexão crítica sobre a cultura local e o papel fundamental dos jangadeiros, que são guardiões de um saber que precisa ser respeitado e registrado para as futuras gerações", afirma a secretária.

 

 

Sobre o projeto 'Entre Marés'

A iniciativa busca construir um acervo de imagens e informações sobre os jangadeiros, contribuindo para seu reconhecimento como um Bem Cultural de Natureza Imaterial, conforme a Resolução Nº 001 de 2006 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O projeto é realizado com recurso da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, através do Ministério da Cultura (MinC), operacionalizado pelo Governo de Alagoas, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa.

Para Mateus Almeida, idealizador da ação, a fotografia é uma ferramenta de reflexão e preservação cultural. “Os jangadeiros fazem parte do cenário cultural de Alagoas, sendo ícones representativos por todo o litoral do estado. O projeto objetiva ampliar o acesso gratuito e de qualidade a informações sobre os jangadeiros, em uma construção coletiva que conta com a participação ativa da comunidade do Bairro Ponta da Terra”, explica.

Um dos principais colaboradores, o jangadeiro Vando desempenha um papel importante na transmissão dos saberes para os jovens. "A participação dos jangadeiros é fundamental para que esse registro seja autêntico e fiel à realidade dessa tradição. Eles compartilham suas histórias e desafios, permitindo que os estudantes tenham um contato direto com essa cultura viva", destaca Mateus.

Ele também ressalta a importância da presença de Vando no processo formativo. “Ter um jangadeiro com a experiência de Vando participando do projeto permite que os alunos entendam a cultura não apenas pela teoria, mas pela vivência real. As histórias que ele compartilha nos fazem refletir sobre a importância da preservação dessa tradição”, reforça o idealizador.

Seleção, metodologia e impacto do minicurso

A seleção dos alunos foi realizada por meio de uma carta de interesse, priorizando aqueles com maior envolvimento na temática do curso. “A Escola Estadual Benedito Moraes foi escolhida devido à sua proximidade com a região dos jangadeiros e pelo perfil dos alunos, que demonstram interesse em projetos culturais e comunitários”, explica Mateus.

A metodologia combina teoria e prática. Os alunos participam de aulas sobre fotografia documental e memória cultural, além de oficinas e saídas de campo para registrar o cotidiano dos jangadeiros. Os estudantes utilizam equipamentos fotográficos profissionais adquiridos com recursos da PNAB.

Mateus explica que o objetivo principal do minicurso é aproximar os jovens da fotografia documental e da cultura jangadeira. “Os participantes têm a oportunidade de explorar os princípios da fotografia documental, compreender seu papel na construção de narrativas visuais e desenvolver habilidades para registrar e interpretar a realidade ao seu redor. Além disso, o curso busca estimular um olhar crítico e sensível sobre a cultura dos jangadeiros, promovendo reflexões sobre a importância da memória coletiva, da identidade visual e da preservação das tradições desse grupo”, destaca.

“Espera-se que, ao final do curso, os estudantes sejam capazes de produzir registros fotográficos que dialoguem com a história, os saberes e o cotidiano dos jangadeiros, contribuindo para a valorização e a difusão desse patrimônio cultural”, reforça Mateus.

Ele detalha o processo prático do curso. “Os alunos terão um conjunto de aulas teóricas e práticas e, depois, irão à praia da Pajuçara para registrar os jangadeiros. Com as fotos dessa aula de campo, haverá uma exposição no Centro Cultural Arte Pajuçara, prevista para o dia 26 de maio de 2025”, disse.

O estudante Ryan Anailton, de 16 anos, participante do curso, destaca a importância da experiência: “Esse é um projeto muito importante, porque além de ensinar a fotografia, ele também nos mostra a cultura alagoana, que é a cultura dos jangadeiros. O contato direto com o jangadeiro Vando foi enriquecedor, pois entendemos o que é viver desse ofício e como ele faz parte da nossa cultura”.

Sobre o idealizador

Mateus Almeida é fotógrafo, educador e pesquisador, com uma trajetória consolidada na fotografia documental. Desde 2018, ele desenvolve projetos de documentação fotográfica no Brasil e no exterior. Em Alagoas, lidera o projeto “Alagoas: Histórias Litorâneas” e, como professor de Sociologia na Rede Estadual, une arte e educação popular para promover a fotografia como ferramenta de reflexão social.

Ele reforça o impacto da fotografia documental na conscientização coletiva. “A fotografia não é só um registro visual, ela tem o poder de contar histórias e provocar reflexões. Esse projeto não é apenas sobre capturar imagens, mas sobre dar voz a uma comunidade e ressignificar seu lugar na memória coletiva”, afirma.

"Minha experiência em fotografia documental e pesquisa sobre movimentos sociais e cultura visual me permite orientar os alunos na construção de narrativas visuais autênticas, ajudando-os a refletir sobre o impacto social da imagem. Sou fotógrafo há 10 anos e sempre trabalhei a partir do tripé ‘imagem-pesquisa-educação’. Nesse minicurso, articulo minhas três experiências, como professor, fotógrafo e pesquisador”, finaliza Mateus.