Postado em 30/10/2011 às 22:02

Lula, o populismo e o câncer

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Olá, pensadores!

Independentemente de inclinação político-partidária, temos de ter em mente que com certas coisas não se brinca. Não se pode fazer da doença, seja qual for ela, nem instrumento de populismo, nem de desdém decorrente da adversidade política.

Em janeiro de 2010, Lula, ainda presidente da República, durante um discurso na inauguração de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), em Recife, usando de sua ferramenta mais poderosa – o populismo – declarou que o Sistema Único de Saúde no Brasil, após os 8 (oito) anos de seu governo, estava tão bem aparelhado e funcionando de forma tal que “dá até vontade de a gente ficar doente para ser atendido”.

Por curiosidade (eu não quero dizer que foi castigo, não acredito nisso), nesse mesmo dia, nesse mesmo evento, Lula sentiu-se mal e foi levado para... Para a UPA? Não, não. Lula foi levado para o Hospital Português de Recife, da rede particular, um dos melhores hospitais do Brasil.

Longe de mim a hipocrisia de acreditar que o presidente da república seria mesmo atendido pelo SUS. Não seria, nem deveria ser. Como mandatário da nação, elemento que, por força da representação e legitimação popular, dirige os destinos do País, o presidente deve gozar, mesmo, de atendimento especial e ter, à sua disposição, a melhor das equipes médicas. É meio difícil de entender, mas da saúde do presidente da república, muitas vezes, é que decorre a saúde do País.

Contudo, o discurso populista de Lula é que incomodava e faz nascer essa natural repugnância por parte de seus não simpatizantes. Ter vontade de ficar doente pra ser atendido no SUS? O populismo (e não a popularidade) desmedido do então presidente é que é merecedor do nosso mais profundo escárnio.

Recentemente, Lula foi diagnosticado como portador de um tumor maligno na laringe e será submetido a um tratamento quimioterápico para combater a enfermidade. Imediatamente, nas redes sociais, milhares de pessoas, lembrando do episódio de 2010, passaram a criticar ferrenhamente o ex-presidente e lançaram uma suposta campanha, pedindo a Lula que trate seu câncer no SUS. Questionam: “Ele não disse que dava vontade de ficar doente para se tratar no SUS?”. E concluem: “Está aí a oportunidade!”.

Do mesmo modo que Lula errou ao usar seu populismo e dizer o que disse em Recife, seus adversários erram, hoje, quando não levam em conta que, antes de ser um petista ou um populista, Lula é um homem de carne e osso que, hoje, encontra-se portando uma doença que, não obstante ter grande possibilidade de cura, é das mais temidas. Como dito no começo desse texto, doença não deve ser mote para alfinetadas partidárias e isso vale tanto para Lula quanto para seus opositores.

Ao ex-presidente, desejo sucesso na recuperação, seja ela numa unidade do SUS, seja ela no Sírio Libanês. Quando estiver curado, que volte para o cenário da política para, aí sim, receber as críticas ou os elogios que suas ações merecerem.

 

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Postado em 26/10/2011 às 22:20

O exame da OAB e a Corte Celeste

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Olá, pensadores!

Há certo tempo, tenho defendido minha posição a favor do exame de suficiência realizado pela Ordem dos Advogados do Brasil para admissão de novos quadros em suas fileiras (Leia aqui o texto anterior). Para mim, dada a singularidade da missão dos advogados e, também, dada a falta de fiscalização das autoridades executivas sobre a qualidade da formação dos bacharéis em Direito que, todos os dias, são entregues à sociedade, o exame supriria falha grava, protegendo a comunidade de eventuais profissionais não preparados.

A matéria foi apreciada pelo STF, no Recurso Extraordinário n° 6033583, onde o requerente, João Antônio Volante, combatendo juridicamente contra a União e contra a o Conselho Federal da OAB, pleiteou da Suprema Corte que decretasse a inconstitucionalidade do Exame da Ordem. Seus principais argumentos eram a ofensa à liberdade profissional e à isonomia e a impossibilidade de a OAB editar normas para seleção e admissão profissional.

O relator, Marco Aurélio Mello, enfatizou a condição sui generis do advogado e da Ordem dos Advogados do Brasil, com reconhecimento constitucional de sua posição fundamental à administração da Justiça, bem como, afirmou que todas as profissões que possam colocar em risco à sociedade, trazendo possibilidade de dano à coletividade, podem – e devem – ser restringidas por exames que garantam a qualidade de tais profissionais.

