Esse texto foi publicado, também, no Portal O Globo:
Olá, pensadores!
As declarações do general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, candidato a uma vaga de ministro no Superior Tribunal Militar, demonstrando sua opinião contrária ao engajamento de homossexuais no Exército Brasileiro, geraram polêmica e diversos protestos de entidades LGBT e de órgãos como a OAB. A discussão foi reacendida.
À tona nacionalmente pela última vez em 2008, com o caso dos namorados e então sargentos Laci Marinho e Fernando Alcântara, o debate põe em questão a suposta incompatibilidade entre orientação sexual e farda, a problemática da homofobia, a posição do Estado como ente não discriminador e o pensamento da sociedade sobre o tema.
O Código Penal Militar diz que é crime “praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar”. Não há, portanto, punição ao militar que, fora do quartel e não estando em serviço, assuma sua homossexualidade. O vínculo homoafetivo entre militares, também, não é punível.
Na óptica sociológica, o exército é uma Instituição Total, isto é, funciona como uma fôrma que, isolando indivíduos, molda-os num padrão que nem sempre se coaduna com o modelo social. São Instituições Totais, também, os conventos e os manicômios. Nos quartéis, o embate entre esses “padrões sociais mais amplos” e o modelo estabelecido pela instituição é que gera a contradição. O ícone do viril comandante parece não se compatibilizar com o do homossexual. Será?
Apesar de não ser um comum do povo, o general falou como se o fosse. Não sejamos hipócritas, ele foi o espelho do senso comum brasileiro. E, convenhamos, os discursos de “igualdade”, “direitos humanos” e “diversidade”, dos quais inclusive sou defensor, despencam ineptos frente à força cultural que, por exemplo, fez os senadores que o sabatinavam não relevarem a opinião do general e o aprovarem por unanimidade. Tais discursos se fragilizam, ainda, em confronto com a moral vigente que divide opiniões e, lá no fundo, faz a maioria repelir a imagem de um militar, defensor do País, efeminado.
É bem verdade que o general se equivocou ao duvidar da capacidade de comando dos homossexuais. A orientação sexual não lhes diminui o comando ou a liderança. A história nega, solidamente, a alegação do oficial. Mas é certo, porém, que o exercício militar requer postura, conduta ética e profissionalismo, características presentes em homens e mulheres, independentemente de sua orientação sexual. A meu ver, atos de corrupção e de abuso de poder mancham tanto, ou mais, a “dignidade da farda” quanto um ato libidinoso, homossexual ou não, em serviço. São todos espécimes de crimes e de desrespeito às regras postas que, voluntariamente, foram aceitas pelos que se decidiram pela farda.
Acredito que a sociedade precisa avançar muito mais no debate sobre a aceitação das diversidades, entre elas a sexual, para que os protestos que ora se levantam não sejam apenas “politicamente corretos” e se tornem verdades conscientemente defendidas, geradoras de efeitos concretos. Porque, no nível em que está, essa defesa é pirotécnica e não será capaz de mudar a realidade, como no exemplo dos ex-sargentos homossexuais que, de tanto serem perseguidos e punidos, literalmente, pediram para sair.
Qual a sua opinião?
Olá, pensadores!
Por mais que se queira disfarçar, chega um dia em que, como diz o poeta, “não dá mais pra segurar e explode...”. Condenado pela maioria das religiões ocidentais, relegado pela ciência a incipientes e isolados estudos, desprezado no seio social e sequer visto como uma questão de saúde pública, o suicídio tem permeado a convivência humana, fazendo perenemente suas vítimas...
Para o filósofo francês Albert Camus, que viveu no início do século passado, “o suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo... Decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia”. Entretanto, esse assunto continua esquecido, eclodindo esporadicamente com fatos estarrecedores como o ocorrido recentemente na cidade de Maceió, onde o jovem Joel Noel de Andrade, 23, espontaneamente, usando explosivos, ceifou a própria vida.
Um estudo do pesquisador Stan Kutcher, de 2008, revelou que o suicídio é um problema de saúde mental que independe de classe social, mas que obedece a certos fatores e variáveis: solidão e frustrações de ordem afetiva e econômica foram as causas mais recorrentes... Apesar de não escolher vítima, durante o estudo percebeu-se que o perfil de maior reincidência entre os suicidas era de urbanos, que moravam sozinhos e não tinham filhos.
