por Paulo Veras
“Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”, disse Jesus há quase dois mil anos atrás. Santidade de lado, ele foi sem dúvida um dos maiores líderes religiosos e provavelmente o homem mais mudou a história da humanidade. E mesmo tantos anos antes das grandes teorias políticas liberais florescerem, ele já era um defensor ferrenho do Estado laico; embora chegasse a ele pela vertente da Igreja santa.
Mas assim como o marxismo não era Marx, o cristianismo não é Jesus Cristo; principalmente se conhecendo o quanto, historicamente, a seita cristã se desviou dos ensinamentos daquele a quem chamam de “messias”. Talvez por isso, a confusão entre Igreja e Estado ou entre líderes religiosos e política siga tão forte até os dias atuais. Como exemplo nítido, pude presenciar a procissão em homenagem a padroeira Santa Maria Madalena, ocorrida no último dia 02 em União dos Palmares. O ápice da festa religiosa se transformou, também, num palco político.
Os três principais pré-candidatos participaram da cerimônia religiosa. Beto Baía (PSD) esteve lado a lado com o deputado João Lyra (PSD), fiador de sua candidatura. Um helicóptero do Grupo João Lyra sobrevoou a concentração da procissão, jogando pétalas de flores sobre os fieis. Paulinho (PDT) foi ladeado pelo ex-deputado Paulão (PT), seu ex-companheiro de partido. Os dois são os representantes da oposição na cidade, e já estiveram juntos na última disputa eleitoral em 2008, quando perderam para o prefeito Areski de Freitas (PTB). Pra esse ano, tudo indica que estarão mesmo em lados separados. Apesar dos diálogos recentes, Paulinho ainda “se vende” como terceira via, distanciando-se de Beto Baía, que encabeçava a chapa de 2008.
Do lado do governo, o candidato é o ex-governador Manoel Gomes de Barros (PSDB). Durante a procissão, ele esteve ao lado do ex-deputado João Caldas (PTN). Os dois faziam política em lados opostos na região até 2010, quando o ingresso de Mano no PSDB levou ambos a compartilharem o apoio ao governador Teotonio Vilela Filho. Naquele ano, uma reunião conhecida como “pacto por União” colocou as rádios AG Fm (Mano) e Farol FM (Caldas), para pedir votos para o governador. A Justiça retirou-as do ar até o dia da eleição.
À noite, durante o show financiado pela prefeitura municipal, o nome de Mano e do deputado estadual Nelito Gomes de Barros (seu filho) foram citados. Também estava presente, o presidente estadual do PSDB, Claudionor Araújo.
Assim, todos se aproveitaram do momento religioso para se colocarem diante do eleitorado palmarino, como acontece de quatro em quatro anos. Se seguissem a Cristo, talvez os cristãos de União se indignassem com a promiscuidade político-religiosa da cidade e dessem o troco na votação de outubro. E quem sabe assim, a gente pode ter uma prefeitura laica e uma Igreja santa, onde as mesquinharias dos interesses eleitorais ocasionais não valham mais do que a fé de um povo.
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