Agindo de forma absolutamente coerente e respondendo a certos críticos que afirmam que o STF têm passado por uma suposta crise de liberalidade exagerada, crise materializada em decisões como a que considerou desnecessário o diploma para jornalistas e músicos, a que reconheceu a paridade entre união estável hetero e homoafetiva e a que considerou constitucional a “marcha da maconha”, a Suprema Corte deu prova inequívoca, no presente caso, que não passa por crise de liberalidade alguma. Na verdade, o STF, através de seus ministros, fez prevalecer a vontade da Constituição, vontade revelada por meio da hermenêutica.

Assim, os decanos, unanimemente, asseveraram: o exame é constitucional! Não fere à isonomia e nem à liberdade de trabalho. E disseram mais: ele cumpre a missão constitucional de assegurar que a própria função jurisdicional seja bem desenvolvida, além de servir como um instrumento de análise prévia da qualidade técnica do advogado, evitando que a OAB haja, tão somente, quando o dano à sociedade já houver sido causado pela atuação do profissional desqualificado.

O ministro Luiz Fux foi muito feliz quando, em seu voto, concluiu que a norma que prevê o exame caminha para a inconstitucionalidade, exortando o legislador para a necessidade da participação de outras entidades interessadas na formação do bom advogado, reforçando a legitimidade do exame que deve pautar-se por parâmetros democráticos. Segundo ele, somente assim o tal curso (o de trânsito para inconstitucionalidade) será interrompido.

De fato, além das questões de legitimidade tratadas pelo ministro, a forma como exame é aplicado e, sobretudo, as taxas que são exigidas dos candidatos são tópicos que merecem ser revistos pela OAB Federal. O exame precisa estar mais próximo da atividade real do advogado, desviando-se de discussões doutrinárias inaplicáveis, frutos de meras e inócuas invencionices de doutrinadores da moda. O custos do exame, para o candidato, precisa ser minorado, levando-se em consideração o perfil médio dos que pleiteiam a sua inscrição como advogado: estudantes recém formados, ainda sem emprego e sem renda.

Feitas estas ressalvas, a verdade é que o exame da OAB continuará sendo requisito para aquele que desejar defender, em juízo, o direito alheio. A decisão unânime do STF tem efeitos inter partes, isto é, somente é aplicável para os litigantes naquele recurso extraordinário. Todavia, dada a relevância da matéria e similitude de demandas repetitivas sobre o assunto, estou certo, tal julgado há de se constituir em precedente praticamente obrigatório seguido por aquela Casa e, por conseguinte, por todo o Judiciário.

Àqueles que estavam esperando por resultado diferente e, agora, não sabem bem o que fazer, dou-lhes três conselhos: o primeiro é mudar de profissão; o segundo, estudar para conseguir a aprovação no exame; por fim, o terceiro, é interpor recurso para a Corte Celestial, dirigido ao presidente do Tribunal Divino, ou seja, o próprio Deus, pedindo a reforma da decisão do STF brasileiro com base no princípio supraconstitucional da misericórdia. Para ajuizar tal petição não é necessário estar inscrito na OAB.

 

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Postado em 19/10/2011 às 23:21

A Fundação Sarney, a república e a oligarquia nordestina

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Olá, pensadores!

Criada no ano de 1990, a Fundação José Sarney, sediada em São Luís, tinha a missão de manter viva a memória do ex-presidente da República e atual presidente do Senado, José Sarney. Na verdade, muito mais que um monumento de autoexaltação ao coronel maranhense, a entidade era uma espécie de mecanismo de cooptação de recursos, em prol, claro de seus administradores.

Mantida, basicamente, por doações de empresas particulares, a Fundação José Sarney sempre contou com uma “ajudinha” do governo maranhense e, também, do governo federal. A sede da entidade, o suntuoso Convento das Mercês, tombado como patrimônio histórico e artístico nacional, passou, em 1990, por uma pequena reforma onde foram gastos R$ 9 milhões e, logo em seguida, foi “cedido” à família Sarney.