Constatou-se, também, que em períodos de incerteza econômica as taxas de suicídio disparam. Entre os profissionais, os da segurança pública e os da área de saúde, seguidos pelos da educação, são os mais afetados... Quanto à faixa etária, os jovens, como Joel, são apontados como os praticantes do chamado “suicídio impensado”, mas a maior concentração está entre os que vivem na meia idade, entre 50 e 60 anos.
Contudo, o maior mistério continua sendo entender como se processa a mente do que está na iminência de extirpar a própria vida. Acredito que, para o suicida, o ato de se matar não é visto como um fim. O suicídio é enxergado, por seu autor, como a única forma possível de resolver a desordem que assola sua existência conturbada. É um descanso dos conflitos que inquietam e fadigam seu ser... É quando o pavio não tem mais o que queimar e aí só resta a explosão.
Apesar de o suicido ser prática antiga, que o lembre Antígona, de Sófocles, ultima parte da trilogia tebana, não podemos negar que o frouxo laço moral e afetivo que tem atado nossa sociedade e, sobretudo, nossa unidade social celular – a família – constitui palco exemplar e propenso para que muitas tragédias como o de Joel tornem a ocorrer, deixando-nos perplexos.
Desatenção, falta de diálogo, acomodação com a rotina e baixo grau de percepção do outro são ações que nos deixam insensíveis aos possíveis problemas que podem estar se passando com o nosso próximo. Sejamos mais humanos e mais atentos. Pode haver uma bomba em nossa casa, em nossa vizinhança, prestes a explodir. Antes que ocorra, tentemos, ao menos, apagar o pavio.
Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:
oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/01/29/novo-enem-mesa-das-apostas-915737494.asp
Olá, pensadores!
Começaram sexta-feria, dia 29, as etapas de seleção dos estudantes para cerca de 50 universidades públicas que aderiram ao sistema de preenchimento de vagas via Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
O negócio é como um jogo de pôquer. Diante da nota obtida no exame, o aluno, como um jogador astuto, escolherá em quais cursos e instituições poderá participar do páreo. São quase 50 mil vagas que serão disputadas pela "sorte" e autoestima.
Digo autoestima porque, vejamos, um aluno que tenha obtido uma nota mediana precisará acreditar que essa nota é boa o suficiente para disputar uma vaga num curso de medicina, por exemplo. Se ele não confiar, não entrará na disputa. Digo sorte porque alunos com notas não tão boas, ante a ausência de autoestima de alguns com notas melhores, poderão simplesmente herdar vagas que, num sistema normal de seleção, jamais seriam suas.
Outro complicador, nesse novo processo seletivo unificado, é que, sem que haja um domicílio estudantil, muitos estudantes - das regiões norte e nordeste, por exemplo, onde o ensino é comprovadamente mais deficiente - verão as vagas mais cobiçadas sendo ocupadas por alunos de outros estados que, certamente, correrão para as "mesas" onde têm mais chance. Quem tiver a melhor mão, que leve o pote.
Apesar de, em teoria, esse processo de seleção unificado ser um avanço, temo que sua prática acentue as diferenças regionais no tocante à qualidade de ensino e oportunidades. Ao "unificar" o processo de seleção, sem "padronizar" o nível de ensino, queremos que "Davis" compitam com "Golias"...
Um dos grandes problemas das políticas, em geral, no Brasil é que elas são formuladas em cima de erros. É o caso das cotas raciais, sociais ou desse processo unificado. Se antes delas viessem verdadeiras unificação e moralização do ensino fundamental e médio, com escolas públicas oferecendo condições reais de educação e ensino, não tenho dúvida de que o processo de seleção unificado seria um facilitador.
Aliás, se houvesse uma base realmente forte e estruturada de ensino, não teria que haver processo unificado, porque, em cada lugar, poder-se-iam achar bons apostadores com notas dignas de ingresso em qualquer curso ou instituição.
Eu já falei, há algum tempo, disso antes. Relembrem:
www.cadaminuto.com.br/noticia/2009/05/14/novo-enem-um-poquer-universitario
Olá, pensadores!
