Olá, pensadores!
Parece-me que, se nos governos passados, os escândalos não tinham lugar certo para eclodir, estourando um num ministério (como as denúncias de superfaturamento das solenidades alusivas à Festa do Brasil 500 anos), ou em algumas superintendências (como o escândalos da Sudam e na Sudene que, depois de sofrerem rombos bilionários, foram apenas extintas por Fernando Henrique Cardoso), no governo petista o foco dos maiores e mais incômodos problemas é um só: a Casa Civil.
Depois da presidência e vice-presidência da República, “o cara” é o titular da pasta da Casa Civil. Ele é responsável pela coordenação política e administrativa de todos os demais ministérios. Não é à toa que o ocupante do cargo é chamado de ministro-chefe. O problema é que o PT, mesmo ciente da importância que tem o detentor de tal cargo para a vitalidade do governo, parece não ter muita habilidade para nomear seus ministros-chefes ou, pior, que os ministros-chefes escolhidos não tem noção da importância e visibilidade de seus cargos.
Em 2005, José Dirceu, que até então ocupava a cátedra mor da Casa Civil, “renunciou” ao cargo por não suportar a pressão política e popular, decorrente da vinda à tona de sucessivos escândalos. Primeiro, o envolvimento de seu principal assessor, Waldomiro Diniz, presidente da estatal de loterias do Rio de Janeiro, Loterj, num esquema de propina cobrada a donos de bingos. Depois, naquele que ficou conhecido como o maior escândalo do Governo Lula, o “Mensalão”, José Dirceu foi apontado pelo deputado federal Robert Jefferson como chefe do esquema.
Ano passado, Erenice Guerra, que assumiu a Casa Civil no lugar da então candidata Dilma Rousseff, permaneceu apenas cinco meses como titular da pasta. Denúncias publicadas pela imprensa descortinaram um esquema milionário de lobby em que Israel Guerra, filho da ex-ministra, com sua anuência e apoio, intermediava contratos mediante o recebimento de comissões. Tratava-se de nítido caso de tráfico de influência. Dilma Rousseff, que havia indicado a ministra ao cargo e que, inicialmente, declarou que a denúncia não passava de um factóide, tempos depois, concordou com o afastamento de sua sucessora.
Agora é a vez do não menos conhecido e maculado Antônio Palocci. “Indicado” por Dilma Rousseff, Palocci tem um passado afeto aos escândalos. Exemplo disso, os casos da prefeitura de Ribeirão Preto, do já citado “Mensalão”, incluindo a quebra do sigilo financeiro do caseiro Francenildo. Agora, na crista da onda, está em análise a miraculosa evolução de seu patrimônio pessoal. Em cerca de 4 anos, Palocci alega que, apenas prestando consultoria na área financeiro-econômica, teria conseguido a proeza de multiplicar 20 vezes seu patrimônio. De R$ 375 mil, em 2006, Palocci teria alcançado a cifra de R$ 7,5 milhões, em 2010. Ressalte-se que, no mesmo período, seu salário total como deputado federal foi de R$ 974 mil brutos.
A “maldição” está fazendo nova vítima. Maldição ou malversação? Não importa. Como também, agora, não importa como o ministro conseguiu a façanha da multiplicação de seu patrimônio, nem se ele é, de fato, um gênio da consultoria (o que eu duvido). Não importa, também, se ele tinha senso ético suficiente para saber que, enquanto deputado federal integrante da Comissão de Finanças e Tributação, seu ofício como consultor financeiro não poderia ser considerado como algo moral ou legítimo. Não tem importância se o ministro não quer explicar como conseguiu tal proeza. Nada disso mais importa.
É relevante agora que se encontre um jeito de abafar o escândalo! Daí o governo declarar que o caso está encerrado! Encerrado? Para quem? Dilma Rousseff está demorando para usar uma velha prática: para dar uma satisfação à oposição – que atrapalha a governabilidade – e à imprensa, é costume que se anistie o político envolvido, retirando-o do cargo e perdoando seus “pecados”.
Acho que a presidente está estudando uma alternativa para o caso. Não acho difícil conseguir. É que certas raposas políticas, com habilidade e contando com os apoios certos, conseguem sair ilesas de escândalos (é só lembrar de Renan Calheiros e o novelístico caso da pensão à Mônica Veloso, ou de José Sarney e os atos secretos do senado).
Além disso, é fundamental lembrar que a indicação de Palocci à Casa Civil pouco teve a ver com sua capacidade de gestão ou de administração e com sua experiência política. Isso é importante, mas o fator determinante foi outro: Palocci é um tipo de garantidor, junto ao mercado, do próprio governo petista. Ele é o braço forte do PT na captação de recursos para campanhas políticas e para o apoio da iniciativa privada ao lado do governo. É um elemento importante e, acho, não será esse escândalo, por mais barulhento que seja, que o irá derrubar.
O ex-presidente Lula já caiu em campo na defesa do ministro e a base governista na câmara e no senado também já articulam sua defesa. Até Hugo Chavez chegou ao Brasil desejando "fuerza" ao ministro. E, para completar, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, afirmou que, por ele, o caso será arquivado! Portanto, infelizmente, a menos que a pressão aumente e fatos novos surjam, arrisco meu palpite de que Palocci continuará no cargo, engrossando a estatística da “maldição” que parece assolar a Casa Civil dos governos petistas.
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