“Para mim, é como o dia que nunca terminou, a vida que nunca mais voltou. Mas prometi ao lado do caixão dela que seguiria em frente por mim, por ela e pela memória do meu pai.” Foi assim que o coordenador de Marketing Aldo César de Oliveira Holanda, 36 anos, que mora no Antares, em Maceió, descreveu a perda da mãe, vítima da Covid-19, em 9 de maio de 2020.

Em 11 de março de 2020, há cinco anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarava oficialmente a Covid-19 como uma pandemia. Nove dias após o anúncio, Alagoas começava a adotar suas primeiras medidas de contenção, sem que a população do Estado previsse o impacto que o vírus teria na vida de milhares de pessoas. 

Entre as mais de 7 mil vidas perdidas em Alagoas até agora, está a mãe de Aldo, conhecida carinhosamente como Dona Cida. O luto sem despedida, as restrições da época e a ausência de um velório tradicional tornaram a dor ainda mais difícil de suportar. Para ele, a pandemia não ficou no passado, sua ausência segue como um tempo que nunca se encerrou.

A data carrega um peso ainda maior — o sepultamento ocorreu no Dia das Mães, um domingo que se tornaria inesquecível não pela celebração, mas pela despedida abrupta e sem ritos tradicionais.

“O fato de não ter o rito de passagem, de não poder ter um velório digno, torna tudo diferente. Segurar a alça do caixão e colocá-lo no jazigo não trouxe a sensação de encerramento. Até hoje, sinto que não consegui me despedir de verdade”, lamenta. 

O primeiro ano sem a mãe também foi cruel. “A missa de um ano da morte dela caiu exatamente no Dia das Mães. Foi uma dor ainda maior.” O mês de maio, que antes significava celebração para ele, passou a carregar um peso imenso. “Enterrar minha mãe no Dia das Mães, no mês do meu aniversário, não foi e não tem sido fácil.”

Ainda assim, Aldo tenta seguir em frente, carregando uma promessa feita ao lado do caixão. “Prometi que ia continuar tentando viver da melhor forma possível”, mas a ausência ainda pesa. “Talvez essa sensação só termine no dia em que, se for da graça de Deus, eu possa me reencontrar com ela e com meu pai na eternidade.”

 

Posto de vacinação durante a pandemia de Covid-19 em Maceió – Foto: Edvan Ferreira/Secom Maceió

 

Impacto psicológico do trabalho na linha de frente

Assim como Aldo carrega consigo a ausência de um rito de despedida, a memória da pandemia também guarda a marca do sofrimento daqueles que estiveram na linha de frente. A enfermeira Ana Maria Moreira, que atuou em duas unidades hospitalares de Alagoas, participou da organização de protocolos, da criação de áreas de atendimento e da adaptação de procedimentos para cuidar dos pacientes. 

Ela também foi testemunha de um desgaste emocional profundo, tanto nos profissionais quanto nos pacientes. Além disso, precisou lidar com a sobrecarga  de trabalho nos hospitais, o medo da contaminação e a incerteza sobre a evolução da doença. 

Ana Maria recorda que “via colegas com pressão alta, com problemas de insônia, com medo, pegavam até atestado para não ir trabalhar, tinham medo de entrar nos apartamentos, ficavam em pânico quando viam familiares com Covid”. 

Ela destacou ainda que a saúde mental dos profissionais foi profundamente afetada, com muitos enfrentando sérios problemas emocionais. O estresse contínuo, a pressão e o medo constante de contaminação levaram até os médicos mais experientes a se verem em pânico diante da situação. 

Lições deixadas pela Covid-19 em Alagoas 

Em 20 de março de 2020, Alagoas decretou estado de emergência devido ao avanço da Covid-19. Cinco anos depois, o estado soma 7.368 mortes e 350.608 casos confirmados, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau), com a vacinação ainda disponível para todas as idades.

Em entrevista ao CadaMinuto, o médico infectologista Renee Nascimento afirmou que a comunidade científica já esperava o surgimento de um novo vírus de grande impacto, embora não no nível da Covid-19. No entanto, surpreendeu o fato do vírus ter surgido em um local tão distante, como a China.

O especialista destaca a importância do campo cientifico tecnológicos e a produção de vacinas. “A produção de vacinas terá um papel fundamental no futuro, sendo uma ferramenta essencial para mitigar novas epidemias e crises.” explicou. 

Outra questão abordada por ele foi a importância do fortalecimento da vigilância epidemiológica após a pandemia de Covid-19. Segundo Nascimento, esse avanço foi essencial para garantir respostas rápidas a novas ameaças sanitárias, mas ainda requer investimentos contínuos.

“A vigilância epidemiológica é feita por pessoas, e essas pessoas precisam ter uma boa capacitação, que deve ser constante e perene. Além disso, é necessário investir em tecnologia, especialmente na área laboratorial, para fortalecer os laços entre estado e municípios e garantir uma resposta mais ágil diante de novos surtos”, destacou. 

O Infectologista relatou ainda que apesar do impacto causado pela pandemia, a conscientização da população alagoana sobre medidas de prevenção a doenças infecciosas não se manteve ao longo do tempo. Nascimento menciona que o esquecimento é um traço humano natural, levando muitas pessoas a acreditarem que a Covid-19 não representará mais um risco significativo. 