Recentemente, por ocasião do lançamento de meu livro, fui entrevistado pela Rádio Novo Nordeste AM, de Arapiraca, no programa do amigo e radialista Ângelo Farias. Num bate-papo descontraído, o comunicador me perguntou sobre a obra, sobre as dificuldades de se escrever e sobre minha emoção em ter feito um relato neutro sobre a Polícia Militar de Alagoas.
Eu respondi a todas as perguntas com a segurança de quem conhece a obra... Pertinho de acabar o diálogo, o astuto e perspicaz radialista me aplicou uma das maiores saias justas da minha vida: do nada, dirigiu a mim a enquete que estava no ar, em seu programa vespertino: “Pinto de Luna vai abrir mão de sua candidatura em razão de outros políticos conhecidos em Alagoas?”
Estávamos no ar e eu não tive tempo para digressões filosóficas. A resposta tinha que ser instantânea: sim ou não. Confesso que, na hora, apesar de estar calçado, senti as solas dos pés gelarem, como se em contato direto com um solo de mármore. O estômago embrulhou e, no intervalo de tempo entre pergunta e resposta (que deve ter durado uns três segundos, mas pareceu uma eternidade), diversas lembranças zapearam em minha cachola.
Ciente do que eu deveria responder, abri a boca e ouvi minha voz dizendo o que eu mesmo gostaria de ouvir. Eu disse: “Não, ele não vai desistir”. Para mim mesmo e para todos os arapiraquenses que ouviam o prestigiado “Show da Cidade”, eu deixei que meu coração revelasse o que nele se passa.
Embora já tenha demonstrado, aqui no Balaio, a minha descrença no atual sistema político-partidário, manter-se inerte, vendo as mesmas velhas raposas lambuzarem-se com a devassa da coisa pública não faz meu gênero. Pinto de Luna pode até nos decepcionar, mas temos 50% de chance que ele não o faça... Os que aí estão já nos decepcionaram 200 ou 300%...
Apesar de ainda conhecer muito pouco o pré-candidato, quero acreditar que sua coragem não seja apenas fogo de palha ou enganação ao povo sofrido – e já muito tapeado – de Alagoas. Em mim, há crença de que, se não ele não for um guerreiro contra os ‘taturanas’ do Senado, ao menos, Pinto não será um deles... Estarei errado?
Pinto de Luna compareceu ao lançamento do meu livro. Apertando sua mão, na escrivaninha de autógrafos, eu lhe disse o que tenho ouvido de muita gente: “Alagoas espera muito de você!”. Aqui no Balaio, num dos meus últimos textos, eu disse que a maré está muito calma e que o tsunami não demora, breve chega. As raposas já se articulam e prova disso é que Ronaldo Lessa já se decidiu pelo governo. E para o Senado, como será?
Espero que, antes de tomar qualquer decisão sobre sua candidatura e, muito mais, se eleito Senador, sobre os destinos do nosso Estado, Luna pense na mudança que nós, alagoanos, esperamos pintar, por essas bandas, nos próximos anos, com o próximo pleito eleitoral. Porque, meu caro Pinto, definitivamente, não queremos trocar seis por meia dúzia.
E você, o que acha? Ele sai ou não sai candidato?
Olá, pensadores!
No próximo dia 25 de janeiro, segunda-feira, estarei lançando meu primeiro livro, que tem o título “Briosa: a história da Polícia Militar de Alagoas no olhar de um jornalista”.
“Briosa” é um livro-reportagem que conta a saga da maior corporação militar do estado de Alagoas de uma forma linear e cronológica, fazendo links imprescindíveis com a história Mundial, do Brasil e, claro, de Alagoas. Conta a saga da PMAL, suas glórias e escândalos, e é um relato honesto sobre a maior corporação militar de Alagoas.
A idéia de escrever um livro surgiu no último ano do curso de jornalismo, em 2007. Na época, eu trabalhava na Assessoria de Comunicação da PMAL e, frequentemente, chegavam historiadores, pesquisadores, escolas e alunos em busca do histórico da Corporação. Como não havia nada escrito, decidi buscar nos arquivos públicos, privados, nas mentes dos integrantes mais antigos e nos recortes de jornais, essa história.