Naquele ano, a Fundação Sarney, que já havia se envolvido em esquemas fraudulentos, protagonizou um escândalo onde foram desviados mais de R$ 500 mil da Petrobrás. A estatal federal decidiu patrocinar um projeto que pretendia digitalizar os mais de 200 mil documentos do acervo da fundação. O resultado do investimento foi a distribuição do dinheiro entre empresas fantasmas e outras pertencentes ao clã de Sarney (como o grupo Mirante de comunicação) e, absolutamente, nenhum documento foi digitalizado.

Nesse mesmo ano, José Sarney anunciou o fechamento da fundação, alegando crises financeiras criadas pelas “denúncias caluniosas da imprensa”, que havia afastado os doadores. Que fechar que nada! A fundação continuou aberta e, pasmem, passou a “alugar” sua sede, patrimônio histórico e artístico nacional, para festas de jovens e raves. E não é só: parte da sede da Fundação foi alugada pela Secretaria Estadual de Educação do Maranhão que pagava cerca de R$ 10 mil por mês aos dirigentes da fundação. É isso mesmo: o prédio do governo alugado pelo governo! E ainda tem mais: a governadora Roseana Sarney publicou, no DOE do Maranhão, agora em 2011, que o governo daquele Estado iria pagar, à fundação, R$ 350 mil a título de aluguéis atrasados. Todas estas informações foram devidamente publicadas pela mídia, com destaque para a cobertura feita pela Folha de São Paulo.

Pois bem. Achando pouco, como é praxe de quem se instala no poder e faz da coisa pública o que bem entender, a governadora Roseana Sarney, hoje, conseguiu aprovar uma lei que estatizou a Fundação José Sarney. Em outras palavras, agora é responsabilidade do Estado do Maranhão – que só pode ter recurso sobrando, a despeito de seus péssimos índices sociais – manter financeiramente a “ilibada” instituição. Financeiramente, apenas. Porque, administrativamente, é de competência de Sarney, patrono da fundação, indicar parte de seus dirigentes. E, na morte dele, a prerrogativa da indicação será de seus herdeiros.

De acordo com o balancete dos anos anteriores, estima-se que o governo do Maranhão gaste, por ano, cerca de R$ 1,2 milhão para manter a “memória” de Sarney, dinheiro que será gerido pela própria família Sarney, do modo que melhor lhe aprouver. Afinal, alguém tem dúvida sobre quem deve compor a administração da fundação?

A base aliada de Roseana, na assembléia do Maranhão, aprovou o projeto sob o principal argumento que a “homenagem a Sarney era justa". Justa? Façam-me o favor! Nem justa, nem legal, ferindo de morte a Constituição Federal que elegeu, como um dos princípios da administração pública, a moralidade. Ora, se a bendita fundação tivesse uma história imaculada e fosse dirigida pelo mais honesto dos homens, ainda assim, não poderia gozar das prerrogativas que hoje entregaram ao Mausoléu Sarney. Que se dirá de uma entidade que, desde seu nascimento, regurgita na lama e serve como fachada para os interesses escusos da oligarquia maranhense?

Para tentar escamotear o “presente” que ganharam, os Sarney decidiram mudar o nome da fundação. Paradoxalmente, ela passa a se chamar, a partir de hoje, de “Fundação da Memória Republicana Brasileira”. Parece que fizeram de propósito! Não poderiam ter escolhido nome pior... O Estado do Maranhão, hoje, deu uma prova clara que a res publica é só uma ficção posta na Constituição. Lá, no Maranhão, o patrimônio público tem dono para sempre, amém!

 

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Postado em 12/10/2011 às 22:57

Basta, Rafinha Bastos!

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Olá, pensadores!

Eu devo fazer parte de uma minoria absoluta: eu não gosto do programa CQC. Não obstante reconhecer que algumas das matérias são muito interessantes, tanto pelo formato quanto pelo conteúdo e time de alguns dos repórteres, aquela bancada, liderada pelo artificial Marcelo Tas e ladeada pelos forçadores de barra, Marco Luque e Rafinha Bastos, faz-me mudar de canal sempre que tento ver o programa.

Autointitulado de humor inteligente, o CQC e sua bancada estão longe de qualquer coisa que se possa dizer, de verdade, que possui inteligência. Caras e bocas, gritinhos e piadas rápidas, é verdade, mas quase sempre de péssimo gosto, sinceramente, não conseguem me fazer dar as risadas que, acho, seria a intenção do programa.

