Olá, pensadores!
Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:
http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2011/05/24/amanda-gurgel-uma-verdade-virtual-924531282.asp
Impressiona-me como uma verdade conhecida por todos pode repercutir assombrosamente por puro interesse publicitário-comercial. É o que ocorre com o fenômeno “Amanda Gurgel”, uma distinta professora do Rio Grande do Norte, nordestina forte e corajosa, que, revoltada com as agruras de lidar com a educação no Brasil, resolveu dizer na cara das autoridades aquilo que elas já estão cansadas de saber.
Digo que estão cansadas de saber porque, há muito, defendo a tese de que o estado de miséria que vivemos em termos de saúde, educação e segurança pública é situação deliberada pela classe política. Trata-se de um fenômeno cíclico sustentador da profissionalização da política: uma população não educada e desinformada, carente de saúde nas suas mais básicas necessidades e absolutamente entregue ao fenômeno do crime, que elege políticos mal intencionados, que, por sua vez, se encarregam de perpetuar a desestrutura social.
Com um eleitorado desses, qualquer falastrão, seja ele desses palhaços que apresentam programas policialescos, seja um cantador de forró de péssimo gosto, seja um comediante analfabeto, seja um jogador de futebol de carreira falida, para ficar apenas nos folclóricos, assume a missão de conduzir os destinos públicos. Com votos dessa qualidade, fica fácil para os políticos profissionais, capazes de multiplicar seu patrimônio assustadoramente em poucos meses, usarem seu poder, seu dinheiro, suas promessas e suas ameaças para se perpetuarem e manterem tudo “como antes na terra de Abrantes”.
O que o discurso de Amanda Gurgel tem de corajoso e de verdadeiro tem de conhecido. Explodiu nas redes sociais e as emissoras de televisão não perderam a oportunidade de captarem a audiência. A professora emblemática figurou nos principais programas de televisão não pela importância de seu discurso... Ela agiu como um chamariz para novos contratos publicitários, para mais pontos no IBOPE. E só!
Não se trata de pessimismo desmotivado ou de relegar a revolta da professora ao descrédito. Não! Assino embaixo de todo o discurso da educadora potiguar. Mas a pergunta é: o que há de novidade no discurso de Amanda Gurgel? O que, daquilo que foi brilhantemente esfregado na cara das autoridades, elas ou nós mesmos não sabíamos? Eu, que estudei boa parte da minha vida em escola pública e perdi ano letivo por greve, conheço tal realidade faz tempo!
Posso estar errado, mas não acredito: Amanda Gurgel é um fenômeno que, em tempos de informação altamente perecível, se desfará sem que seu verdadeiro objetivo se cumpra. Porque, antes de Gurgel muitos outros já denunciaram tal descaso, muitos já morreram em protestos, muitos já sofreram com a deliberada ausência de vontade política.
O pior é que, no fundo, todos nós sabemos o quão errado é o sistema que mantém tudo isso. Mas, na hora de agir para mudar, cada um pensa individualmente, não lembrando das mazelas denunciadas por Amanda Gurgel. Presos à ambição pessoal ou, pior, ao ciclo da dependência, cada um pensa em seu emprego, em receber sua promessa, em manter seu privilégio... Ou em agradecer o remédio, a consulta, o óculos, a cesta básica.
Na hora de gritar, comportamo-nos como uma turba, sem objetivo e sem comando, pensando com a boca, fazendo de Gurgel nossa voz, elevada ao trends topics do Twitter, a ponto de ela ocupar espaço nobre em rede nacional. Mas, na hora de agir efetivamente, comportamo-nos como umas raposas, pensando com o umbigo, afastando de nós a responsabilidade ou, apenas, achando bonito o que disse Amanda Gurgel, mas sem um pingo de coragem para sacrificar absolutamente nada para fazer de seu discurso uma arma de verdade contra essa herança política maldita que, como parasita, faz da sociedade seu agente hospedeiro.
