Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:
oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/01/14/haiti-os-homens-maus-de-la-de-ca-915524965.asp
Olá, pensadores!
Muito mais que ação indomada das forças da natureza, o Haiti sangra, hoje, uma dor de séculos de desgoverno, desrespeito à população e de ditaduras e golpes de Estado que impediram o país de manter o título que alcançou, no início do século XVIII, de a “Colônia mais próspera do Novo Mundo”.
De terra extremamente fértil e habitada por gente dada à agricultura, o Haiti destacou-se na produção de banana, manga, milho, batata-doce, legumes e tubérculos. Mas, seu principal produto era – e continua sendo – o açúcar. Foi esse açúcar que, com o das Antilhas, desbancou o brasileiro no mercado europeu, alguns séculos atrás.
Uma terra fértil, onde, a exemplo do Brasil, “em se plantando, tudo dá”. Entretanto, a semente jogada nesses séculos de colonização e independência do Haiti, com as ditaduras de Papa Doc e Baby Doc, com as constantes violências aos direitos humanos provocadas pelos golpes militares de Estado e guerrilhas intermináveis, e pela constante subjugação da população à extrema miséria e falta de educação, gerou frutos amargos, apodrecidos com essa catástrofe.
Não podemos culpar somente a natureza. Quantas vezes o Japão foi destruído por terremotos e, como fênix, ressurgiu cada vez mais forte, imponente, potencial? O que há de diferente entre a catástrofe natural no Oriente e no Haiti? O que falta aos haitianos? O que sobra nos japoneses? A verdade é que o Haiti sempre esteve entregue a homens maus, que nunca se importaram, de verdade, com sua nação e seu povo.
O Haiti, com sua impressionante e comovente taxa de mais de 80% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, já se arrastava moribundo, gritando dores de morte. O terremoto de há pouco apenas catalisou, para muitos, o último suspiro. O Haiti já perecia, falecia, sucumbia... Agora, entra em profundo coma. E só assim o Mundo voltar a olhar para os haitianos. Esperamos um desastre agravar a situação dos que sofrem para movimentar o mundo pela fome e desamparo daqueles caribenhos.
Brasil e Haiti são pátrias irmãs. Terras de mares, de solos férteis, de povo alegre, musical e festeiro. Terras de má divisão de renda, de parcelas consideráveis da população vivendo em estado de miséria, nas favelas das grandes cidades ou na sede do extenso sertão. Quase todos sem cultura, sem educação... Em algumas partes do Brasil, como diz o poeta, “o Haiti é aqui”. Temos um Haiti nosso. E também temos homens maus.
Será que o Brasil vai esperar que algum desastre natural sobrevenha aos brasileiros do “nosso Haiti” para que possa tirá-los da miséria? Será que já não ocorre isso toda vez que as chuvas desabrigam milhares de pessoas, destroem casas e o pouco patrimônio que trabalhadores amealharam durante toda a sua vida? Será que não se comovem com o sofrimento das crianças e famílias que morrem sem água e sem comida no sertão nordestino? Que falecem nas ruas e semáforos, em busca de moedas? Tem de haver um terremoto aqui também?
É hora de pensarmos no Haiti, como sempre foi. Respeitamos sua dor e lamentamos por, há tanto tempo, estarem infligidos a ela. Esperamos que o esforço mundial possa curá-la. Mas é hora também de vermos que, como nenhum outro povo do mundo, somos muito parecidos com os haitianos e, ao longo do tempo, temos plantado e regado as mesmas árvores de desigualdade de sabor amargo que hoje o Haiti prova e regurgita.
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