Conto de maio
Goretti Brandão
Abri a porta e o homem sentado por trás do birô da sala, me olhou como se eu não existisse. Menos mal. Também olhei para ele, enviesada. Um dia incomum o de hoje. Pela manhã Erílio me ligou, e sem rodeios foi logo me contando, que havia perdido a carteira com documentos, cartões de crédito e dinheiro. “Assim? Do nada? Assim, ele achou que caiu do bolso enquanto andava de motocicleta. Ai meu Deus, pensei comigo mesma: será que não posso estar em paz? Pena de Erílio, o coitado sem dinheiro, e sem ter pra onde correr, nem com quem contar. Resolvi sair ligando para os irmãos dele: ‘Olhe minha gente, Erílio perdeu quinhentos reais. O que se pode fazer por ele?’ Ninguém se prontificou com nada.
Passei o restante do dia me sentindo mal. Vontade de chorar. Tinha que fazer uma viagem pra Maceió, dia seguinte, e ia levar aquela preocupação comigo. A felicidade é que Alvinho é diligente. Foi ao Banco quase na mesma hora que contei a ele, e colocou uma parte do dinheiro na conta de Erílio. Ninguém mais teve atitude. Só Alvinho. À noite uma raiva medonha me acordou umas duas vezes, ainda. Será possível que não vem mais nenhuma ajuda pra Erílio? Pode uma coisa dessas?. Fiquei virando de um lado a outro na cama. Era uma frustração de não poder resolver o problema de uma vez por todas. Ainda faltava dinheiro pra ele cobrir as despesas do mês. Julgava aquilo uma falta de sorte e me angustiava. Chorei para me aliviar.
Culpar a quem? Tinha sido falta de atenção dele. Como se coloca uma carteira no bolso detrás da calça? Mas eu não admitia, de jeito nenhum, que a culpa fosse de Erílio, não. Ele nem sabia mesmo onde tinha colocado... Aí eu ficava procurando justificar o descuido dele, construindo e amenizando hipóteses. Tanta complicação e aí, a distração em guardar o dinheiro em canto certo. Escapou-lhe a segurança do bolso da frente. Distração, falta de sorte.
Na capital, quase não chego a casa. O trânsito lento, e piorando cada vez mais. Meu dia foi uma peste. Para completar, quando falo, peste, me vem o receio de estar ficando descontrolada por besteira. Será?. Uma palavra dessas, eu dizendo, assim, com essa raiva toda, expõe certo descontrole emocional, talvez. Será que estou saindo dos trilhos? Misericórdia.
Entretido com o seu ofício de remexer papéis e atender a três celulares, quase de uma vez só, o homem, quando entrei no cartório, olhou pra mim de favor. A sala estava cheia de gente. Uma mulher, funcionária, de meia-idade, loura tingida, me mandou entrar e sentar, justo em frente ao birô dele. Eu pensava, sem conseguir me desculpar, o porquê de ter negligenciado das autenticações daqueles documentos. Mas em pouco tempo estava distraída. Lembrei de Ciça, ontem, me pedindo, sem saber ler, para eu localizar no celular dela quem tinha ligado por último. A filha dela tinha escrito o nome da mulher: ‘Dasvigem’, pode?. E eu, prontamente, informei a Ciça: Foi Dasvigem, quer que eu retorne? Ela quis. Retornei a ligação e depois saí da sala. Fui rir baixinho da grafia da palavra.
A história da botija foi Tonho de Tereza que contou a mim e a Aprígio, lá em Lagoa Grande. Ele embaixo medindo no olho, o peso da arroba dos bois, Aprígio e eu em cima da passarela do curral. Eu segurando seringa, e ele interessado em medir quantidade certa de vermífugo, vitamina e vacina, pra aplicar no gado, se fazendo de distante à conversa, e até tendo raiva de mim, esclarecida, andar perdendo tempo ouvindo caso de matuto ignorante. Mas eu quero ser matuta e quero ser ingênua, Aprígio! Admiro a ingenuidade de Tonho. Vai que isso traduz a passagem da Bíblia, que diz que a gente tem que se tornar criança, para entrar no Reino de Deus?