Devo confessar que sou adepto e fã da forma de se fazer comédia atualmente. O humor de cara limpa, antenado com a realidade, feito no improviso e com uma inteligência sutil capaz de nos fazer rir das coisas mais simples. Um humor que utiliza a lógica do cotidiano, caricaturado, sem agredir e sem ofender. E, quando há uma ponta de ofensa, o conteúdo cômico é tão imensamente maior que você é capaz de distinguir, a léguas: foi apenas uma piada.

Mas, a bancada do CQC e, em especial, o insuportável Rafinha Bastos, macula essa nova onda de se fazer comédia, quando, muitas vezes, perdendo o time do texto ou, o que é pior, deliberadamente, iam além da piada, ofendendo duramente a personagem ou o assunto comediado. Ou, como no caso da cantora Wanessa Camargo, deixavam a piada de lado e partiam para a ofensa pura e crua, sem receios, nem remorsos.

Somente na cabeça de um "ser de suprema inteligência", seguido no Twitter por três milhões de pessoas, expressar que “comeria ela [Wanessa Camargo] e o bebê [a cantora está grávida]” pode soar como uma piada. Desculpem-me mas não se trata de puritanismo, nem de conservadorismo. Na verdade, trata-se de bom senso e, paradoxalmente, de inteligência. Se fazer humor com inteligência é dizer, ainda que sem intenção real, apenas para parecer o “polêmico”, que faria sexo com um recém-nascido, prefiro continuar burro.

Rafinha Bastos, no auge da fama que certamente possui, fama construída por seu modo irreverente de tratar todos os assuntos, talvez esteja certo que pode verbalizar qualquer asneira, pode fazer piada com qualquer assunto, pode fazer apologia a qualquer prática animalesca, que será, justamente pelo grau de “coragem”, idolatrado. E, por incrível que pareça, muita gente pensa exatamente assim. Nossa sociedade dá um valor exagerado àquele que subverta qualquer tipo de convenção moral, como se toda construção moral fosse noviça, inútil e antiquada. "Ah, estuprar um bebê é um piada inteligente! Vamos curtir!". Onde vamos parar?

Pois eu, meus amigos, penso exatamente o contrário. A piada verdadeiramente boa é aquela capaz de deixar, na lembrança, apenas os risos. Se alguma coisa mais ficou, a piada nem foi boa, nem foi inteligente. Por isso, com muito orgulho, repito que não faço parte do grupo de seguidores de Rafinha Bastos!

Acredito que a Band tomou a decisão correta quando afastou o “humorista” do programa, embora, hoje, com seu pedido de demissão, pareça estar meio arrependida, pois pode perder a franquia do CQC, que é propriedade da produtora argentina Quatro Cabezas, sob o argumento de que os jornalistas do programa “têm liberdade para falar o que quiserem”! O que precisa estar claro é que liberdade de expressão não se confunde com ofensa gratuita, maquilada em suposta piada “refinada”. Para mim, já estava na hora de alguém dizer: “Basta, Rafinha Bastos!”.

 

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Postado em 05/10/2011 às 23:05

O legado de Steve Jobs

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Olá, pensadores!

Hoje, o mundo lamenta a morte de Steve Jobs, um homem que foi capaz de revolucionar a vida de grande parte de todos nós. O homem que, durante anos a fio, esteve à frente da Apple, gravou seu nome de forma indelével ao oferecer produtos eletrônicos que, se não próximos da perfeição, são tão úteis e funcionais que viraram referência nas áreas de tecnologia, informática e comunicação.

Steve Jobs enfrentou um câncer no pâncreas, em 2004, doença da qual se declarou curado. No ano de 2009, passou por um transplante de fígado. Em agosto desse ano, em um comunicado inesperado, afastou-se da presidência da Apple e, desde então, entendeu-se que as coisas, pelo menos na saúde do CEO, não estavam tão bem. Prenunciava-se o fim da Era Jobs, mas não da revolução tecnológica criada por ele.

