Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo.
oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/08/20/o-sorriso-de-pedra-a-descida-de-serra-917444517.asp
Olá, pensadores!
Para enfrentar uma campanha eleitoral, há que se ter mais que um bom passado político e boas referências. Num país como o Brasil, onde a imagem dos comerciais e as chamadas de marketing são capazes de influenciar bem mais que a história - boa ou má - dos seres políticos, há que se ter inteligência e uma boa visão do jogo.
Estivéssemos nós numa outra nação, com outra cultura, talvez a falaciosa campanha tivesse o efeito contrário: o candidato que se mostrasse simpático, risonho, promissor, contrariando toda sua vida pregressa, estaria cavando sua própria cova política. Mas estamos nos limites tupiniquins, e o "pão e circo" ainda funciona que é uma beleza. Sorrisos e maquilagens são mais que suficientes para engodar um povo que, no geral, desconhece até as atribuições que terão os candidatos em quem votarão.
Assisti aos primeiros programas da propaganda eleitoral gratuita de ambos os candidatos e tenho acompanhado seus últimos debates públicos. Sinceramente, a campanha esse ano está, no mínimo, desanimadora.
Tem me impressionado a falta de habilidade do candidato tucano à presidência da república, José Serra. De favorito, há menos de dois meses, o candidato já dista, mais ou menos, quinze pontos percentuais de sua principal rival, Dilma Rousseff, segundo os principais órgãos de pesquisa de intenção de votos. Se, no PT, o marketing tenta camuflar o azedume, no PSDB, ele afronta a inteligência do povo.
O discurso pseudomaternal de Dilma Rousseff e suas frases inócuas ainda me soam com uma suprema artificialidade. Vendo a candidata de Lula em seu programa, sou quase capaz de identificar o ventríloquo que a põe no colo e manipula sua mandíbula, fazendo-a pronunciar seus balbucios românticos. A carranca de Dilma é tão forte e sua falta de empatia tão gritante que a vejo como um sorriso pintado numa pedra. A Dilma da campanha, para mim, ainda não passa disso: um sorriso de uma pedra.
Mas seu principal adversário tem conseguido fazer um programa ainda pior. Sua autenticidade tem sido boicotada por sua inacreditável inabilidade. Serra fez da critica ao governo que tem, aproximadamente, 80% de aprovação popular, seu mote de campanha. Ao criticar o governo, Serra parece não entender que está contrariando os 80% de brasileiros que dizem aprovar o modo Lula de governar. A reincidência do tucano chega a ser burra.
Enquanto isso, Dilma Rousseff, que caiu de pára-quedas presidencial no cenário eleitoreiro desse ano, vai fazendo o dever de casa: endeusa o presidente Lula, se coloca na condição de princesa herdeira do trono e da missão, promete fazer mais do que ele fez e se esquiva das perguntas sobre seu passado na militância, sobre reformas não feitas no atual governo, sobre o PAC pela metade, sobre as mentiras que rondam sua vida.
E José Serra, numa espécie de autoboicote, segue demonstrando descontrole nos debates e preocupa-se muito mais em tecer críticas do que mostrar porque, realmente, "o Brasil pode mais". Focado em desacreditar o governo popular de Lula, o tucano só faz perder tempo, confiança e pontos na intenção de votos.
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