Homem, faixa etária de 18 a 24 anos, residente na zona Norte de Natal e desempregado. Este é o perfil traçado pela Delegacia Especializada de Narcóticos (Denarc) das pessoas detidas ano passado e que foram denunciadas em Inquéritos Policiais. Trabalhos como este servem como base na troca de informações entre as delegacias especializadas do Nordeste no combate ao tráfico de drogas.

O levantamento sócio-econômico feito pela equipe do delegado Odilon Teodósio dos Santos Filho, titular da Denarc, foi obtido com exclusividade pela TRIBUNA DO NORTE. Vale lembrar que entre 2003 e 2008, o número de homens presos saltou de 106 para 181.

Desses pontos, o que mais preocupa o delegado é a faixa etária dos envolvidos. “Essa é a faixa mais perigosa porque os traficantes usam esses jovens para vender ou transportar a droga. Muitos dos homicídios envolvendo acerto de contas acontecem porque o jovem gasta o dinheiro que seria usado para pagar o traficante e termina pagando com a vida”, declarou.

Outro aspecto do estudo é que 65% dos detidos são pessoas desempregadas, 20% possuem algum emprego e outros 15% se definem como autônomos. Isso reflete diretamente no fato de 89% dos presos não ter um advogado para realizar sua defesa durante o trabalho policial e necessitar do defensor público para isso enquanto apenas 11% tem um advogado constituído para defendê-lo.

Ano passado, a Denarc instaurou 176 Inquéritos Policiais, o que representa um crescimento de 29% nos últimos cinco anos.  Só em 2009, já foram registrados 93 inquéritos na Especializada de Narcóticos. “Acredito que vamos chegar aos 200 (inquéritos) até o final do ano”, comentou.

O argumento de Odilon Teodósio para isso é que como a demanda de drogas aumenta, há um crescimento proporcional no número de consumidores. “É uma relação direta”, completou. E ele alerta: “há entre 500 e 1.000 pessoas vendendo drogas nas esquinas da cidade”.

Outro número que chama atenção no levantamento obtido pela TN é a região de Natal em que há mais prisões por conta do tráfico de drogas. A zona Norte da capital potiguar registrou 48% das prisões ocorridas ano passado. Vale Dourado, Nossa Senhora da Apresentação, Igapó, Lagoa Azul, Pajuçara e Redinha são os locais com mais registros no levantamento.

Odilon comentou que em três bairros da zona Leste – Mãe Luiza, Brasília Teimosa e Passo da Pátria – há uma dificuldade da polícia em infiltrar pessoas do setor de inteligência para realizar trabalhos investigativos. “Em lugares como esse, ou você é da comunidade ou não é”, afirmou. Ele fez um alerta que “no Planalto (zona Oeste) o tráfico tem crescido a cada dia”.

Em 6 de fevereiro deste ano, a TN publicou reportagem onde a Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias publicou um levantamento onde mostrava o quanto a escalada dos homicídios se tornava preocupante a cada dia, principalmente em Natal e na Grande Natal.

À época, o coordenador de Direitos Humanos e Defesa das Minorias, Marcos Dionísio, comentou que, nos últimos quatro anos, a violência “migrou” da zona Oeste para a zona Norte de Natal e também alcançou cidades da Grande Natal como Parnamirim, Macaíba e São Gonçalo do Amarante.

Ainda dentro desse estudo, 61% dos homicídios vitimaram pessoas com faixa etária até 30 anos. Além disso, nos dez bairros com maior número de homicídios ano passado, 73 assassinatos foram contra jovens na faixa de 16 a 20 anos.

Dentro do levantamento da Denarc, 75% daqueles que comercializam drogas, também as consomem.  Só 25% apenas comercializa. “Esses são profissionais porque não se deixam seduzir pelo vício”, comentou o delegado.

Para Odilon Teodósio, o ideal para se combater o tráfico de drogas é a criação de uma Divisão de Narcóticos. “Seria algo com uma estrutura de cinco delegados e de 50 agentes com uma estrutura de inteligência”, explicou. Atualmente, a Denarc conta com dois delegados e 15 agentes de Polícia Civil.

Cresce índice de mulheres no tráfico

O envolvimento de mulheres com o tráfico de drogas também é algo que vem crescendo ano após ano no Rio Grande do Norte. Entre 2003 e 2008, o número de pessoas do sexo feminino detidas por tráfico de drogas saltou de 29 para 74, ou seja, quase triplicou nesse intervalo de tempo.

Odilon explicou que como os companheiros dessas mulheres já estão presos em penitenciárias, eles as orientam – via telefone celular – a continuar com o comércio de venda e compra de drogas nos lugares onde possuam a “boca de fumo”.

Segundo o delegado, quando há um traficante na família dificilmente os familiares não se envolvem. “Isso acontece porque o tráfico passa a ser a fonte de renda dessas pessoas”, explicou.

O fato dos traficantes presos usarem aparelhos telefônicos fez com que o delegado da Denarc afirmasse que “o sistema penitenciário é falho”.  “Não há um controle das comunicações entre os presos”, declarou. “É preciso eficiência para combater a custódia de detentos nos presídios”, completou Odilon Teodósio. Além dos presos se comunicarem, o delegado disse que “dentro dos presídios circulam drogas” entre os detentos.

