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Postado em 06/01/2010 às 00:01

O desejo de Angra dos Reis

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Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo.

oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/01/06/desejo-de-angra-dos-reis-915473693.asp

Olá, pensadores!

A linda e, ultimamente, triste cidade de Angra dos Reis, em 2010, vive um dos mais lamentáveis aniversários de sua história. Em 507 anos bem vividos, povoados e visitados, Angra é obrigada a comemorar seu 508º aniversário com lágrimas de chuva, de dor das muitas vítimas e com o suor das equipes dos incansáveis que continuam as buscas e já iniciam a reconstrução da cidade.

Nessa hora de agonia, não podemos deixar de creditar a responsabilidade do Poder Público, das autoridades ou, mesmo, das pessoas que insistem em ocupar o terreno de forma irregular, num crescimento desordenado que prenuncia desgraças há tempos... Mas, infelizmente, estamos acostumados, em Angra e no Brasil, a não se previnir, mas sim remediar. O uso da desgraça como palanque político é o que mais dói.

Nesse aniversário, comemorado hoje, Angra não tem bolo, nem tem vela. Aliás, tem velas sim, mas estas sinalizam uma dor que Angra preferia não estar sentindo. Angra, das usinas nucleares, necessita recobrar energia para voltar a ser o que sempre foi: uma cidade forte e com admirável veia turística.

De toda sorte, como acontece a nós, Angra está doente e a festa de aniversário precisará ser adiada. Antes mesmo de receber presentes, Angra precisa é de sua saúde de volta. Seu prefeito, Tuca Jordão, como seu maior porta-voz, clama por um presente, nessa data querida: a decretação de calamidade pública. Esforça-se nos trâmites burocráticos, como se precisasse atestar a calamidade que se assolou por aquelas bandas. Os angrenses, acostumados à pujança de sua terra, trocam os votos de parabéns a cidade pelos de "vamos lá, recomeçar é preciso".

Mesmo assim, na dor, é necessário trazer um afago a cidade de Angra. É preciso cantar-lhe os parabéns. Nem que seja para que no final, quando se disser "muitos anos de vida", Angra possa, através do coração de cada cidadão, fechar os olhos e soprar um sopro de esperança e de desejo - como se faz quando se apagam as velas de um bolo. No coração de Angra e de cada angrense estará o desejo de que a cidade esteja logo de pé, pronta para viver outros 508 anos de alegria e prosperidade! E também que os homens, políticos ou cidadãos, aprendam algo com esta terrível lição!

Tags: Desastre, Angra dos Reis, aniversário, reconstrução, lição
Postado em 03/01/2010 às 23:15

Um clamor por Angra dos Reis

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Olá, pensadores!

Imagine-se comemorando o réveillon em um lugar paradisíaco... Você e seus melhores amigos, juntos, pulando ondas e estourando champanhe, cantando e sorrindo. Imagine seu celular recebendo os votos de bom começo de ano novo... Você, eufórico, ligando para as pessoas mais especiais, enquanto os fogos estouram no ar!

Imagine-se dormindo, feliz, num quarto de hotel. Seus melhores companheiros estão nas camas de cima ou de baixo, ou nos colchonetes... Você está feliz porque sabe que amanha ainda é festa e que, ao lado deles, tudo vai ser bom! Vocês esperaram muito por essa virada de ano, por essa viagem, por vocês mesmos... Dormem tranquilos, certos de estarem seguros, confortáveis e, acima de tudo, felizes!

Esta cena ocorreu com quase todos nós, há poucos dias! Ocorreu também para os moradores e turistas que visitavam a bela cidade carioca de Angra dos Reis. Balneário turístico, entre montanha e mar, margeada de Mata Atlântica, Angra foi palco para um começo de 2010 indesejável – e imprevisível – para dezenas de famílias...

Imagine-se sendo acordado por toneladas de barro, inundando seu quarto de hotel, sufocando seus amigos, sepultando seus sonhos e os votos de um bom ano novo, renovados há tão pouco tempo... Imagine-se sendo terrivelmente surpreendido por um mar de lama que, sem piedade, arrasta tudo que vê pela frente, derrubando paredes, dobrando pilares, retorcendo ferros e destruindo vidas...