Reforçando, o evento de lançamento do livro vai ocorrer no dia 25 de janeiro, às 19h, no Shopping Pátio Maceió, em frente à Loja Marisa, na Via Expressa. Nesse mesmo local, entre os dias 25 e 30 desse mês funcionará uma exposição da PMAL, em comemoração ao seu 178º aniversário. Após o lançamento, o livro estará à disposição, também, na Nossa Livraria, em Maceió, e na Sua Livraria, em Arapiraca. Estão todos convidados!
Vejam o vídeo de lançamento do livro:
Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo:
oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/01/14/haiti-os-homens-maus-de-la-de-ca-915524965.asp
Olá, pensadores!
Muito mais que ação indomada das forças da natureza, o Haiti sangra, hoje, uma dor de séculos de desgoverno, desrespeito à população e de ditaduras e golpes de Estado que impediram o país de manter o título que alcançou, no início do século XVIII, de a “Colônia mais próspera do Novo Mundo”.
De terra extremamente fértil e habitada por gente dada à agricultura, o Haiti destacou-se na produção de banana, manga, milho, batata-doce, legumes e tubérculos. Mas, seu principal produto era – e continua sendo – o açúcar. Foi esse açúcar que, com o das Antilhas, desbancou o brasileiro no mercado europeu, alguns séculos atrás.
Uma terra fértil, onde, a exemplo do Brasil, “em se plantando, tudo dá”. Entretanto, a semente jogada nesses séculos de colonização e independência do Haiti, com as ditaduras de Papa Doc e Baby Doc, com as constantes violências aos direitos humanos provocadas pelos golpes militares de Estado e guerrilhas intermináveis, e pela constante subjugação da população à extrema miséria e falta de educação, gerou frutos amargos, apodrecidos com essa catástrofe.
Não podemos culpar somente a natureza. Quantas vezes o Japão foi destruído por terremotos e, como fênix, ressurgiu cada vez mais forte, imponente, potencial? O que há de diferente entre a catástrofe natural no Oriente e no Haiti? O que falta aos haitianos? O que sobra nos japoneses? A verdade é que o Haiti sempre esteve entregue a homens maus, que nunca se importaram, de verdade, com sua nação e seu povo.
O Haiti, com sua impressionante e comovente taxa de mais de 80% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, já se arrastava moribundo, gritando dores de morte. O terremoto de há pouco apenas catalisou, para muitos, o último suspiro. O Haiti já perecia, falecia, sucumbia... Agora, entra em profundo coma. E só assim o Mundo voltar a olhar para os haitianos. Esperamos um desastre agravar a situação dos que sofrem para movimentar o mundo pela fome e desamparo daqueles caribenhos.
Brasil e Haiti são pátrias irmãs. Terras de mares, de solos férteis, de povo alegre, musical e festeiro. Terras de má divisão de renda, de parcelas consideráveis da população vivendo em estado de miséria, nas favelas das grandes cidades ou na sede do extenso sertão. Quase todos sem cultura, sem educação... Em algumas partes do Brasil, como diz o poeta, “o Haiti é aqui”. Temos um Haiti nosso. E também temos homens maus.
Será que o Brasil vai esperar que algum desastre natural sobrevenha aos brasileiros do “nosso Haiti” para que possa tirá-los da miséria? Será que já não ocorre isso toda vez que as chuvas desabrigam milhares de pessoas, destroem casas e o pouco patrimônio que trabalhadores amealharam durante toda a sua vida? Será que não se comovem com o sofrimento das crianças e famílias que morrem sem água e sem comida no sertão nordestino? Que falecem nas ruas e semáforos, em busca de moedas? Tem de haver um terremoto aqui também?
É hora de pensarmos no Haiti, como sempre foi. Respeitamos sua dor e lamentamos por, há tanto tempo, estarem infligidos a ela. Esperamos que o esforço mundial possa curá-la. Mas é hora também de vermos que, como nenhum outro povo do mundo, somos muito parecidos com os haitianos e, ao longo do tempo, temos plantado e regado as mesmas árvores de desigualdade de sabor amargo que hoje o Haiti prova e regurgita.
Silvio Teles é jornalista, formado pela UFAL; é oficial da PM de Alagoas, graduado pela Academia de PM daquela Corporação; e é especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública, pelo convênio Ministério da Justiça/FAL. Atualmente, estuda Direito. Já escreveu opinião para os mais importantes jornais impressos de Alagoas e contribui, periodicamente, com a editoria de opinião do portal O Globo.