‘Foi assim: Seu ‘Atacílio’, um véio que morava pr’acolá, chegou perto de mim e me disse tudo direitinho: Tá no quarto que seus menino dorme. Embaixo da cama do mais novo, perto da parede. Tire o tijolo que tá solto e cave dois ‘parmo’. Arrepiei e senti um prazer infantil, de querer que aquela história fosse contada de noite, em dia de chuva, no alpendre da casa de taipa de Tereza, mãe dele, ouvindo o canto de uma coruja agourenta e os barulhos vindos da escuridão do mato. Tudo só pra aumentar o meu medo. ‘Foi mesmo, Tonho? Por Nossa Senhora, foi como eu contei! Ainda tem muita alma sem descanso, andando pelo mundo, dona Rosa!’
Em que mundo? Nesse, de computadores, antenas parabólicas, TV digital, redes sociais, a motocicleta, que todo matuto da Lagoa Grande e redondeza, tem uma, ainda se desenterram botijas? Será que Tonho está mentindo? Ciça quando mente, eu sei. Ela se engasga com nada, engole a saliva e me responde a pergunta com um: Hein?.Que é para ganhar tempo de inventar resposta. Pensa que eu sou besta. Aprígio não, esse tem certeza de que sou besta mesmo, mas nem ligo.
Doze reais, senhora. Paguei.
Sai de lá e ganhei a Rua do Comércio, com a papelada cheia de carimbos e selos, impressionada com a grossura da corrente no pescoço, e com o tamanho dos dois anéis de ouro, imponentes, enfeitando os dedos do homem. Só pode! Cobrando o que cobra só pra carimbar e colar selo em papel! Dinheiro fácil assim, só ganhando uma botija. Mas nem bem tinha dobrado a esquina, me acovardei do pensamento e me arrependi de tê-lo pensado. Mas quem manda em pensamento? Ele vem assim... Caminhei até a Catedral pedindo perdão a Deus pelo mau juízo. Não é Ele, tão misericordioso quem me tolhe, mas o catecismo, que não admite que eu confesse, nem pra mim mesma, minhas maledicências.
Asseguro-me de que tenho o direito de revelar que sou falha, mas não me convenço que posso, senão, depois de ler uma porção de papéis que trazem mensagem cristã que recebo na rua, eu os rasgaria e os jogaria fora. Mas guardo tudo com medo de ofender a Deus. Tenho receio em perder a salvação e o céu, praticando impropérios contra a doutrina cristã, e depois ser alma penada. Pra mim seria uma peste mesmo. Isso sim, uma peste, morrer sem ter canto pra ficar. E se tem uma coisa que eu quero mesmo, é descansar nos jardins do Paraíso. Eu, amiga íntima do coração do Altíssimo.
A tela em branco é a condição desafiadora da criação artística. Bem diante dos seus olhos, o artista sente o ímpeto de trazer para fora de si, algo que quer sair. Às vezes esse sentimento aparece como forma de inquietação, outras vezes, como uma vertiginosa alegria, que rompe a casca imaginária do momento que reclama luz e nascimento. O carvão entre os dedos, o primeiro risco que prenuncia o desenho sobre o propósito do branco como expressão do nada posto.
Os traços seguintes surgem como um novelo de linhas feito da junção de pontos seguidos. E o artista, como Ariadne de Teseu, vai soltando de suas mãos, o fio que arrebenta o vazio da tela e que evidenciando saídas para o seu coração, aponta caminhos para outros labirintos. A sua alma, novelo feliz que se desenovela, desenha em rabiscos, emoções que une e aparta fios sobre o suporte.
Palavras românticas as minhas. Mas procuro com elas estabelecer qualquer premissa que seja à produção de arte. Um pressuposto para situar a matéria prima, e que se imagine necessária, para que alguém se lance à aventura de construir e expor visualmente, um universo interior feito dos seus próprios ruídos - e que estes, sejam belos, feios, apocalípticos, esperançosos, cinzentos, alegres ou não -, que nele habitam.
Ter obras de arte, sempre foi privilégio dos nobres, desde séculos passados. A liberdade de criação artística ganhou novos rumos com o surgimento da burguesia. Refiro-me aqui às cores, aos temas, onde o artista pode, finalmente, pintar o que sentia, sendo o senhor em parte, dos seus próprios olhares. Temas dramáticos e sentimentais foram inspirados a partir da literatura e da história. Os conteúdos artísticos foram buscados, através de efeitos de emoção pessoais. Surge daí novas formas de expressão artística.