Embora você consiga imaginar, nunca vai sentir de verdade o que é isso. Eu também não sei, ao certo e de verdade, o que é saltar de uma alegria tão imensa, como a da celebração do ano novo com meus melhores amigos, para uma dor incomensurável de saber que, logo no primeiro dia do ano, muitos desses melhores amigos – ou filhos, irmãos, pais, netos – já não estão comigo.

Esta é a dor dos sobreviventes, dos familiares que hoje choram suas perdas e dos incansáveis que buscam seus desaparecidos... De saber que começam um ano – e o resto de suas vidas – sem alguém que, sinceramente, não estava em hora de partir...

Mas quão intrigantes são os descaminhos dessa vida... Força e coragem, é o que desejamos aos que sofrem. Não sou famoso, nem conhecido, mas, ao ver tanta dor, fui tomado por compaixão por aquele povo. Não sei se o que faço dará algum resultado, mas faço de coração. E peço a sua ajuda, leitor, nesse clamor por Angra dos Reis:

Se não fez, ainda, reserve um pouco de tempo e faça uma oração a Deus para que conforte os corações esfacelados de familiares e amigos das vítimas. Com a sua fé e crença, ore ao seu Deus. Esta é a maior ajuda que você pode dar: clamar alívio para um fardo em verdade tão pesado.

Mas, se além disso, você quiser agir, faça uma doação. Para informações sobre como entregar doações para as vítimas em Angra, solicita-se ligar para os telefones (24) 3377-6046, 3377-7480, 3365-4588 e 3377-7869. Roupas, colchões e alimentos estão sendo recebidos no Colégio Estadual Dr. Artur Vargas, na Rua Coronel Carvalho 230, em Angra dos Reis. É um bom momento para tornar concretos os votos que fizemos uns aos outros de um ano novo feliz.

Tags: Angra dos Reis, desastre, ajuda, solidariedade
Postado em 31/12/2009 às 06:37

Escolhamos um feliz 2010!

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Olá, pensadores!

Carlos Drummond de Andrade já dizia que “quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente”.

Nessa ânsia de ver tudo novo e mudado, os mais incautos se agarram às previsões... Buscam nas cartas, búzios e bolas de cristal o que a nova fatia de tempo nos trará. Ingênuos, depositam todas as suas fichas nessas projeções improváveis, como se 2010 fosse um pedaço de tempo desconectado do nosso tempo de agora... Como se as coisas fossem começar do zero pela simples virada do calendário...

Se é verdade que o novo janeiro nos enche de vontade de ver tudo renovado, é mais verdade que um ano novo é o fruto que se colhe do que se vai. Doce ou azedo, vai depender do que plantamos. Portanto, como um diligente motorista, enquanto não aprendermos a usar o retrovisor, de nada adiantará fazer previsão, comer romã, chupar uva ou pular sete ondinhas...

Enquanto não tivermos o hábito de olharmos para trás e a coragem de, nesse revival, irmos na contramão dos erros que cometemos, jamais encontraremos estação mais feliz que a que hoje, dia 31, deixamos para trás! A mesmice imperará e, excetuada a ilusão da virada, o ano novo será um antigo conhecido: é o velho ano novo!

Não podemos esquecer que 2009 foi um ano exemplar em escândalos e corrupção! Tivemos atos secretos, farra de passagens aéreas, castelos e fazendas não declaradas, agressões mútuas no Senado, deputados gazeteiros e suas notas fiscais falsas, panetones recheados, dinheiro em bolsa, meia e cueca...

Se, pela simples chegada de 2010, acharmos que “daqui pra frente, tudo vai ser diferente”, esquecendo os nomes dos ladrões engravatados ou dando-lhes novos votos de confiança, coitados dos videntes: perderão seus empregos. Afinal, ninguém precisará ser babalorixá para acertar, na mosca, a previsão: o Brasil continuará essa pátria mãe gentil que a muitos esquece e a poucos enriquece.

Quem sou eu para discordar de Drummond, mas afirmo que, realmente, quem teve a idéia de fatiar o tempo foi um cara genial. Mas não por permitir que descansemos e recomecemos, do nada... O fabuloso do tempo em pedaços é que a gente pode escolher a fatia certa para fazermos o que é correto, justo e necessário e, efetivamente, nos orgulharmos de ter um ano novo, em verdade, novo. Essa fatia pode ser agora! Escolhamos um 2010 feliz!