Como consequência, práticas como o uso de máscaras e a higienização frequente das mãos foram deixadas de lado, mesmo com a continuidade da circulação de vírus respiratórios, como a gripe e o próprio coronavírus. “As doenças respiratórias virais continuam circulando, mas parece que simplesmente se passou uma borracha na mente das pessoas. Por isso, é necessário insistir em campanhas educativas”, reforçou.  

Covid longa e o impacto na saúde 

Mesmo após o pico da pandemia de Covid-19, muitas pessoas ainda enfrentam os efeitos prolongados da doença. Conhecida como Covid longa, essa condição afeta pacientes que, embora recuperados da infecção inicial, continuam a apresentar sintomas por semanas ou até meses.

Entre os principais desafios estão a fadiga extrema, dores musculares, dificuldades respiratórias e problemas neurológicos, como perda de memória e dificuldades de concentração. A Covid longa está associada à resposta inflamatória do organismo ao vírus, impactando diferentes sistemas do corpo. 

“Dores no corpo, dor de cabeça, ansiedade e problemas neurológicos, como a perda persistente de memória, são sintomas bastante comuns”, afirma o infectologista.

A circulação de novas variantes do coronavírus gera preocupações sobre seu impacto na duração e na gravidade da Covid longa. Especialistas investigam se essas mutações podem elevar o número de casos ou intensificar os sintomas persistentes da doença.

Algumas mutações anteriores mostraram maior capacidade de escapar do sistema imunológico, o que pode dificultar a recuperação dos pacientes ainda lidando com as consequências da infecção inicial.

De acordo com o especialista, “essas subvariantes conseguem atingir uma parcela maior da população”, o que torna essencial o monitoramento contínuo da eficácia das vacinas e do controle da disseminação do vírus. Isso ressalta a necessidade de mais estudos sobre a relação entre novas cepas e a síndrome pós-Covid. 

 

Centro de Maceió durante a pandemia de Covid-19 – Foto: Jonathan Lins/Agência Alagoas

 

Estratégias para enfrentar futuras emergências sanitárias 

Em resposta à reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) detalhou diversas ações e investimentos realizados após a pandemia da Covid-19, visando fortalecer a infraestrutura da saúde do estado e evitar futuros colapsos no sistema de saúde. 

A Sesau destacou que Alagoas foi um dos poucos estados que enfrentaram a pandemia sem registrar o colapso da Rede Estadual de Saúde. Segundo a secretaria, isso é fruto de uma política de saúde pública planejada desde 2015, com foco na regionalização e em grandes investimentos na abertura de novas unidades de saúde. 

“Nos últimos cinco anos, foram abertos sete novos hospitais, sendo três no interior do estado e quatro na capital alagoana, o que resultou no incremento de 833 novos leitos”, afirmou. 

Além de garantir a operação contínua da rede de saúde durante a pandemia, o Governo do Estado, por meio da Sesau, criou o Ambulatório Pós-Covid-19 no Hospital Metropolitano de Alagoas (HMA), em Maceió. Este serviço tem o objetivo de atender os alagoanos que sofreram sequelas da doença. 

Para acessar o serviço, é necessário que os pacientes procurem a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do município de residência, com o encaminhamento adequado. A partir daí, o agendamento para o atendimento será realizado via Sistema de Regulação Estadual (SISREG).

Para os próximos anos, a Sesau afirma que continuará a investir no fortalecimento da saúde pública de Alagoas, visando garantir que o estado esteja preparado para enfrentar futuras emergências sanitárias. 

A Secretaria enfatizou  ainda que, além de fortalecer a atuação conjunta entre as áreas de vigilância e assistência em saúde, estão sendo realizados investimentos em novos equipamentos e serviços inovadores. “Desde 2020, foram abertos 833 novos leitos na rede hospitalar do estado, além de seis novas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).”

Assistência para vulneráveis e novos hospitais em AL

Durante a pandemia, a pasta afirma que o governo de Alagoas concentrou esforços na assistência às populações mais vulneráveis, especialmente nas áreas periféricas do estado. “Durante a Emergência em Saúde Pública Nacional, o atendimento aos pacientes com Covid-19 foi a principal prioridade”, destacou a Sesau. 

Para garantir o atendimento necessário, o estado abriu novas unidades hospitalares, incluindo dois Hospitais de Campanha — um em Maceió e outro no interior — e três Centrais de Triagem, sendo duas na capital e uma no interior. Além disso, foram criadas Barreiras Sanitárias em pontos estratégicos para bloquear a entrada de pessoas infectadas pela Covid-19 no estado. 

“Todo o território alagoano recebeu a intervenção do Estado para prevenir, diagnosticar e tratar a população, especialmente nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que são unidades de urgência pré-hospitalares”, explicou a secretaria.

Ainda dentro dessa estratégia de fortalecimento, a Sesau anunciou a construção de dois novos hospitais que serão inaugurados nos próximos meses. O Hospital Metropolitano do Médio Sertão, em Palmeira dos Índios, contará com 150 leitos e receberá R$ 100 milhões do Tesouro Estadual. 

Já o Hospital Metropolitano do Agreste, em Arapiraca, terá 256 leitos e receberá um investimento de R$ 164 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Essas ações são parte de um esforço contínuo para garantir que Alagoas esteja bem preparado para enfrentar futuras emergências sanitárias e fortalecer ainda mais sua infraestrutura de saúde.

 

Foto de capa: Rovena Rosa/Agência Brasil

*Estagiária sob supervisão da editoria