Hoje, é difícil delimitar linhas que separem ou conceituem o que é belo ou feio, agradável ou não, em uma obra de arte, mas elas estão por aí. Mesmo quando os referenciais são cada vez mais abolidos. Mais fácil, porém, é buscar entender o que está em voga, como representação do belo, do sofisticado, do atual, para se chegar à conclusão de que a arte atual passou a ser uma peça de decoração a mais, capaz de valer, não pelo próprio valor em si, mas pela representação que lhe é dada. O objetivo? Vender algo para agregação de valor pessoal, a quem puder tê-la.
Salvo os grandes painéis do grafite, expressão artística que considero inclusiva e que burla conceitos e estabelece um diálogo visual e reflexivo, com a população. Isso até enquanto esse canal não for alvo da apropriação por parte do mercado, como fonte de lucro, e passar a ser como tudo, enquadrado nos falsos valores de arte, como produto ou destinado a vender produtos de consumo. Quem disse que os artistas estão livres das conceituações do que é bom e belo? Ilusão de quem assim pensa.
Ao levantar a questão, pareço estar sendo contraditória. Mas isso apenas mostra o paradoxo dos conceitos de arte, da livre expressão artística, das linhas que são colocados e que ‘separam’ o que é considerado como tal ou não. Cada grupo de influência dentro dos espaços onde arte plástica veicula, determina o que é arte e até quem é artista. Pelo menos aqui em Alagoas. Se por um lado há muita boçalidade por parte de alguns, há uma completa falta de bom senso por parte de outros.
Enquanto uns escolhem como arte e artista, pessoas e trabalhos, movidos por questões e conceitos muitas vezes tradicionalistas e conservadores, há os que saem elogiando tudo o que parece diferente. É sempre aquela mania perigosa de louvar aquilo que vem com o selo de novo. Os paradigmas estão aí para serem quebrados. Se a arte não serve aos artistas nem à sociedade como local de canalização para as diversificadas formas de ver e sentir o mundo, a sua função sócio-cultural está morta. O seu sentido está perdido.
Defender que os artistas nascem artistas, pode ser considerado pretensão, num contexto onde se acredita que as técnicas podem transformar o homem naquilo que ele quer ser. Todo mundo pode ser tudo. Todo mundo pode fazer um traço vermelho que atravessa uma tela de um lado a outro, e um crítico de arte, que se diz apreciador do novo, pode gastar uma página inteira, numa revista nacionalmente conhecida, descrevendo o que aquele traço significa.
De uma hora para outra, um ‘artista’ é construído, e todo mundo corre atrás para adquirir um trabalho seu, para ser valorizado e figurar como chique, moderno, como consumidor de arte. Uma arte que tem data para prescrever. Essa pergunta me incomoda: Vivemos o fim da arte? Porque a aparência daquilo que pode vir a ser, passou a ser a própria coisa, quando ainda não é. Qualquer pessoa é capaz de criar. Isso nos identifica como humanos.
É a nossa característica de ser pensante: o homem produz cultura e história. Mas convenhamos que nem toda criação é artística. E o sentido de duração e registro histórico de uma obra de arte, hoje, adquiriu a condição atroz de descartável. Há muita mediocridade exposta nos salões de arte. Como eu conceituo arte e artista? Pelo bom senso, pela lógica, pelo sentido. O fio condutor de Ariadne, eu o sinto envolto em minha cintura, desenovelando o interior da minha alma.
Não sei como, mas artista para mim é aquele que, diante do seu trabalho, posso resgatar o coração e encontrar a saída do meu próprio labirinto. O sentimento que uma verdadeira obra de arte propõe não é descartável!
À minha mãe, o santo anjo que me guarda
Goretti Brandão
Ensaiei, exaustivamente, um longo monólogo com a ajuda da minha avó. Ia apresentar uma peça no palco do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante. Chegada a hora, subi as escadas e adentrei no cenário. Simples; ali estavam uma poltrona, uma mesinha ao lado e sobre ela um telefone de plástico. Cortinas fechadas, sentei em silêncio e percorri a memória lembrando as falas. A um sinal da minha professora, as cortinas se abriram e eu vi diante de mim, um auditório repleto de pessoas. Lá estavam praticamente todas as mães de alunos da escola municipal.
Entretanto a minha mãe não se encontrava ali, mas trabalhando em uma cidade na região do brejo paraibano. Naquele dia estávamos comemorando o Dia das Mães. Eu tinha dez anos. Minha avó, presente em uma das primeiras filas, assinalava com um olhar firme, mas doce, a minha própria presença. Ela tinha o dom de emanar uma força extraordinária, que me movia para as coisas e os acontecimentos. Afinávamos em tão grande harmonia, que metaforicamente, a vida era um rio, ela o barco e eu, a navegante de uma feliz viagem.