A solução – ou a salvação do Brasil, no dizer da professora – vem, sim, da educação. É a consciência de “Amandas Gurgel”, estampada a giz no quadro da sala de aula precária que todos os muitos professores têm de enfrentar, a única arma capaz de alterar essa situação, interrompendo o ciclo. O problema, a meu sentir, é fazer com que a denúncia que hoje todos encampam, virtualmente, seja assumida por cada um, na vida real. É fazer de Amanda Gurgel mais que uma verdade virtual.
Olá, pensadores!
Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:
Não é difícil entender porque nunca, na história do Brasil – e, muito menos, na de Alagoas – se ouviu dizer que um grupo de deputados, empunhando faixas nas mãos, apitos e gritando frases de ordem, tenha marchado pelas ruas, em protesto por reajustes salariais ou por melhores condições de vida. Mesmo sendo servidores públicos, os senhores parlamentares nunca precisaram – e, do jeito que a coisa anda, nunca precisarão – de tal expediente.
É porque, meus amigos, protestar é coisa, por exemplo, de policial militar, que diariamente está nas ruas, enfrentando a criminalidade que é reflexo da malversação do dinheiro público, da falta de escolas e de educação de qualidade, da ineficiência estatal para fomentar a geração de ocupação e renda, da falta de urbanização e moradia dignas. É coisa de PM que se desdobra em escalas sub-humanas, sofrendo com a escancarada falta de efetivo (que só faz cair, enquanto a população de Alagoas cresce); ou que termina seu serviço e sequer precisa sair do local da operação, pois mora nas grotas, vielas, no seio da criminalidade violenta; que vive em permanente estado de receio, com medo de descobrirem seu ofício e ser morto, ali, mesmo.
Protesto, desses com apitaço geral, é coisa para policial civil, que é obrigado a investigar os crimes de mando que são ordenados ninguém sabe por quem – se alguém sabe, é melhor ficar calado: esse povo é vingativo; que precisam desvendar o porquê de tantos jovens estarem se matando, o porquê de tantos assaltos estarem acontecendo, o porquê de tantos crimes; que se imbuem na caçada de bandidos e malfeitores que não temem nada e nada tem a perder, fazendo da bala sua principal saudação.
Fazer greve é coisa de professor, que enfrenta, durante anos a fio, por um salário de fome, salas de aulas com alunos cada vez mais hostis, filhos de famílias cada vez mais desestruturadas e pouco informadas; que trabalham em escolas – como noticiou o Jornal Nacional, hoje – sem a menor estrutura para abrigar alunos, com infiltrações, tetos prestes a desabar, sem material didático adequado, com déficit de professores e de profissionais; que precisam compensar, com habilidade, a fome dos alunos que não tem merenda ou dos que a tem de péssima qualidade, por conta da propina que algum político safado está botando no bolso.
Marchar pelas ruas é coisa do pessoal da saúde, que tem de transformar água em bálsamo para dar conta da imensa quantidade de pacientes que necessitam de tratamento; que se expõem, diariamente, a diversos tipos de contágio para, num ato que se aproxima da piedade, tentar salvar quantos podem; que dobram plantões e serviços para remediarem a ausência de profissionais suficientes, necessários ao atendimento daqueles que não podem esperar; que adoecem por não poderem fazer muita coisa com as condições que tem.
Em resumo, meus amigos, estou convencido de que fazer protesto é coisa de quem trabalha! De gente que sofre, que sua e que, dia a dia, vem tentando fazer Alagoas se libertar dos índices desgraçados que a nossa classe política faz questão de manter, ou, o que é pior, de atrair. Falo em atrair porque há um sentido nessa lógica nefasta: enquanto Alagoas for um lugar desgraçado, as arbitrariedades podem ser cometidas sob o pretexto que é nada se comparada à situação do Estado.
