Esste texto foi publicado, também, no portal O Globo:
http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2011/06/08/palocci-caiu-de-quem-o-problema-924639755.asp
Olá, pensadores!
Não foram as denúncias que derrubaram Palocci. Disso todos sabem. O ministro caiu porque se, de um lado, ele representava o aporte de apoio que o PT e o governo precisavam para atrair “investimentos”, de outro e não menos importante, ele exercia a fundamental missão de coordenar politicamente o governo Dilma, especialmente, em ares além Esplanada. Essa última tarefa, não tenham dúvidas, era necessária à sobrevivência política de Palocci.
Ocorre que o ministro perdeu, com a instabilidade política que as denúncias apenas deflagraram, a capacidade de articular que o levou à Casa Civil. Do jeito que estava, Palocci não conseguiria articular ou coordenar nem mesmo os talheres da cozinha de sua casa, que dirá a bancada parlamentar que já se movimentava para, não obstante ser maioria governista, instaurar uma CPI para "cuidar" do caso.
Como se sabe, no Brasil, as CPIs não têm outra missão que não fazer barulho, visando atacar o governo. Pouco importa se investigará as supostas irregularidades cometidas. O que vale é abalo imagético que a comissão pode provocar. Palocci não seria investigado para explicar sua miraculosa evolução patrimonial. Ele seria pivô de uma crise institucional capaz de ferir ainda mais gravemente o ainda "engatinhante" governo da presidente Dilma Rousseff. E, ela, que parece andar meio nos bastidores, certamente não desejava ocupar o palco principal numa “tragédia” como a que se prenunciava.
A solução foi inteligente e necessária para o governo. A dispensa de Palocci, calculadamente ocorrida após a emissão de uma açodada inocentação feita pelo procurador-geral da República, trará dois benefícios imediatos ao governo. Primeiro, evitará o desgaste de uma CPI e de não sei quantos dias de exposição negativa da imagem do Planalto pela mídia. Depois, permitirá ao governo destituir alguém que não conseguiria mais cumprir seu papel de articulador político, dado o desgaste, nomeando um outro nome neutro para desempenhar tal papel, sob o pretexto de lhe ter sido confiado uma nova missão.
Mas, a pergunta que não quer calar é: agora que Palocci caiu, a origem de seu patrimônio mágico será, ou não, investigada? Aliás, essa questão, agora que ele não é mais ministro, não é mais governo, continua importante? O fato de ele ter, ou não, se valido de informações privilegiadas para enriquecer continua sendo relevante? A imprensa continuará a dar ao caso a mesma atenção que vinha dispensando nos últimos dias?
Temo que não. Receio, também, que Dilma, como é praxe, fez o que se faz nesses casos: bancou a durona, exonerou e, num julgamento sumário, perdoa os supostos equívocos, engavetando-os, retirando-os do holofote. E a maior parte da sociedade, que assiste tudo passivamente, como se nem fosse nosso o problema, faremos pior: daqui a cinco ou, no máximo, dez dias, teremos esquecido tudo isso, como esquecemos os outros escândalos protagonizados pelo ex-ministro.
Vejam bem: nesse caso, Palocci pode até, de fato, ser totalmente inocente. Pode sim. Somente uma investigação séria comprovará tal possibilidade. O problema é que essa investigação, a tirar pelo que é costume no Brasil, não será feita. É como se a exoneração, por si só, fosse suficiente. Daí os governistas encherem a boca para dizer que, agora que Palocci não é mais ministro, qualquer investigação perdeu o sentido. Perdeu o sentido?
Não, governo, não perdeu o sentido, não. O Brasil precisa de uma resposta decisiva sobre essa questão. Assim como precisa de respostas conclusivas sempre que fatos dessa natureza surgirem. Tais definições afastam a impuniadde e são necessárias para impedir que a corrupção, essa mazela impregnada em nosso sangue, continue vigorosa, nutrindo-se a cada dia, crescendo e rindo da nossa cara. A oposição tem nas mãos uma excelente chance para demonstrar que, quando pretendia investigar Palocci, não queria apenas fazer pirraça política ou joguete de interesse, mas, antes, estava interessada em zelar pelo bem. Será?
Se Palocci caiu porque não mais teria utilidade ao governo ou porque lhe faria um imenso mal, isso é um problema particular dele e do governo. Mas o fato de ele ter multiplicado assombrosamente seu patrimônio, sem causa que justifique ou explique tal milagre, continua sendo problema de qualquer brasileiro quem tem o mínimo de responsabilidade cidadã. E, se é problema nosso, nós continuamos querendo vê-lo solucionado.
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