Uma coisa que chamou a atenção do delegado foi o material encontrado no computador de uma das mulheres presas pela Denarc este ano. Nele, havia a montagem de um bebê recém-nascido com um cigarro de maconha e a seguinte frase: “é tão bom como leite materno”. “Isso é uma apologia ao crime porque ela enviava isso para outras pessoas”.

Cocaína não é mais só droga de rico

O titular da Denarc disse que nos últimos anos a diferença no consumo de drogas entre classes sociais vem desaparecendo a cada ano. Por exemplo, a cocaína – antes vista como droga usada mais pelas elites devido ao seu alto custo – pode ser encontrada facilmente em bairros periféricos da capital do RN. “Cocaína deixou de ser droga de rico”, afirmou Odilon Teodósio.

Ele revela que o consumo de drogas por parte da classe média “não chega à delegacia” e explica que isso se deve ao fato de as pessoas integrantes desta faixa sócio econômica usarem os entorpecentes em ambientes reservados. “Eles usam isso (drogas) nas rodas de amigos em condomínios fechados”, comentou. Questionado se há denúncias contra pessoas de classe média por consumo de drogas, o delegado disse que “chegam alguns relatos até nós, mas são coisas muito vagas”.

Ele alerta para o crescimento no consumo de crack em todos os níveis sociais. “Nos últimos cinco anos, praticamente se equivaleu à maconha”, analisou. De acordo com Odilon, o lucro maior ao traficante e o fato de agir mais rápido no organismo do usuário são fatores que deixam o crack mais atraente para o consumo. “Tem alguns deles que fazem o mesclado, maconha com o crack”, citou.

No “ranking” das drogas com maior potencial para entorpecer, o crack lidera pelo fato de ser a que vicia mais rápido. Em seguida, vem a cocaína e a maconha. O ecstasy, que é um estimulante, também é citado e provoca dores no corpo do usuário por até duas semanas.

Odilon comenta que 91% dos presos tinham até 100 gramas de drogas ao ser abordado pela polícia, 6,5% tinham entre 101 gramas a um quilo de drogas enquanto 2,5% estavam com mais de um quilo de entorpecente. “Esses 2,5% são fruto do trabalho investigativo a longo prazo”, explicou.

Segundo o relatório, 55% das prisões são realizadas pela Polícia Militar, 26% pela Polícia Civil e 19% especificamente pela Denarc, com as maiores apreensões.

Nova droga sintética é apreendida

Uma nova droga sintética produzida teve sua maior apreensão em território nacional no dia 15 de maio passado, quando foram apreendidos 21.145 comprimidos de piperazinas. Antes, especulou-se que poderiam ser comprimidos de ecstasy.

As características dos comprimidos eram o formato circular, de cor rosa claro e apresentando em ambas as faces um logotipo em baixo relevo semelhante ao símbolo do “Batman”.

A TN teve acesso ao laudo da Polícia Federal em que foi explicado como se chegaram à conclusão que a droga encontrada era as piperazinas, “drogas sintéticas com efeitos análogos ao ecstasy”, segundo o documento.

De acordo com o laudo, as piperazinas são “consideradas capazes de causar dependência física ou psíquica” e “exibem efeitos estimulantes, alucinógenos e de euforia similares ao ecstasy”.

Segundo estudos científicos do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência, esses efeitos surgem alguns minutos após a administração oral, atingindo o pico em 1 a 2 horas e perdurando por 4 a 8 horas. As piperazinas são drogas sintéticas recentes e estão entre as chamadas “designer drugs”, que são drogas psicoativas que foram criadas para burlar as leis anti-drogas existentes. Normalmente, através da modificação da estrutura molecular de drogas já existentes, essas “designer drugs” são sintetizadas para produzir efeitos similares às drogas de abuso ilegais e utilizando-se de substâncias que não sejam proibidas pela legislação.

A forma de apresentação das piperazinas em comprimidos de coloração variada e com logotipos em relevo, são típicas da substância conhecida como ecstasy.

Testes preliminares de cor (spot tests) realizados em amostras de piperazinas podem indicar preliminarmente a presença de ecstasy, porém quando se utilizam análises químicas mais discriminatórias é possível identificar substâncias da família das piperazinas.

Dentre os efeitos adversos do consumo de piperazinas são descritos mal estar, enxaqueca, ressaca prolongada, ansiedade e até sedação. Alterações hormonais associadas à utilização de piperazinas podem levar a mudanças de comportamento e humor, pânico, ansiedade, sensibilidade à luz e barulho, mal-estar e depressão.

Com o surgimento de apreensões de comprimidos de piperazinas e o estudo de seus efeitos, a legislação de diversos países foi atualizada e essas substâncias passaram a ser controladas.

No Brasil,  as piperazinas foram inseridas no Anexo I, Lista de Substâncias Entorpecentes, Psicotrópicas, Precursoras e Outras Sob Controle Especial de Portaria da Superintendência de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. Desde novembro de 2008 e fevereiro deste ano, essas substâncias passaram a figurar como psicotrópicas na legislação Brasileira.