Repito, reivindicar é coisa de quem trabalha. Para os outros, que, em vez de trabalho, trazem em seu histórico uma lista imensa de crimes e desvios milionários de dinheiro, é mais fácil, mais prático e menos cansativo fazer uma assembléia entre si e decidir dobrar seus vencimentos – que já não são pequenos, considerado e efetivo benefício que trazem à sociedade – pouco se importando com a realidade do Estado, dos outros servidores públicos e, principalmente, da população que os elegeu.
Olá, pensadores!
Como era de se esperar, o Supremo Tribunal Federal fez valer a Constituição. A corte suprema revelou, a todos quantos ainda duvidavam, o espírito antidiscriminatório, zelador da igualdade, garantidor dos direitos cidadãos, presente no texto magno da Nação. Em decisão unânime, a maior corte jurisdicional do Brasil declarou que os homoafetivos têm direito ao reconhecimento à união estável, nos mesmos moldes e limites à reconhecida aos casais heteroafetivos.
Em decisão prenunciada, há muito, pelas justiças estaduais, com destaque para o vanguardista Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e, inclusive, para a Justiça Alagoana – mesmo inserta no meio do Nordeste preconceituoso –, os ministros concluíram pelo óbvio: o fato de alguém ter orientação sexual diversa da maioria não afeta sua condição de cidadão, nem pode lhe restringir o exercício de quaisquer direitos.
Na verdade, repudiando posturas insipientes, apoiadas em fatores sócio-culturais engessados ou em bases religioso-fundamentalistas, o Judiciário, através de seu órgão máximo, deu-nos uma lição de aplicação de um direito lógico e utilitário, onde os cidadãos devem aprender, desde o lar, a conviver com as diferenças e a respeitá-las. Um direito onde é mais importante o reconhecimento do real, do amor e seus frutos, do que a hipocrisia moralista que, sob o pretexto de resguardar-nos de lesões irreais, tem feito que determinados brasileiros sejam discriminados por questões absolutamente acessórias, como o é a orientação sexual.
Não concordo que, com esse julgamento, o Judiciário “acompanhou” a evolução da sociedade. Os homoafetivos não são invenção da nossa era! Eles existem desde que o mundo é mundo. O Judiciário, apenas, em um rompante de coragem inevitável, fez o que o parlamento já deveria ter feito! E o fez porque age forçadamente. Foi obrigado a reconhecer o notório: eles existem! E, por conseguinte, a concluir: são iguais a quaisquer outros!
Assim, sempre que um casal formado entre dois homens ou entre duas mulheres se reunirem, numa convivência duradoura e com o objetivo de constituir família, poderão ter reconhecido, à luz do art. 1.723 do Código Civil, o status de união estável. Entre outros direitos, o casal poderá receber e deixar herança, prestar e receber alimentos, adotar e receber a guarda de eventuais filhos.
Entre os argumentos levantados pelos juristas da corte constitucional, um deles chamou-me atenção. O relator do processo, o Ministro Carlos Ayres Britto, questionou quem perderia com o reconhecimento da união estável para casais homoafetivos. E concluiu: “ninguém perde, os casais ganham, a sociedade ganha”. Talvez, o ministro tenha usado esse argumento – do lucro e prejuízo – para tranquilizar parte da sociedade que ainda é resistente, preconceituosa. Era como se dissesse: “relaxem, para vocês nada muda!”
De fato, nada muda. Nenhum hétero terá seus direitos aumentados ou diminuídos com a decisão do Supremo. Para estes, não há lucro direto, nem qualquer espécie de prejuízo. Contudo, a meu sentir, ainda que a sociedade sofresse prejuízo – como sofre, diariamente, toda vez que um político comprovadamente corrupto é inocentado nos tribunais pátrios –, ainda assim, o tribunal constitucional não poderia negar a dar “a Cezar o que é de Cezar”, seja pelo acatamento do espírito constitucional, seja pela insustentabilidade jurídica dos argumentos contrários a tal reconhecimento.