O monólogo onde eu 'fingia' dialogar com a minha mãe ausente, surtiu um efeito emocional maravilhoso na plateia, porque por trás do cenário da atuação, havia a verdadeira ausência dela, detalhe que era do conhecimento de todos. Em cidade pequena todos se conhecem e as suas histórias. A comoção tomou conta das 'mães alheias' e de repente as lágrimas tomaram conta do lugar. Caprichei ainda mais na performance, vaidosa do meu desempenho em cena. Em meio aos aplausos, procurei a aprovação nos olhos da minha avó que acenou positivamente com a cabeça. Só depois é que eu chorei. Chorei com pena das mães que choravam com pena de mim.
Estranhamente fui tomada por uma sensação de compartilhamento de emoções. Eu havia entrado, pela primeira vez, em contato com um arquétipo poderoso: a imagem idealizada da Mãe, que norteia todo mundo, praticamente. Uma criatura que hoje em dia quase não corresponde mais àquela de algumas décadas atrás. Nesse instante, penso nas mães que deixam seus filhos dentro dos carros, no calor dos estacionamentos dos shoppings e vão fazer compras. Nas mães que não se preocupam em dar uma alimentação saudável aos filhos, das que sacrificam o sono, a tranquilidade, o bem estar das crianças, mesmo pequeninas, para não sacrificarem seus prazeres, das que não acompanham o andamento delas na escola, nas que molham as chupetas dos filhos em bebidas alcoólicas, como já presenciei.
Naquele Dia das Mães, mesmo de longe, eu sentia a minha mãe bem próxima. Dentro e nos arredores de mim. E a sua ausência foi transformada em presença, através das lágrimas das tantas mães ali na plateia. Era como se eu recebesse uma resposta de amor, de troca à distância dela que a mim sequer ameaçava. Eu me sabia amada. Cresci. Fui mãe e aprendi a abrir mão de um ideal padrão de mãe perfeita. Tenho minhas falhas e a minha mãe, e as outras mães, também. Às vezes uma pérola, outras, uma ostra, Ora alegre, ora irritada, boa, inteligente, religiosa, com terço na mão, rezando o rosário apressado de Nossa Senhora para alcançar uma Graça, minha mãe, devota do Menino Jesus de Praga, às vezes questiona injustiças e se revolta, e depois volta à fé, serenada pela própria fé. Eu quero e quero sempre a minha mãe. Essa que eu tenho. Não o fruto de uma idealização. Quero ter a minha mãe, imperfeita, mas tão capaz de exercitar responsavelmente as maneiras de cuidar, proteger e amar, porque tem sentimento. Tem humanidade.
De uns tempos para cá, observo com tristeza, que a realidade tem mudado. É outra. Mãe, está se tornando apenas, uma palavra esgarçada, puída. Um espectro que não veste mais a imagem de um ser que dá refúgio, segurança, conforto e amor. O lugar da Mãe, esse figura arquetípica, está se tornando uma condição esvaziada, pelo imediatismo da aceleração de um tempo, que aprofunda o despropósito da afetividade humana. Os filhos desta e das próximas gerações, dificilmente sobreviverão aos afogamentos nos rios da vida, porque seus barcos já começam a faltar. Serão náufragos da ausência dos sentimentos maternos.
Aproveitando a comemoração do dia das mães, essa criação do calendário comercial, acho que deveremos presentear nossos filhos, com o carinho, a atenção, o olhar aprovador, e a alegria; essas forças extraordinárias as quais temos o dom de emanar. Sejamos o barco, para que eles possam navegar a viagem da vida, na experiência feliz de serem amados.
Festa e protesto dos produtores rurais do semiárido alagoano
Goretti Brandão
Estive no Piau, povoado que pertence a cidade de Piranhas, para acompanhar os festejos do Dia do Trabalhador. Um dos eventos aconteceu no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde sertanejos - com dívidas rurais -, discutiram quais medidas serão tomadas para chamarem a atenção do governo, de modo que este se posicione em favor dos agricultores. A alta e abusiva taxa de juros aplicada pelos Bancos tem dado muita dor de cabeça aos pequenos e médios produtores rurais.
