A cor e o cheiro lembram o de comida para cachorro. Já sobre o sabor, só pode dizer quem já filou o almoço do seu bicho de estimação. Mesmo com esse apelo pouco convidativo, a ração humana virou o termo mais repetido entre os aflitos para perder peso, que não são poucos.
Embora tenha ficado famoso só recentemente, o suplemento alimentar foi criado em 2005, pela curitibana Lica Takagui. Comissária de bordo por 11 anos, ela passou muito tempo buscando uma saída para sua anemia e prisão de ventre constantes. Ela decidiu estudar naturologia e teve aulas com o médico e nutricionista Daniel Boarim, autor de diversos livros sobre a cura pelos alimentos. Com sua orientação, Lica começou a produzir a ração humana na cozinha de casa para vender. A escolha do nome se baseou no conceito do produto: reunir tudo o que o organismo precisa, como prometem os fabricantes de comida para bichos.
A empresária conta que sua diarista foi a primeira “garota-propaganda” da ração humana. Percebendo a saúde e a boa forma da patroa, ela decidiu experimentar o produto. Emagreceu 42 kg e começou a vender a fórmula até no ônibus, tamanho o interesse das pessoas na mudança de visual.
A diarista acabou trocando de marido e de profissão, e a empresa de Lica continuou a prosperar. Sua fórmula passou a ser copiada por empresas do Brasil inteiro, mas a marca original, a Takinutri, continua ganhando espaço. “Já estamos vendendo para o mercado japonês, que é extremamente rigoroso, e em breve devemos entrar em Portugal”, comemora.
Ressalvas
Apesar da empolgação com o sucesso, Lica é cuidadosa ao indicar sua criação. “Uma pessoa que sofra de hipertensão ou alguma outra doença deve buscar orientação de um profissional antes de usar o produto”, diz. Vale dizer que a versão integral da ração humana contém açúcar mascavo, por isso é contraindicada para diabéticos. Também não deve ser utilizada à noite, pois conta com ingredientes estimulantes, como o guaraná em pó.
Composto por proteínas, fibras e vitaminas, a ração humana pode ser só um complemento. Já quem quer perder peso deve substituir uma das refeições, como o café da manhã ou o jantar, por duas colheres da ração adicionada a sucos, frutas ou sopas. A versão mais indicada, nesse caso, é a light.Mas não existe milagres, como avisa Boarim. “As pessoas acham que é só usar o produto para emagrecer, mas se as outras refeições não forem balanceadas não há resultado”, explica. Quem apenas inclui o produto no cardápio vai consumir mais fibras e nutrientes, é verdade, mas também calorias: as versões disponíveis no mercado oferecem de 79 a 120 para cada duas colheres do pó, o que equivale a uma barrinha de cereais.
Grãos
Quem está interessado em experimentar a ração humana também deve tomar cuidado com sua procedência. Os grãos, quando armazenados e transportados sem o devido cuidado, podem ser facilmente contaminados por fungos, como explica Sônia Souza, professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).
A não ser que se conheça muito bem a origem do produto artesanal, é melhor dar preferência ao industrializado, para não correr o risco de ter uma diarreia após o consumo. O problema é que os processos de descontaminação, apesar de aumentarem a vida útil do pó, também o encarecem (os potes de ração humana podem variar de R$ 20 a R$ 80).
A nutricionista também lembra que, para obter o benefício das fibras, é preciso aumentar a ingestão de água: “Sem o consumo adequado de líquido, a ingestão pode até agravar a prisão de ventre”. O que provavelmente não é o objetivo de quem faz dieta.
Por último, a professora ressalta que, de um modo geral, uma alimentação equilibrada oferece tudo o que o organismo precisa, sem que seja necessário gastar dinheiro com suplementos. Para emagrecer de forma definitiva, reforça a especialista, só tem aquela fórmula que ninguém gosta de seguir: comer menos e se exercitar mais.