Mesmo que a parte conservadora da sociedade – conservadora, diga-se, no modo de pensar e de compreender o fenômeno social – esteja se sentindo ofendida com a decisão do Supremo, a decisão não poderia ter outro teor. Talvez, seja uma ótima oportunidade para que tais sujeitos amadureçam o exercício da tolerância, considerando, inclusive, a possibilidade não remota de precisarem usá-la, quando descobrirem, dentro de seus próprios lares, a existência de homoafetivos.
O Judiciário deu o primeiro passo de uma marcha quem não tem retrocesso. Hoje, foi a união estável. Muito em breve, será o casamento civil, como na Argentina. Sinto que a sociedade não amadurecerá a ponto de aceitar, sem espernear, mais essa inevitável mudança, como não estava madura para usar o cinto de segurança ou para a Lei Seca. Porém, tenho certeza que não é justo fazer cidadãos, iguais a quaisquer outros, esperar que a mente social amadureça para que seus direitos sejam efetivados.
Olá, penadores!
Não há dúvidas que o estardalhaço que se tem feito acerca da suposta morte de Osama Bin Laden tem uma função simbólica. Afinal, desde o 11 de setembro, vencer o terrorista seria, simbolicamente, vencer o próprio terrorismo.
Evidentemente, que a guerra ao terror está longe de terminar, quiçá agora, infelizmente, tenhamos novos sangrentos capítulos, sob o pretexto de vingança. Torço, sinceramente, para que não ocorra, mas é bom o Obama abrir o olho.
Mas, em meio a toda essa euforia que fez o mundo – com exceção de alguns países e facções do oriente médio, para quem Osama era um líder, um santo e agora, um mártir – fazer declarações de excomunhão ao terrorista, um detalhe, pouco noticiado pela grande imprensa, chamou-me atenção.
É que, segundo alguns jornais, após matarem Osama Bin Laden, os americanos tiveram absoluto cuidado em seguir os preceitos do islã no funeral do terrorista. De acordo com a CNN, o cadáver do terrorista foi lavado, envolto em um lençol branco limpo, posto sobre um tablado de madeira e o jogado no mar da Arábia.
Espere ai! A meu sentir, tem caroço nesse angu! Ora, como é que se pode explicar que os EUA tenham tido tanto respeito pelo homem que, para eles, é causador do maior massacre terrorista já sofrido por um país ocidental? O homem que, desrespeitando crenças, dogmas, pessoas inocentes, matou milhares naquele fatídico 11 de setembro? Que espécie de respeito é esse que fez os americanos seguirem protocolos fúnebres, para quem desrespeitou todas as possíveis convenções humanas, políticas, religiosas...?
Alguns talvez digam que a intenção dos EUA foi não atrair a ira e o descrédito do Islã, nem criar um “local de veneração” num eventual túmulo do terrorista. Outros podem arguir que os EUA pretenderam tratar a morte de Osama com respeito, assegurando-lhe a legitimidade (que, independente de qualquer coisa, entendo ter sido) e, por isso, a observância aos protocolos de funeral.
Na verdade, tais argumentos não se sustentam, afinal, o mais grave – que foi matar à emboscada, sem chance de defesa – os Estados Unidos, acertadamente, supostamente fizeram. Não houve respeito (nem era pra ter tido mesmo). Então, se a morte de Bin Laden não atrair a ira do Islã, não torná-lo um santo mártir para seus seguidores e não provocar uma série de revoltas e planos de vingança, certamente, não seria a não observância de regras de funeral que o iria fazer. A morte, sem dúvida, para os seguidores de Bin Laden, é ofensa absolutamente maior que a não realização de funeral sob os preceitos islâmicos.
Para mim, a morte do homem mais procurado do mundo merecia a exposição de seu corpo, num museu público de grande notoriedade, por pelo menos uma semana, para que todos quantos quisessem se certificassem que, de fato, o procurado estava morto. Algo parecido com o que ocorreu com Lampião, aqui no nordeste. Ah, mas tal ato poderia causar uma revolta nos adoradores de Bin Lader... Meus amigos, se houver vingança, tenham certeza, esta já está sendo programada.