O homem do campo está vendendo parte de suas propriedades, que vêm sendo executadas, para saldar seus débitos, e que como se não bastasse, ao fazê-lo, ainda continua devendo. Situação insustentável e que mostra o quanto os devedores vêm sofrendo com essas penalidades injustas. O valor cobrado pelos Bancos aumenta de forma exorbitante. Desse modo fica impossível para o agricultor se livrar das dívidas rurais.
Foi no sindicato, um modesto salão onde cabem cem pessoas sentadas, que tive a oportunidade de conhecer uma mulher simples, mas especial. Alegre, Maria Francisca da Silva Alcântara é uma daquelas militantes, cuja atividade dentro do sindicato, onde representa as mulheres trabalhadoras do campo, além de questões comuns a homens e mulheres agricultores, está centrada em questões específicas femininas: salário maternidade, saúde, o problema da violência contra a mulher, moradia.
Saber o que mulheres como Francisca pensam, e como enfrentam a vida, é uma oportunidade que não se pode perder. Numa conversa de pouco mais de meia hora, pude perceber as preocupações de uma trabalhadora do campo. Preocupações que vão desde a evasão das famílias para a cidade, até a permanência e moradia dessas pessoas, que ao saírem da zona rural em busca de uma vida melhor, terminam morando miseravelmente em favelas. A sempre questão pertinente, e que é um acontecimento constante. “Lugar de agricultores é no campo”, diz ela.
Depois sai pontuando quase de um fôlego só, inúmeros problemas que dificultam a vida da mulher do campo. Segundo Francisca, o Conselho Municipal de Saúde é devagar. Com esse adjetivo ela evoca a situação de várias agricultoras que se encontram vítimas de doenças graves, e como exemplo do estado precário de saúde, ela fala sobre mulheres dos povoados que ficam na região de Piranhas, que precisaram remover cânceres e que por não puderem permanecer na capital, são obrigadas a voltar para casa antes do tempo.
A cada retorno para tratamento, as pacientes precisam ter dinheiro para os gastos com viagem, estadia e não tem possibilidade para isso. Muitas dessas mulheres acabam deixando, ainda segundo Francisca, de continuar o tratamento. Também, sobre o medo que as mulheres têm de denunciar a violência que vêm sofrendo, foi um dos assuntos abordados por ela.
Enquanto escutava aquela mulher, destemida, falante, cumprindo o seu papel de representante das mulheres, e principalmente das pobres mulheres do campo, que enumerava em quase caráter de denúncia, a situação por qual elas passam, lembrei de um poema que se chama Resumo, da escritora mineira Adélia Prado, onde ela coloca em poucas palavras, a situação de uma mulher que tem câncer e espera a morte, resignada.
A fibra de Maria Francisca, mulher simples e de pouco estudo, sem poder, sem comando, sem cargo público, mas com uma consciência feminina e de coletividade, foi o que, naquele e nos momentos seguintes, mais me orgulharam em ser mulher. Assim como a desesperança dessas mulheres doentes, é o que mais doeu e dói, até agora em mim.
Novamente retorno à Adélia Prado, que em outro poema seu: Ensinamento, sabiamente fala: “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento”. Essas palavras caem bem para mulheres como Francisca.
Não haverá vitoriosos nessa guerra
Ocupar cargos que antes pertenciam somente aos homens, ter independência financeira, liberdade sexual, essas coisas são estandartes erguidos desde algumas décadas e se configuram na qualidade de símbolos à pretensa liberdade e igualdade entre os sexos. Está claro que o mundo mudou. É verdade, mas é preciso que se perceba o que realmente as mulheres, nós, estamos vivenciando de fato. Qual a realidade do nosso sexo, o antes frágil? Somos realmente livres e emancipadas? Somos donas da nossa própria vida, como muitas pensam? Estamos felizes e à vontade no mundo?
Sempre que vejo notícias sobre seqüestros de mulheres, violência familiar e crimes passionais eu me pergunto, sobre a ostensiva propaganda da liberdade, igualdade e emancipação feminina, tão presente em nossos dias e que é refletida no comportamento atual das mulheres, jovens e maduras. Quando menina ouvia em minha casa e na casa das minhas amigas, a máxima, repetida como mantra pelas nossas mães: “O bom marido para uma mulher é um bom emprego”. Talvez essa frase simplista fosse consequência dos ecos do movimento feminista da década de 60, do século 20.
