Olá, pensadores!
No início da odisséia humana, na visão descrita no pentateuco judaico, o homem era bom e livre. Vivia num jardim, gozando de todos os prazeres, dormindo com as feras, acordando com as aves. Na viração do dia, uma conversa, cara a cara, com ninguém menos que o próprio Criador... Todavia, certo dia, cansado dessa divinal mesmice, o homem decidiu quebrar a única regra posta e comeu do fruto da árvore central do jardim.
Acredito que violação da regra não se deu no momento da mordida no fruto. Mas, sim, no instante em que, questionado, o homem acusou a mulher, e esta, por sua vez, a serpente, que nem estava mais lá pra dizer coisa alguma. Estava criada a “desculpa”, como forma de se afastar da responsabilidade e, pior, para se manter imaculado perante os olhos alheios. O fruto da “árvore da verdade”, paradoxalmente, foi a mentira.
Desde então, o homem tem feito uso deste fruto. E há uma classe deles – os políticos – que, mais do que os outros, se fartam de mentiras, verdes e maduras. Mentiras que, insustentáveis, caem apodrecidas, exalando fétido odor. Eles comem e, ainda com a boca suja, declaram-se “limpos”. “Eu não sabia de nada”, "eu não participei do mensalão", "eu não pus dinheiro na bolsa, nem na cueca", "eu não fraudei a licitação" e tantos outros arrotos que verdadeiros ludibriadores públicos tentam emplacar para esconder a sujeira que, irreprochavelmente, são mestres em produzir.
De mentira em mentira, vão se sustentando na árvore, traficando influências, fazendo calar as vozes opositoras – que o diga o jornal O Estado de São Paulo – ou, ainda, determinando arquivamentos de denúncias nada éticos (não é verdade, Jaqueline Roriz?). Esse banquete de inverdades, não obstante provocar indigestões nos opositores, parece não ser razão suficiente para que nós, os ludibriados, nos insurjamos com a força que parece ser necessário. O mal estar provocado por tanta mentira vem sendo curado pela classe política com paliativos "sais de fruta", materializado num discurso repetitivo de correição e combate à corrupção. Onde? Quando? Mesmo assim, o pouco de sensibilidade ao fruto da mentira, regurgitado por alguns, está sendo, forçadamente, “digerido” e “engolido”.
Na história bíblica, os mentirosos não podem se esconder dos olhos do Criador e, por isso, suas culpas lhes atormentam. Entre nós, os que usam do ardiloso fruto sabem que o fazem para uma população pobre e desinformada, de memória curta. Em 2012, quando os cartazes estamparem a foto dos próximos candidatos, poucos se lembrarão destas presentes ausências de sinceridade. E, para eles, tais mentiras tornam-se irrelevantes, matérias frias de jornais passados. Elas passam a ser verdades. Cria-se, então, uma carreira pública “ilibada e sem mácula”, como têm alegado possuir os coroneis maranhenses e alagoanos. Ilibada?
Com tais frutos insidiosos, situação e oposição se enfrentam, nos palcos políticos, sublevando o interesse público ao derradeiro plano. Enquanto, os parlamentares se agridem, para saber quem mentiu menos, a população sucumbe por remédios e internações, recorrendo ao Judiciário como último sopro de esperança! Enquanto os senadores por Alagoas defendem causas vãs, o estado amarga os piores IDH e índice criminal do País.
No epílogo judaico, aos desfrutadores da mentira é dada a opção de arrependimento, com anistia total de suas faltas. Lá, os que assim desejam, reencontram-se com a verdade abandonada no Éden. Aqui, os nossos representantes se preocupam com o porvir imediato... Inversamente, para continuar no poder, eles querem mesmo é mentir. Numa antítese machadiana, espero que os eleitores não lhes sejam leves!
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