“Cada canto da casa está tomado por objetos que ele se recusa a descartar. Esbarro em pilhas de jornais velhos, caixas e eletrodomésticos quebrados. É difícil, mas não quero desistir dele”, desabafa a estudante universitária Carla Santos*, de 22 anos, que enfrenta o desafio de morar com um pai acumulador.

Ela relata que voltar para casa depois das aulas nunca é um alívio. “É frustrante. Eu tento conversar, sugerir mudanças, mas ele sempre acha que tudo pode ser útil um dia”, lamenta.

O transtorno de acumulação afeta milhares de pessoas em todo o mundo e, muitas vezes, passa despercebido por quem não vivencia a rotina ao lado de alguém que sofre com a condição.

Caracterizado pela dificuldade extrema em se desfazer de objetos, ele pode transformar o ambiente em um espaço caótico, afetando não apenas a pessoa acometida, mas também seus familiares.

No caso de Carla, os desafios vão além da falta de espaço. Conviver com a acumulação compulsiva do pai impacta não só o ambiente físico, mas também sua saúde emocional, tornando o dia a dia ainda mais difícil.

Para compreender melhor as causas e os impactos desse transtorno, o CadaMinuto conversou com a psicóloga Helouise Vieira. Segundo a especialista, a acumulação compulsiva se diferencia do simples hábito de guardar objetos por apego emocional ou do colecionismo.

“No transtorno de acumulação compulsiva, a pessoa tem muita dificuldade em descartar ou se desfazer de posses, fazendo com que os objetos se acumulem, desorganizando áreas de convívio e impossibilitando seu uso”, explica. 

Ainda sobre o assunto, a especialista destaca que, “já no caso de quem guarda um objeto por memória afetiva ou por ser colecionador, isso ocorre de forma consciente, pois a pessoa reconhece o valor do item, seja por estima ou valor financeiro”.

Entre os principais sintomas do transtorno estão o acúmulo de objetos que desorganizam os espaços, o armazenamento de lixo ou alimentos em níveis insalubres, a dificuldade em usar os cômodos para sua finalidade original, conflitos familiares e sociais, além da dificuldade em organizar itens e da perda de objetos importantes.

A psicóloga destaca ainda que o isolamento pode agravar a condição. “Um dos sintomas mais prevalentes é a dificuldade em manter relações e atividades sociais. É importante frisar que, por ser um transtorno emocional, esse sintoma costuma ser inconsciente.” 

Segundo a psicóloga, lidar com um familiar que sofre de acumulação compulsiva exige paciência, compreensão e empatia. Muitas vezes, a pessoa acumuladora não reconhece a gravidade do problema, o que pode gerar frustração e conflitos dentro de casa.

Por isso, é essencial que familiares e amigos adotem uma abordagem acolhedora, evitando críticas e julgamentos. “O primeiro passo é entender que se trata de um transtorno, sem julgamentos, e acolher a pessoa para incentivá-la a buscar ajuda”, orienta.

 

Fatores emocionais e psicológicos

Segundo a psicóloga, a dificuldade em descartar objetos pode estar ligada a traumas ou perdas, tornando-se um mecanismo para lidar com a dor emocional. Além disso, pessoas que sofrem com essa condição pode apresentar outros problemas de saúde mental. 

“No transtorno de acumulação compulsiva, a pessoa encontra grande dificuldade em se desfazer de posses. Quem sofre com essa condição pode apresentar outros problemas de saúde mental, como depressão, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), entre outros”, pontua.

Para ela, o transtorno pode se manifestar de forma leve no início, mas tende a piorar gradativamente com o envelhecimento, causando problemas substanciais ao longo da vida adulta. Isso ocorre porque o acúmulo torna-se cada vez mais visível e desproporcional, resultando em um ambiente desorganizado. 

Helouise reforça que essa dificuldade também pode estar relacionada a um trauma passado, no qual a pessoa encontrou no ato de guardar objetos uma forma de lidar com a dor emocional, buscando conforto momentâneo.

A psicoterapia, segundo Vieira, é essencial nesses casos, pois ajuda a pessoa a identificar gatilhos emocionais e a trabalhar traumas que podem estar na raiz do problema. “A terapia auxilia o paciente a compreender os gatilhos, elaborar traumas e receber suporte para a diminuição dos sintomas”, afirma.

Já sobre a relação entre a acumulação compulsiva e a situação socioeconômica, Vieira ressalta que o transtorno pode afetar pessoas de qualquer classe social. No entanto, é importante considerar que indivíduos de baixa renda têm menos acesso ao tratamento adequado, seja por falta de recursos, informação ou políticas públicas.

 

Como ajudar um familiar acumulador?

A psicóloga reforça que o primeiro passo para ajudar um acumulador é o acolhimento. “Assim como em qualquer outro transtorno psíquico, é fundamental oferecer apoio sem críticas ou julgamentos”, acrescenta. 

Aina segundo a especialista, para quem sofre emocionalmente com a acumulação compulsiva, o acúmulo não é percebido como um problema, pois a pessoa perde a noção da realidade e tem dificuldade em reconhecer os impactos negativos dessa condição em sua vida.

Ela também alerta que tentar organizar ou descartar os objetos sem o consentimento da pessoa pode gerar ainda mais resistência. O ideal é que o próprio acumulador perceba os impactos do transtorno e aceite o tratamento. Além disso, a intervenção de familiares e amigos deve focar no incentivo à melhora da qualidade de vida.

Embora a psicóloga não tenha conhecimento sobre políticas públicas específicas para o transtorno de acumulação em Alagoas, ela destaca a necessidade de iniciativas que promovam conscientização e apoio a essas pessoas.

O transtorno de acumulação compulsiva vai muito além da simples bagunça. Compreensão, acolhimento e suporte profissional são essenciais para ajudar quem sofre com essa condição a recuperar sua qualidade de vida.

*Nome fictício 

**Estagiária sob supervisão da editoria