A gente era estimulada a desacreditar que uma relação amorosa, um casamento, valesse a pena tanto quanto um emprego. Ter independência financeira significava ser livre do controle do marido. Os afetos eram convidados a ocuparem o segundo plano na vida das mulheres. No fundo, trazia-se à tona a questão da dependência financeira da mulher, como um dos elementos, talvez o principal, que a mantinha em um relacionamento ruim. O sexo frágil não tinha como se haver, sozinho, com as despesas das crianças na escola, com alimentação, vestuário, e por isso as mulheres ficavam presas. Embora muitas delas, àquela época, pudessem provar o contrário.
A minha avó criou, sozinha, a minha mãe, costurando, entregando talão de luz e água de porta em porta, sendo bilheteira de cinema. Mas a máxima era generalizada. Mulher tinha que ter direitos iguais aos homens. Claro que não é justo que estejamos um degrau, e olhe lá, abaixo do sexo masculino. O mito do sexo frágil nos condena a uma posição subalterna e preconceituosa mesmo. “Lugar de mulher é na cozinha” Tem coisa mais vergonhosa? Não as que mulheres, não possamos cozinhar, mas temos direito a ocupar todos os lugares da casa simbólica: o mundo e a vida. Mas, a ocupação de todos os lugares nos dias atuais, está sendo decente e digna?
Qual o lugar que reivindicamos para ocupar, e que tipo de igualdade com o sexo oposto a gente queria? Que conceito de liberdade as antigas máximas colocaram dentro da nossa cabeça? O que almejávamos possuir tendo por base os ‘direitos’ diga-se, questionáveis, que o homem tinha e continua tendo, dentro da sociedade? Apenas a liberdade sexual e o direito de sair de casa para trabalhar fora? Será que a liberdade que sonhávamos era tão restrita assim? E se fizemos uma grande confusão àquilo que a gente conceituou de ‘direito’ e ‘liberdade’, quando tais conceitos envolviam um olhar mais aprofundado sobre a aplicação unilateral de uma moral restrita apenas ao sexo feminino?
Fidelidade, por exemplo, figurava como uma virtude exigida às mulheres. Mas esquecemos que infidelidade não é bom para ninguém em uma relação. O problema não se resolve conquistando, as mulheres, o ‘direito’ de sermos todos, homens e mulheres, infiéis. Outro exemplo, que mostra como também não é direito conquistado, abrirmos mão do acompanhamento da educação das crianças, por entendermos que já que trabalhamos fora de casa, os homens têm o dever de nos ajudar. Quem está educando os nossos filhos?
Vestimos o modelo masculino errado e copiamos dele os lugares-comuns e os comportamentos equivocados de ‘direito’ e ‘liberdade’ Se olharmos para trás, veremos que abandonamos nossa condição psicológica e afetiva de feminilidade. Confundimo-nos, e continuamos a nos confundir. Se olharmos à frente, e se tivermos coragem, aceitaremos que erramos o caminho e que demos passos atrás na construção da estrada para a liberdade, para os direitos e emancipação da mulher.
Não há como negar que apesar dos espaços conquistados, mergulhamos cada vez mais, no desrespeito e na indignidade, e não conseguimos ser iguais, porque não enxergamos que o nosso problema é o de não entendermos que conquistamos falsas liberdades. Só na condição do Amor é que os egoísmos, as desigualdades, os narcisismos e os preconceitos, podem promover a igualdade entre os sexos.
Por enquanto, continuamos sendo vítimas de crimes passionais, que não podem ser chamados de crimes por amor. Eles revelam como as mulheres, somos vítimas da violência, somos ainda vistas por narcisistas, como objetos de suas posses. No final do século 20, uma pesquisa feita em São Paulo revelou que dez mulheres eram assassinadas por dia no Brasil. O que demonstra que termos ocupado lugares, cargos, empregos, ruas, bares e entre outras coisas, a vida sexual livre, igual aos homens, não conseguimos superar a desigualdade demonstrada pelo abuso de poder de um sexo sobre o outro.
A tão procurada liberdade e igualdade, só serão possíveis quando, entre outras questões, a gente puder se libertar da condição de mito, de objeto sedutor para o exercício do sexo. Essa liberdade acontecerá quando formos capazes de exercer com espontaneidade a nossa função feminina, quando trouxermos de volta à alegria e a beleza à vida, sem precisarmos usar nossos atributos como arma que despreze, abandone ou destrua o homem.
