Caminhada matinal, sol escaldante e o suor virando serpentina na pele molhada , quando aparece a moça, com uma intimidade não sei das quantas:- E aí vai sambar muito no carnaval?

Eu, saindo do meu mutismo reflexivo, respondo: - Não sei sambar.

A transeunte falante , quase indignada, retrucou:- Como assim, uma mulher como você não tem samba no pé?

Com um sorriso, repuxando os cantos da boca, digo: -Você quer dizer, uma mulher preta, né, não?

Pois, é, não sei sambar.

Ela, mudando de assunto: - Foi ver o Pinto da Madrugada?

-Não tenho muito apreço pelas festas carnavalescas. E ninguém é obrigado a gostar do Pinto.-(trocadilho infame) - já afirmo para pôr um ponto final na conversa, sem noção

E a interlocutora entrando em surto (acho que deve ser a quentura no juízo), exclama :- Mentira!!

-Verdade!- respondo eu

E a moça, respaldando suas convicções festivas: Eu adoro carnaval!

Que bom, mas, eu não. Tenho fastio de multidões.

Que pena- diz ela e se vai frustrada, arrastando suas inquietações carnavalescas.

Ôxe é cada uma que dá duas!- pensei olhando pra moça indo embora

Quanto riso, oh quanta alegria…

Mulher preta não é fantasia de carnaval. Vale lembrar!