A verdade é que os players de música, os tablets e os smartphones, depois da Apple, nunca mais foram os mesmos. O excelente desempenho do conjunto software-hardware e dos componentes eletrônicos constituintes dos produtos da empresa, o design vanguardista e o acabamento, sempre refinado, fizeram dos inventos de Jobs verdadeiras minas de ouro para a Apple, que é uma das marcas mais valiosas do mundo e, também, líder no seguimento de playres de música (com seu famoso iPod), tablets (iPad) e smartphones (iPhone) há um bom tempo. Há que se reconhecer, ainda, seu bom desempenho nas áreas de notebooks (com o MacBook) e o mais novo e promissor produto da maçã: o iCloud, uma espécie de armazenamento virtual que vai permitir, entre outras coisas, que seus dados armazenados sejam visualizados em qualquer (e em todos) dos dispositivos Apple que você possua.

Para nós, usuários, as idéias de Jobs podem ser aferidas em números: uma pesquisa publicada, esse mês, na Info Exame Digital, revelou que 90% de clientes usuários da Apple declaravam-se inteiramente satisfeitos com os produtos da marca; já 89% afirmaram que não trocariam de marca de celular, computador ou tablet. A segunda colocada beirou, em ambos os quesitos, a casa dos trinta pontos percentuais.

Os produtos Apple sempre foram meu sonho de consumo. Não simplesmente porque o emblema da maçã carregava consigo um estranho poder de seduzir e fascinar os usuários. Mas, principalmente, porque eles me traziam a impressão de que o melhor da tecnologia disponível no momento estaria ali de forma prática, didática, intuitiva e, até, preditiva. E foi exatamente isso que senti quando tive nas mãos o meu primeiro iPod. Depois dele, vieram os iPhones (3g, 3gS e, agora, o 4) que me fizeram ser parte dos 90% de usuários que se dão inteiramente satisfeitos com a marca e, também, engrossar as fileiras dos que não pretendem trocá-la por outra.

Jobs, que iniciou sua carreira no ramo da tecnologia em meados dos anos 70, não conseguiu montar apenas uma empresa sólida e com sucesso notório. Ele, simplesmente, foi responsável pela revolução tecnológica que permitiu a todos nós, hoje, contato com  todo o mundo e acesso a uma infinidade de informações, bastando tirar um aparelho pequenino do bolso. Da cabeça de Jobs saiu um mundo de acessibilidade (e, mais recentemente, a partir de 2007, com o lançamento do iPhone, de acessibilidade móvel) que transformou-nos todos. Hoje, por força da genialidade de Steve Jobs, nenhuma pergunta fica sem resposta... o iPhone ou o iPad respondem

E mesmo que me digam que outras marcas, inclusive mais antigas, já atuavam no setor e tinham trabalhos tão promissores quanto os de Steve Jobs, eu lhes respondo que pode até ser verdade... Mas, digo a todos, sem medo de errar: essas marcas tiveram de se transformar profundamente e precisaram, até mesmo, imitar, copiar e plagiar produtos para tentar enfrentar o mundo que a Apple desenhou, o mundo que Jobs arquitetou e nos ofereceu.

Do legado que ele nos deixou, talvez esse seja o mais importante: o de se tornar referência quase singular, no mundo da tecnologia, mesmo para aqueles que, embora se dissessem seus concorrentes, eram, na verdade, seus aprendizes.

 

 

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Postado em 23/09/2011 às 20:23

Cordel Encantado: o retorno da novela arte

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Olá, pensadores!

Poesia, comédia, originalidade e excelente tratamento cênico! Estas foram as minhas impressões ao acompanhar as primeiras cenas da novela Cordel Encantado, da Rede Globo, cujo último capítulo foi ao ar nesta sexta-feira. A rica e inigualável cultura nordestina, aliada ao mistério dos contos de fada europeus, propiciou às autoras, Thelma Guedes e Duca Rachid, comporem uma trama cheia de ação, graça e suspense.

Fugindo do cansativo padrão que parecia ter se instalado na forma de se fazer novela no Brasil, com folhetins pouco inovadores, cansativos e baseados nos mesmos clichês, Cordel Encantado conseguiu a proeza de devolver ao público a ideia de novela espetáculo, com personagens bem caricaturados, eventos fantasiosos e inesperados e o uso da ficção despreocupada, mas não irresponsável.