É bom refletirmos sobre isso:
“Afinal... as mulheres sabem o que querem?”
De quem partiu os boatos?
Li a pouco, que escolas em Satuba estão fechadas, e que 3 mil crianças estão sem aula. Motivo: um boato de que o que ocorreu em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, aconteceria nas instituições públicas de ensino da cidade.
Não é para menos. Não cansados com a espetacularização da notícia, que colabora com a banalização da vida, os meios de comunicação continuam divulgando tudo o que vão encontrando de novidades em torno da figura de Wellington Menezes de Oliveira.
O uso abusivo e irresponsável da imagem do rapaz, é um desserviço, porque ajuda a construir para as pessoas - em sua maioria, para os jovens -, a transformação da sua figura doentia, em uma outra: a de um quase herói, especulado em suas ações, em seus gestos, e em sua menta aturdida. Por que dar tanta ênfase em torno da imagem de alguém, que vítima de transtorno mental, praticou um ato que traumatiza e denuncia as mazelas escondidas sobre as sombras de uma sociedade inteira?
Somos convidados a prolongar, de maneira sádica, a desgraça alheia: A mídia segue instigando o acontecimento amargo às crianças que sobreviveram, e aos pais e familiares daquelas que se foram, mexendo repetidamente, em qualquer possível processo de cicatrização das feridas sofridas por essas pessoas.
Para isso ela trabalha com a fustigação da lembrança se utilizando do seu pior aspecto. As imagens que machucam a alma. Aquela que prende a memória dos que estão sofrendo nas malhas do tempo das suas dores.
É a ampliação exaustiva de um sofrimento de outrem, a qual somos envolvidos para além dos sentimentos de humanidade para com eles, e para conosco mesmo, quem sabe?. Porque se chegar a vez da nossa desgraça, os outros agirão conosco da mesma forma: como expectadores. Meros expectadores, doentes por notícia espetaculares, apenas.
O pior de tudo é que nos deixamos enganar e envolver pelas notícias espetacularizadas, e acabamos nos desviando da dor e do sentimento verdadeiros. A gente chora assistindo pela TV, vendo na internet, lendo nos jornais, a tragédia alheia. Mas à maioria isso acontece no nível da emoção imediata, instigada pelas imagens, dramatizadas na voz de belos repórteres.
A exemplo disso, veja-se a quantidade de pessoas que nunca chegaram próximo ao ex vice-presidente, José Alencar, e que choraram em seu velório, como se fossem amigos íntimos dele, movidos pela comoção coletiva e guiados por uma emoção vinda de uma imagem de pessoa boa, honesta, trabalhada pelos meios de comunicação? Não querendo com isso dizer o contrário a respeito dele. Como pessoa comum que sou, não tive a oportunidade de conhecê-lo. A gente se emociona. Uma emoção sem profundidade e tão imediata quanto a duração e o tipo de emoção conotada da imagem que se nos oferece e nos bombardeia.
A repetição da notícia e o abuso da informação contida de imagens e detalhes, acaba esvaziando a nossa emoção e transformando o impacto inicial em uma busca, para muitos, quase neurótica, acerca da continuação daquilo que não tem mais o que dar. É aí quando acontece a banalização do acontecimento e a evaporação daquilo que nunca foi dor, nem solidariedade para valer, àqueles que sofreram o dilema. Por outro lado, a mesma mídia coloca de pernas para o ar, qualquer possível conclusão saudável, a que possamos chegar sobre o caso. Começa a mitologizar o réu, mostrando fotos, cenas, vídeos, como se tais informações trouxessem benefícios à população. A avidez cada vez maior, pela supressão de carência, faz com que se criem esses mecanismos de busca de informação por parte das pessoas. Muitas vezes para que se possa se colocar no lugar dos que sofreram a tragédia e poderem dizer, aliviados: graças a Deus que não foi comigo!
Quanto aos boatos em Satuba, eles terão surgido de alguém que admira o ato de Wellington Menezes de Oliveira? Tais atitudes nos mostram o quanto estamos vivendo numa sociedade ávida de informação. Mais das vezes, de informação doentia, onde a espetacularização da realidade, onde cada signo é cada vez mais, um objeto em si mesmo. É por isso que precisamos constantemente de espetáculos. Como podemos continuar sendo humanos?
Blog de Cultura editado pela jornalista Goretti Brandão