Na década de 1990, a Inglaterra aprovava uma das mais duras legislações sobre armas de fogo no mundo, o Firearms (Amendment) Act 1997 praticamente baniu a posse privada de armas de fogo naquele país. Sim, praticamente, pois há raras e especialíssimas exceções, como por exemplo para a Família Real. No Brasil a repercussão foi imediata e estrondosa com a comemoração das ONGs desarmamentistas, governo de Fernando Henrique Cardoso e a imprensa apontando o ato como um exemplo a ser seguido.
Nos anos seguintes criou-se – ou melhor, implantou-se – através da grande imprensa que a política de banimento era um sucesso no combate à criminalidade violenta, dando a ela todos os créditos pelo baixo número de homicídios na terra de William Shakespeare. Assim, da noite para o dia, em um passe de mágica midiática, a Inglaterra se tornou pacífica! O problema é que antes do desarmamento imposto em 1997, a Inglaterra nunca teve grandes problemas com crimes contra a pessoa, entre eles os homicídios. Isto está claramente exposto no livro Violência e Armas: A experiência inglesa (1), da historiadora Joyce Lee Malcolm (Vide Editorial, 2ª edição, 2014).
“Os registros históricos ingleses revelam um padrão constante, no qual os crimes contra a propriedade são muito mais comuns do que os crimes contra as pessoas. E virtualmente todos os historiadores concordam que os crimes contra as pessoas, especialmente o homicídio, declinaram na Inglaterra desde a Idade Média até o nosso século.”
Portanto não é plausível falar em redução ou baixa taxa de homicídios por conta do desarmamento, até porque a posse privada de armas de fogo na Inglaterra se popularizou a partir do século XVI, e os índices continuaram em queda até 1920, ano onde se aprovou o que poderíamos cunhar como sendo a primeira norma restritiva à posse e ao porte de armas naquele país.
Da mesma forma que nos empurraram goela abaixo e cérebro adentro que o desarmamento foi imposto devido ao problema do elevado número de homicídios – o que, como já disse acima, é falso –, a incapacidade de reverter a tendência de crescimento das mortes após 1997 foi varrida para baixo do tapete.
O gráfico abaixo mostra que o crime de homicídio continuou em crescimento por sete anos após o banimento das armas, iniciando sua queda somente a partir de 2004. Mas isso não duraria muito: entre 2016 e 2017, de acordo com dados oficiais do Governo Britânico (2), ocorreu um assustador crescimento de 25% nos assassinatos.
Os homicídios são comumente usados para mensurar a taxa de violência de um local, mas ele não deve e não pode ser o único, em especial em países com baixas taxas desse tipo de crime em sua história, como é o caso da Inglaterra. Se levarmos em conta os crimes violentos, entre eles os homicídios, tentativas de homicídios, agressões, roubos e estupros, já em 2009 o jornal The Telegrafh (3) anunciava o Reino Unido como o país mais violento de toda a Europa e, mais recentemente, em abril deste ano, Londres teria mais homicídios que Nova Iorque (4). Algo inimaginável há dez ou vinte anos atrás.
Em janeiro deste ano o jornal The Guardian (5), conhecido pela sua posição favorável ao desarmamento e demais questões queridas à esquerda, publicou a assustador crescimento da criminalidade na Inglaterra e no País de Gales. Vejamos alguns números: os crimes com facas cresceram 12% nos últimos 12 meses medidos, os crimes com outras armas, cresceram 20%. Os arrombamentos cresceram 32%. A epidemia dos chamados pequenos delitos é tão grave que em janeiro deste ano a famosa Scotland Yard noticiou que não investigará nenhum desses crimes se for necessário assistir mais de 20 minutos de vídeos de vigilância (6). Hoje, esse é o principal instrumento de “investigação” da polícia inglesa. Como exemplo da ineficácia da polícia inglesa, em seu livro A Faca Entrou, Theodore Dalrymple conta o caso de um jovem que foi pego após cometer nada menos que 256 furtos!
Ora, se as armas de fogo foram banidas e as taxas continuaram assim, o que aconteceu? A resposta não é simples, e nunca será. O reducionismo ao "armas" ou "não armas" não pode ser aplicado para se resolver uma questão tão complexa quanto a criminalidade que, embora complicada, está longe de ser impossível de ser explicada, desde que se adote uma discussão e análise muito mais profunda e ampla. Para isso basta recorrer aos livros de Theodore Dalrymple, em especial: A vida na sarjeta, Nossa cultura ou o que restou dela e o mais recente lançado no Brasil, A faca entrou, todos publicados no Brasil pela É Realizações Editora e disponíveis na Livraria do MVB. Em centenas de páginas e casos reais de quem viveu no sistema carcerário, como médico, não como preso, como gosta de frisar o autor, é possível verificar o declínio da sociedade inglesa e seus efeitos imediatos: o Welfare State, o multiculturalismo imposto, a conivência estatal com os pequenos delitos, o medo de encarcerar, a falência do ensino público e, principalmente, a degradação dos valores.

Afirmar que o Reino Unido é pacífico por conta da ausência de armas de fogo é duplamente falso: há muito tempo que a Inglaterra deixou de ter baixas taxas de criminalidade e, portanto, mais falso ainda é atrelar tais baixas ao desarmamento. É como estar numa sala escura procurando um gato preto que não está lá, mas, por incrível que pareça, não há dia que algum jornalista ou “especialista” não afirme que encontrou o bendito gato, afinal, o importante é a narrativa contra as armas e não em favor da realidade. É o desarmamento inglês para brasileiro ver.
1) Violência e Armas de Joyce Lee Malcolm
https://livraria.mvb.org.br/violencia-e-armas
2) Homicide in England and Wales: year ending March 2017
3) UK is violent crime capital of Europe
4) London murder rate overtakes New York's
http://www.bbc.com/news/uk-england-london-43610936
5) Rise in recorded crime is accelerating in England and Wales
https://www.theguardian.com/uk-news/2018/jan/25/knife-and-gun-rises-sharply-in-england-and-wales
6) Scotland Yard will not investigate low-level crimes if it means watching more than 20 minutes of CCTV