A composição e atuação do elenco talvez tenha sido o ponto alto e, também, a pior parte de Cordel Encantado. Ela levaria o Oscar de melhor elenco pelas atuações de monstros como Zézé Polessa e sua impagável Ternurinha, Marcos Caruso e o inigualável Prefeito Patácio, Osmar Prado e o insubstituível Batoré e o garoto revelação João Fernandes, o querido Nidinho. Por outro lado, são dignos da Framboesa de Ouro, como piores atuações, os protagonistas, Cauã Reymond (Jesuíno) e Bianca Bin (Açucena), o inexpressivo Carmo Dalla Vecchia (Rei Augusto) e a insuportável Emanuelle Araújo (Florinda).

É bem verdade que alguns pontos da trama não ficaram bem amarrados ou, pelo menos, o exagero das autoras na tentativa de atar os pontos parece não ter surtido o efeito desejado. Por exemplo, a ideia de trazer à trama a figura do profeta nordestino, Miguézin (Matheus Nachtergaele), numa alusão clara a Antônio Conselheiro, líder de Canudos, perdeu-se quando se deu a ele a única missão de esperar por uma “flor” salvadora que, como visto, não salvou o sertão. Os exageros das cenas transcendentais do profeta, com a exaustiva e tenebrosa menção ao “filho das sombras”, não condisseram com a salvação proclamada e esperada e a questão espiritual pareceu, muito mais, uma forçada de barra.

Aliás, sobre Timóteo Cabral (Bruno Gagliasso), deve-se fazer uma observação em especial. As autoras, infelizmente, perderam a chance de perpetuá-lo na parede de grandes vilões da teledramaturgia brasileira ao tirar a lucidez do coronel latifundiário e revestir-lhe numa espécie de loucura romântica, insanidade esta que nos fez desacreditar em seu potencial de maldade. Passamos a encará-lo como um louco, apenas. O brilho do ator e seus bordões (“fique quietinha, vá”) foi ofuscado por uma péssima escolha autoral.

Devo confessar, também, que Cordel Encantado teve seu ápice até a sua primeira metade, com o enredo ainda a se desenrolar. Inclusive, foi nesse período que ela marcou seus maiores pontos de audiência. O êxito dos diretores em fazer de cada capítulo uma mini história, com começo, meio e fim provocativo, deixou-nos a todos loucos para não perder um só momento do folhetim. Contudo, depois de bem conhecidas as personagens e, também, as possibilidades de evolução da estória, Cordel Encantado foi perdendo seu poder atrativo, mas, devido ao seu conjunto, conseguiu manter boa parte de seu público cativo, superior a média histórica do horário.

Achei ousada e bem acertada a ideia das autoras de acabarem as agruras das personagens no penúltimo capitulo da novela. Fugindo, mais uma vez, do padrão, Cordel Encantado permitiu que as contas fossem acertadas antes da hora. Timóteo Cabral e Úrsula (Débora Bloch), principais vilões da trama, tiveram seus destinos selados no penúltimo capítulo. Isso permitiria que, bem dentro do espírito da novela, o gran finale fosse mais leve, mais cômico e mais voltado ao espetáculo.

Contudo, não foi bem assim: o último capítulo, a meu sentir, foi apenas morno e cheio de péssimas escolhas, a exemplo do romance de Petrus (Felipe Camargo) e Filó (Flávia Rubim), começada no capítulo anterior, e a reconciliação entre Herculano (Domingos Montagner) e Benvinda (Cláudia Ohana). Mas, sem dúvidas, a pior delas foi a chegada do novo Coronel, Pedro Falcão (Caco Ciocler), para retomar as terras que eram de Timóteo Cabral. Ora, como dito, a novela se destacou, exatamente, por seu caráter fantasioso e, por isso, a lição de que o mal sempre existe não precisava ser dada ali, muito menos daquela forma.

Ainda assim, mesmo com minhas críticas, tiro o chapéu para Cordel Encantado, uma novela que me fez ficar sentado na frente da televisão como, há muito, eu não fazia, muito menos por causa de folhetins televisivos. Rica em cultura e compromissada com a graça, Cordel Encantado foi um sinal de que nós, público, estamos cansados de novelas que tentam, a todo custo, se passar por gritos de denúncia ou retratos da vida real. Cordel Encantado deixou bem claro que ainda há, por parte dos espectadores, o anseio por ver simplesmente arte, graça, leveza e encanto.
 

Balaio do Teles

Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.