Sinceramente, esta morte, sem corpo, está-me soando um tanto quanto estranha. Eu só espero que a desejada morte de Osama Bin Lader, com todos os mistérios do “descarte” apressado de seu corpo, nada tenha a ver com a crise de popularidade que afeta o governo do democrata Barack Obama, nem com a escancarada fase de perecimento de poder político mundial que os EUA tem enfrentado.
Olá, pensadores!
Para os cristãos, a Semana Santa marca o fim da quaresma, período destinado à reflexão. Aproveitando a deixa, convido os pensadores, com base em antigas idéias minhas, mas que reputo absolutamente atuais e oportunas, a refletirem comigo:
No início do século XVI, o clero católico sofreu um grande golpe em sua “bolsa de valores” vendo um de seus mais rentáveis negócios, a venda das sagradas indulgências, despencar no “mercado da fé”, sobretudo pela ação da reforma protestante, encabeçada pelo monge alemão Martinho Lutero.
Com as idéias luteranas, evidenciadas em suas célebres “95 Teses”, o poderio soberano da Igreja Católica, que vinha sendo arranhado século e meio antes com as ações inaugurais do teólogo inglês John Wycliff, começou a ruir. Lutero, com seu destemor papal, abria as portas da Igreja à moralização do cristianismo.
Porém, cinco séculos depois, os rumos traçados pelo discípulo ideológico de Santo Agostinho parecem ter se perdido nas práticas das igrejas protestantes de nosso país. A igreja católica, que parecia latente, agora demonstra que nunca perdeu o fio da meada. A idéia de moralização foi trocada, há tempos, por estratégias religiosas de marketing e comércio, visando a obtenção de fiéis e de lucros cada vez mais altos. Na crista da onda, agora, pastores e padres espetaculosos surgem diariamente, fazendo alarido e comercializando, descaradamente, “as boa novas”.
É um tipo de comércio que, nos tempos atuais, está em ascensão, decorrente de total deturpação das idéias germinais de Lutero. A fé tem sido vendida em prateleiras e se, antes, apenas o “perdão dos pecados” era negociável, agora se comercializa tudo: sermões, palestras, shows, curas, dons espirituais, solução de problemas... É, sem dúvidas, a face atual da “Ética Protestante”, compatível com uma sociedade capitalista e voltada para o lucro, tão bem demonstrada no pensamento de Weber!
No mercado da fé, um sermão homileticamente bem construído e retoricamente perfeito ou um show protagonizado pelas “celebridades” religiosas pode custar muito caro aos organizadores de qualquer evento cristão. Estrelas do mundo gospel cobram cachês altos para “profetizarem” sobre uma terra qualquer. Nem sempre talentosos, quase sempre bem afeiçoados, bem maquilados, arrastam multidões de muitos fãs e poucos verdadeiros fiéis.
São verdadeiras estrelas que precisam de seguranças, escolta e carro blindado. O que os diferencia dos cantores de forró? Sei lá. Talvez a aura de santos que a si tentam impor... Ou a idéia de que possuem o celular do altíssimo sempre à disposição. Com isso, mercadejam baseados nas necessidades de um povo maltratado, fácil de ser emocionado e comovido. Mas, na hora de receber o cachê ou de fazerem suas exigências fúteis sobre toalhas, vinhos, comidas ou mulheres, são iguais às demais celebridades.
Nas pregações e cantatas, balbuciam frases prontas, exploram a emoção do povo sem instrução e se apresentam como verdadeiros intermediadores entre Deus e os homens. Choram, prometem, profetizam. Justificam seus cachês milionários com a instrução bíblica que diz que o obreiro é digno de seu salário. Contudo, ao pregarem ou cantarem, em inaudita falsa modéstia, argúem que nada do que falam é fruto deles, tudo é de Deus. No entanto, se Jesus ensinou a falar de seu amor por amor, os atuais mercadores do Evangelho, péssimos discípulos, fazem-no condicionalmente ao depósito de certa quantia em suas contas bancárias, “descontadas todas as despesas”.
