Cada Minuto [atalho H]
04/07/2011 - 16:56

À minha gente de Pão de Açúcar: Agora é a vez de pensar o futuro

Goretti Brandão

O Iate Clube Pão de Açúcar foi palco da mais importante celebração do aniversário de 400 anos da fundação da cidade. As famílias foram chegando e encheram a pracinha em frente ao local. Já ali tinha início os momentos de grande emoção entre os conterrâneos, a alegria do encontro, os abraços fraternos e as conversas animadas. Às 19h do dia 1º de julho tivemos, a gente de Pão de Açúcar, o extremo orgulho de sermos filhos do Espelho da Lua.

Acomodados no salão do clube, misturamos os tempos, num grandioso momento metalingüístico: uma história acontecendo para fazer a leitura de outra já feita. Presentes e ausentes estivemos unidos pela memória. Os homenageados receberam por direito, o justo merecimento de saírem das fronteiras erigidas por aqueles que criam títulos de honra para alguns poucos, geralmente políticos ou ‘bem-nascidos’, e deixam os demais no esquecimento, como simples figurantes de suas narrativas de privilegiados. A cidade é feita por todos.

A festa ressuscitou ausências. Para cada nome evocado, delirávamos em nossas saudades, à memória dos seus rostos, das suas características, da sua função social. Pedreiros, pescadores, professores, artesãos, músicos, o artista Joãozinho Lisboa, poetas, médicos, serviçais da saúde pública do antigo F-SESP. Quem pode esquecer a saudosa Lu, a merendeira do Bráulio Cavalcante? Além dela, conosco estavam todos aqueles que resgatamos pela lembrança do nosso afeto e reconhecimento.

Mas é também grande o sujeito que perambula pelas ruas. O pedinte e o louco que se tornam presenças emblemáticas no cotidiano do lugar, e que fazem parte de nossas saudades quando desaparecem. À minha geração, Maria-Doida, Cassimiro, além de tantos outros, produziram cenas e pérolas espetaculares para uma espécie de ensaio literário virtual, que resiste no imaginário da população, através de atitudes e comportamentos, extravagâncias e excentricidades, que jamais passariam despercebidos por nós.

Faço questão de salientar e fazer jus, à figura legendária de Rosa de Lia, negra centenária, da qual sinto orgulho de ter sido sua amiga íntima. Ela, que conhecia como ninguém, o retrato e a alma da cidade, as famílias que habitavam a Pão de Açúcar do final do século 19, as histórias pitorescas, além de ter sido a memória viva das gentes e da terra de Jaciobá, tão mal aproveitada por todos nós. Foi-se com ela, sem sombra de dúvida, o maior cabedal de um tempo, que faz parte do arquivo morto, ficando na condição que meu grande amigo, o poeta conterrâneo Zé Paulo, nomeia como ‘desvio de cultura’.

É o ponto negro que surge do vácuo da ausência da ‘fotografia’ de certo período da vida da cidade. Nele, ficam soterradas as pessoas, suas produções de cunho artístico, cultural, etnográfico. É por isso que Pão de Açúcar precisa de imediato, conferir e preservar feitos e nomes do presente, trazendo para a realidade tangível os fatos e os elementos que marcam a sua trajetória. Isso requer a criação de instituições que materializem, atualizem, agreguem e legitimem a alma do seu povo. Como faremos isso acontecer?

Em 2011, poetas, músicos, artistas, artesãos, escritores, médicos, loucos, populares, também estão atualizando, construindo e escrevendo as páginas da vida em Pão de Açúcar. Quem é a essa gente? Quem são essas personagens? Parabenizo a iniciativa dos gestores públicos e da sua equipe de assessores, pela bela iniciativa, decerto inesquecível para todos nós. Agora é a vez de recolher, cuidadosamente, tudo aquilo que constará das futuras memórias para as novas gerações. Não há tempo a perder!

 

Redação

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