Tags: Ano Novo, Tempo fatiado, escolhas certas,
Postado em 29/12/2009 às 00:13

'Quem tem... tem medo': o ditado de Everaldo

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Olá, pensadores!

Usando a velha sabedoria popular, minha querida mãe já dizia: “meu filho, mentira é um bicho de perna curta...”. Ela me ensinava que o engano não vai longe, tem passo pequeno, sendo logo alcançado e descoberto... Em Alagoas, há tempos esse ditado não voga... Mas, de vez em quando, pimba! O velho adágio faz sentido, embora não mude a realidade.

A prisão do ex-cabo Everaldo Pereira, que surpreendeu-nos, a todos – e a ele, mais ainda – deixou muito “doutor” apreensivo (no popular, torando aço). Everaldo Pereira, reconduzido à memória pública pelo trágico incidente com sua filha, Eloá Pimentel, em outubro do ano passado, em São Paulo, está de volta à terrinha, agora como uma máquina de enlamear poderosos.

E esse arquivo – que todos davam por morto – começou a expulsar as traças de suas páginas amareladas e já se pôs a revelar o nome dos mentirosos do caso “Ricardo Lessa”. Everaldo começou a proferir seu ditado... E, além de confirmar o provérbio da inverdade, Everaldo relembra outro, arrazoado: “quem tem... tem medo!”

O ex-militar deve trazer solução teórica a uma história que ficou sem resposta durante anos, fazendo vir à tona nomes que, por força do dinheiro e da influência, permaneciam ocultos... Dos revelados, alguns já pagam outros débitos, por outras mentiras e ações... Mas há os que posam de bons moços, por aí. E outros que até emprestam nome a prédios públicos. As homenagens graciosas agora se quedam ridículas e constrangedoras.

Entretanto, não nos enganemos! Estamos em Alagoas. E conhecendo o histórico de nossa província, o ditado de Everaldo terá pouca ou nenhuma serventia: além de pautar os jornalistas e lhes servir de conteúdo para boas reportagens, confirmará aos alagoanos mais críticos, sensatos e sensíveis o sentimento de estarmos rodeados de hipocrisia e impunidade. E só. A mentira tem perna curta, mas seu advogado é bom.

Meus amigos, o principal prejudicado com o ditado de Everaldo é ele mesmo. O ditado é reescrito em primeira pessoa: “eu tenho... e tenho medo!” Porque, em nossa republiqueta, impera a cultura de que mandante não é criminoso. Aqui, em Alagoas, quando alguém paga, é somente aquele que literalmente sujou as mãos de sangue ou de pólvora. Basta relembrar os casos de Ceci Cunha, de Fernando Aldo ou o recentíssimo, do estudante Fabio Acioly, entre tantos. Onde estão os mandantes?

A Polícia honesta, a despeito da banda podre, terá muito trabalho para manter esse “arquivo vivo” vivo. A Justiça decente, contrariando a vendida, se esforçará para inserir no rol de acusados, e dos condenados, os nomes cantados por Everaldo, fazendo-os pagar por seus débitos... São brigas duras e difíceis para ambos.

Mas, a menos que eu esteja inteiramente enganado (e eu espero estar), a mais penosa missão estará com o povo, com os alagoanos: nós precisaremos ter estômago e paciência para ver, às claras,  mais um caso de pistolagem em Alagoas ser resfriado e morrer no esquecimento.

Tags: ex-cabo Everaldo, Ricardo Lessa, prisão, pistolagem
Postado em 26/12/2009 às 02:19

É na tapa ou no dente!

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Olá, pensadores!

Costumam dizer que festa de pobre é que acaba assim, na Delegacia. Ainda bem que alguns nobres vereadores por Maceió estão preocupados em mudar essa realidade. Eles mostraram que também são povão e que festa da "granfinagem" também pode ter o mesmo "gran finale".

A baixaria, que há muito era ensaiada no plenário da Casa Mário Guimarães ("porca trapaceira" e "ladra de prótese de criancinha" que o digam), botou pra correr o espírito natalino e revelou os "mais primitivos instintos" de suas senhorias (no dizer do ex-deputado federal Roberto Jeferson, aquele do "mensalão").