Terá Deus feito como a Moisés e o decálogo, escrevendo em pedra a tabela de honorários desses novos “profetas”? Terá Ele revogado o “de graça recebestes, de graça dai”, dito por Jesus e registrado no Evangelho de Mateus? É uma fé que somente move montanhas se, antes, mover uma pilha boa de dinheiro. Porque, de outro modo, o padre bonitão, o pastor canela de fogo ou o grupo de louvor das multidões sequer chegaria à tal cidade. Não é fé, meus amigos. É dinheiro, apenas.
Tenho certeza que existem os que espalham as boas novas por amor verdadeiro às pessoas, premissa do autêntico cristianismo. Aliás, destes, muitos sequer conhecem a Bíblia, ou conhecem e, por motivos mil, não a seguem. Porém, suas práticas pessoais são mais cristãs que a de muitos dos que assim se autodenominam. Carregam consigo a premissa de fazer o bem ao próximo, como ensinou Jesus, como ensina o Alcorão, a filosofia budista e como apregoam as maiores filosofias religiosas do mundo.
São seres em todo dissociado dessa lógica mercantil que assola a religião. Humanos, justos e bondosos, não estão preocupados em liderar ou pastorear ovelhas, nem lhes passa à mente formar ministérios próprios, dando mais ênfase a seus nomes que a vontade de ajudar ao próximo. A estes anônimos interessa exercitar, com zelo invejável, o verdadeiro amor divino, seja qual for o Deus em que acreditem. Na visão cristã, acredito que esses formam o “remanescente”, lembrado por Isaías e citado por Paulo quando escreveu aos Romanos.
Que esta Semana Santa seja uma oportunidade para refletirmos. O verdadeiro evangelho não é aquele que serve para se criar estrelas vaidosas de si mesmo. Estas, creio, sequer entendem a mensagem cristã ou, pior, entendem e a deturpam para deleite próprio. A maior lição da morte de Cristo, para os que acreditam nela, é ensinar a todos o que o próprio Cristo dedicou-se a fazer durante toda a vida: distribuir a caridade entre os estranhos, diferentes, desamparados e necessitados, sem luzes, nem holofotes.
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Olá, pensdores!
Estamos cientes da anormalidade do fato, mas, até hoje, a notícia do jovem que resolve viver seu grande dia de mórbido estrelismo, no geral, o último de sua vida, parecia algo muito distante, improvável de ocorrer entre nós. Esses indivíduos, que invadindo escolas ou creches, ao acaso da sorte e pontaria, vitimam a tantos quantos estejam na mira de suas incontidas armas ou se limitam à descarga completa de seus arsenais, pareciam protagonistas de cenas nos Estados Unidos ou na Europa, nunca aqui, no Brasil.
Basta lembrar da cidade de Winnenden, na Alemanha, que foi palco para um desses espetáculos de terror, em março de 2009. A cidade lançou, no rol das lembranças indesejáveis e dos porquês irrespondíveis, o jovem Tim K., de imaturos 17 anos. Com uniforme militar, ele invadiu a escola da qual foi expulso (por ter forjado um atestado médico) e lesionou fatalmente duas dezenas, dos quase mil alvos vivos que tinha à sua frente na hora da assombrosa cena. Fez lembrar o caso mais emblemático de assassinos que invadem escolas, o do “Massacre de Virgínia Tech”, estrelado e dirigido pelo estudante sul-coreano Cho Seung-Hui que matou, assemelhadamente, 32 pessoas em abril de 2007 nos EUA.
Mas isso tudo estava tão longe, que nós, brasileiros, assistíamos a esses massacres como se fossem coisas de Hollywood. Fazendo relembrar o caso do estudante de medicina que, em 1999, invadiu um cinema e matou quatro pessoas, hoje tivemos mais uma indesejada produção brasileira desse gênero. No palco de Realengo, na cidade do Rio, o protagonista Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, um ex-aluno da Escola Municipal Tasso de Oliveira, local onde escolheu seus algozes, fez suas vítimas: frágeis e indefesas crianças.
