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Postado em 08/05/2011 às 09:00 por Redação em Notícias

Mamãe, "Volto a ti e me sinto criança"

À minha mãe, o santo anjo que me guarda

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Goretti Brandão

Ensaiei, exaustivamente, um longo monólogo com a ajuda da minha avó. Ia apresentar uma peça no palco do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante. Chegada a hora, subi as escadas e adentrei no cenário. Simples; ali estavam uma poltrona, uma mesinha ao lado e sobre ela um telefone de plástico. Cortinas fechadas, sentei em silêncio e percorri a memória lembrando as falas. A um sinal da minha professora, as cortinas se abriram e eu vi diante de mim, um auditório repleto de pessoas. Lá estavam praticamente todas as mães de alunos da escola municipal.

Entretanto a minha mãe não se encontrava ali, mas trabalhando em uma cidade na região do brejo paraibano. Naquele dia estávamos comemorando o Dia das Mães. Eu tinha dez anos. Minha avó, presente em uma das primeiras filas, assinalava com um olhar firme, mas doce, a minha própria presença. Ela tinha o dom de emanar uma força extraordinária, que me movia para as coisas e os acontecimentos. Afinávamos em tão grande harmonia, que metaforicamente, a vida era um rio, ela o barco e eu, a navegante de uma feliz viagem.

O monólogo onde eu 'fingia' dialogar com a minha mãe ausente, surtiu um efeito emocional maravilhoso na plateia, porque por trás do cenário da atuação, havia a verdadeira ausência dela, detalhe que era do conhecimento de todos. Em cidade pequena todos se conhecem e as suas histórias. A comoção tomou conta das 'mães alheias' e de repente as lágrimas tomaram conta do lugar. Caprichei ainda mais na performance, vaidosa do meu desempenho em cena. Em meio aos aplausos, procurei a aprovação nos olhos da minha avó que acenou positivamente com a cabeça. Só depois é que eu chorei. Chorei com pena das mães que choravam com pena de mim.

Estranhamente fui tomada por uma sensação de compartilhamento de emoções. Eu havia entrado, pela primeira vez, em contato com um arquétipo poderoso: a imagem idealizada da Mãe, que norteia todo mundo, praticamente. Uma criatura que hoje em dia quase não corresponde mais àquela de algumas décadas atrás. Nesse instante, penso nas mães que deixam seus filhos dentro dos carros, no calor dos estacionamentos dos shoppings e vão fazer compras. Nas mães que não se preocupam em dar uma alimentação saudável aos filhos, das que sacrificam o sono, a tranquilidade, o bem estar das crianças, mesmo pequeninas, para não sacrificarem seus prazeres, das que não acompanham o andamento delas na escola, nas que molham as chupetas dos filhos em bebidas alcoólicas, como já presenciei.

 

Naquele Dia das Mães, mesmo de longe, eu sentia a minha mãe bem próxima. Dentro e nos arredores de mim. E a sua ausência foi transformada em presença, através das lágrimas das tantas mães ali na plateia. Era como se eu recebesse uma resposta de amor, de troca à distância dela que a mim sequer ameaçava. Eu me sabia amada. Cresci. Fui mãe e aprendi a abrir mão de um ideal padrão de mãe perfeita. Tenho minhas falhas e a minha mãe, e as outras mães, também. Às vezes uma pérola, outras, uma ostra, Ora alegre, ora irritada, boa, inteligente, religiosa, com terço na mão, rezando o rosário apressado de Nossa Senhora para alcançar uma Graça, minha mãe, devota do Menino Jesus de Praga, às vezes questiona injustiças e se revolta, e depois volta à fé, serenada pela própria fé. Eu quero e quero sempre a minha mãe. Essa que eu tenho. Não o fruto de uma idealização. Quero ter a minha mãe, imperfeita, mas tão capaz de exercitar responsavelmente as maneiras de cuidar, proteger e amar, porque tem sentimento. Tem humanidade.

De uns tempos para cá, observo com tristeza, que a realidade tem mudado. É outra. Mãe, está se tornando apenas, uma palavra esgarçada, puída. Um espectro que não veste mais a imagem de um ser que dá refúgio, segurança, conforto e amor. O lugar da Mãe, esse figura arquetípica, está se tornando uma condição esvaziada, pelo imediatismo da aceleração de um tempo, que aprofunda o despropósito da afetividade humana. Os filhos desta e das próximas gerações, dificilmente sobreviverão aos afogamentos nos rios da vida, porque seus barcos já começam a faltar. Serão náufragos da ausência dos sentimentos maternos.

Aproveitando a comemoração do dia das mães, essa criação do calendário comercial, acho que deveremos presentear nossos filhos, com o carinho, a atenção, o olhar aprovador, e a alegria; essas forças extraordinárias as quais temos o dom de emanar. Sejamos o barco, para que eles possam navegar a viagem da vida, na experiência feliz de serem amados.
 

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