Se a festa fosse modesta, a briga teria sido meia boca, com um murro ou um chute na canela! Mas a festa era de gente chique e importante e a bagaceira foi das grandes! Teve direto, gancho, upper, jab e cruzado de causar inveja a qualquer boxeador, inclusive, ao Popó. Dizem que teve até – eu não quero acreditar – dentada na orelha! Valha-me Deus, terá sido descoberto um novo Mike Tyson nas Alagoas?

Na tentativa de se mostrarem gente da gente, os doutores só erraram no final. E aí, confesso, não sei se o erro foi dos figurões ou da polícia. É o seguinte: quando o cacete come, pra gente pobre, pelo menos um dos valentes dorme na cadeia, que é para acalmar os ânimos. É o "sossega leão"!

Acho que a cela não estava muito limpa, ou não tinha travesseiro de pena de ganso, ou o condicionador de ar estava quebrado, ou a TV por assinatura cortada, ou a internet sem funcionar, ou o frigobar vazio, ou não tinha uísque escocês (nem sei ainda cabia no tanque dos homens)... O que sei é que alguma dessas situações ocorreu para que nenhum, nem outro, parlamentar quisesse "voltar à calma" no xilindró.

Mas, tirando isso, os vereadores fizeram tudo certinho! Acho até que foram além do necessário, porque andei sondando e, nas inúmeras festas de Natal das gentes humildes, na periferia ou nas grotas, imperaram a harmonia e a confraternização (esta última num sentido da palavra que os vereadores precisam descobrir). Arrancar pedaço de orelha? Deu a louca nos figurões?

Se o mau exemplo dos vereadores não tiver sido único, a Câmara de Maceió acaba de ganhar um novo lema: "o que não se acerta na palavra, se conserta na dentada".

Tags: briga, vereadores, Maceió
Postado em 24/12/2009 às 14:35

Feliz Natal, doutor infeliz!

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Olá, pensadores!

Ontem, dia 23, parei com o carro num semáforo da Avenida da Paz, na altura da sede da Procuradoria Geral de Estado. Lá, um jovem de barba mal feita e roupa surrada fazia, com malabares incandescentes, estripulias, galgando as moedas dos motoristas mais comovidos.

Eu catei nos bolsos e, infelizmente, não havia trocado algum... O artista de rua aproximou-se do meu carro e eu, com vergonha, fiz um sinal com o polegar pra baixo. Ele me olhou e estendeu a mão vazia (a outra segurava os malabares, agora apagados) e disse: "Feliz Natal, doutor, e vá com Deus!". Eu apertei a sua mão, receoso. O sinal abriu e pisei no acelerador, deixando pra trás o homem. Na mente, rodopiando como suas bolas de fogo, suas palavras e votos...

Se verdadeiro ou não, o desejo daquele jovem, devotado a mim, me ocupou o pensamento. Entregue à própria sorte, ao talento e à generosidade do público eventual, a cada sinal vermelho, aquele homem escolheu ganhar dinheiro de forma honesta e corajosa, afinal, o contrato, ali, é de risco. Ele parecia ir na contramão do caminho que lhe destinaram.

Porque dependesse somente de nossa visão, egoísta e mesquinha, ali estaria não um artista em busca do sustento, mas uma ameaça aos motoristas e nossos carros cerrados... Os políticos vêem, nele, não um cidadão invisível ao Estado, mas um desocupado, preguiçoso ou um dos poucos não alcançados pela política de trabalho e renda...

Na visão da polícia, ele seria não um cidadão a ser protegido, mas um suspeito em primeiro grau... Dependesse da Justiça, em vez de um desamparado privado de direitos, aquele malabarista seria visto como um iminente agressor do ordenamento jurídico.

O meu carro é modesto, eu não trajava paletó e gravata e, mesmo assim, aquele homem me chamou de "doutor". Deve estar acostumado a cumprimentar os figurões que passam naquela entrada de Maceió ou deve achar que, diferente dele, todos o são. Preso à condição social, segue circense, distribuindo aos que passam sua arte e sua boa vontade, sendo visto por poucos e ignorado por todos.

Mais à frente, próximo ao Detran, me dei conta que não tinha retribuído o voto de "feliz natal" do malabarista. Ele, suponho, já deve estar acostumado com a nossa insensibilidade. No máximo, quando viu meu carro partir mudo de reciprocidade, deve ter remoído – e com razão – dentro de seu peito: "Feliz Natal, doutor infeliz".

Tags: Natal, Sociedade, Insensiblidade, Egoísmo

Balaio do Teles

Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.