Em uso ardiloso de suas perturbadas ou perversas maquinações mentais, esses “astros patológicos” incorporam ídolos virtuais, apreendidos dos jogos digitais de acesso livre, ou repetem, por pura imitação, o ato de predecessores reais que conseguiram a imortalidade memorial, ainda que repugnante, ao executarem suas chacinas alheiamente desmotivadas ou por motivos torpes, injustificáveis.
Rubricando sua carta de “apresentação” ao mundo com o sangue de inocentes e com o próprio (geralmente, no ato final, matam-se, como fez Wellington, ou são mortos), é como se dissessem: “Olá, vocês fingiram não me ver. Mas eu estou aqui! Esse é meu espetáculo, e esse é meu elenco: seus filhos, sobrinhos, amigos... Meras vítimas coadjuvantes da minha história que ‘começa e termina’ hoje”. Se portam como se quisessem atrair a atenção dos outros, toda a atenção que julgam não ter recebido, escolhendo para isso a forma mais traumática, a mais covarde. Wellington, em sua carta de despedida, demonstrou sinais de patologia mental e de fanatismo religioso.
Porém, diferençar o que é, de fato, patologia mental, transtorno de personalidade e o que é mera deliberação de perversidade é tarefa difícil. Certamente, desse ofício se incumbirá a psicologia e a psiquiatria, tentando sondar e diagnosticar se, de fato, é alguma enfermidade da psiquê que acomete esses jovens e os faz, numa fração de segundos, ir do completo anonimato (ou esquecimento) ao total anti-sucesso popular, ou se, do contrário, tratam-se de mentes sãs, tomadas, apenas, de severa má intenção ou de transtorno.
É que, meus amigos, ainda que entenda que a sociopatia ou o transtorno de personalidade não significa a perda das faculdades intelectuais, não me parece aceitável a idéia de se considerar apenas "doente" ou "transtornado" quem premedita tão bem o ato criminoso que vai praticar. A dureza do crime e a sua calculada prmeditação nos impede de reconhecer o autor de uma atrocidade como vítima de doença ou transtorno.
É bem verdade que, em sua maioria, tais aparentemente inesperados atores (um pode ser o seu filho) dão sinais, por ação ou omissão, dos atos que pretendem encenar. No caso de Wellington, sua irmã reconheceu que ele vinha apresentando um comportamento estranho. Esse comportamento foi negligenciado por ela, assim como nós, talvez, estejamos negligenciado em nossos lares sinais similares já que, confessemos, o corre-corre dos dias atuais faz não sobrar tempo para acompanhar e, se necessário, censurar essa ou aquela cena, ou a obra no total, dos nossos filhos ou irmãos.
Como já se sabe, Wellington não tinha mais pais. Mas, temos que reconhcer que, hoje, a principal influência de formação de uma criança não é mais a conversa com os pais, nem com os professores. Hoje o computador, a internet, os jogos eletrônicos e os deturpados reclames por “espaço”, por privacidade, por não terem seus assuntos pessoais vasculhados pelos pais têm formado uma geração de crianças e adolescentes que se perde em valores e de pais omissos.
Não estou dizendo, nem posso por desconhecimento de causa, que Wellington foi criado assim e por isso fez o que fez. Mas, sem dúvidas, em algum momento, houve a ausência de alguém o que culiminou neste ato descontrolado para chamar a atenção de tanta gente. Também, é inegável reconhecer que se inspirou em exemplos passados e numa deturpada idéia de religão, para repetir o ato e "justificá-lo".
Não se trata de culpar os pais, apenas, mas de alertá-los. Alertá-los para que não sejam amargamente surpreendidos, ao verem suas crias recebendo, in memoriam, um pesado e funesto Oscar na categoria “pior atuação”, como esse que entregamos a Wellington Menezes de Oliveira, neste 7 de abril de 2011.
Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.