Postado em 15/09/2011 às 10:36

Da escritora paulista, Luciane Trevejo, sobre a 2ª Festa Literária de Marechal Deodoro

De Carlito Lima que autoriza a postagem...

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Hoje não escrevo, dou um presente, li esse belo texto da escritora paulista, Luciane Trevejo, senti a obrigação de repassá-lo aos queridos leitores.

“Desejei que meus olhos tirassem fotografias, pois só eu, e ninguém mais, nenhuma lente conseguiu registrar todas as imagens e momentos e expressões que ficarão guardadas na memória. Desejei que meus ouvidos fossem gravadores, para poder voltar quantas vezes quisesse e ouvir cada palavra que consegui sorver daquele lugar.

Nenhum final de semana de compras, nenhuma viagem à Europa, nem mesmo um mega show internacional me impressionou e me acrescentou tanto. Eu tive uma semana de cultura, de carinho alagoano, baiano, carioca, pernambucano.

Eu vi o mar do Francês com olhos de saudades, mais amadurecidos pela vida. Eu vi Marechal Deodoro e seu povo acolhedor e multicolorido. Eu vi Alceu Valença, Luiz Berto, Jessier Quirino, Chico de Assis, Miriam Sales e não vou citar mais ninguém, pois esse texto ficaria gigante, já que ali, eu só vi pessoas grandiosas, como nunca tinha visto.

Eu vi um homem miudinho, de quase não sei quantos anos de idade, subindo ao palco com sua rabeca, esculpida em próprio punho, tocar seu instrumento tão magnificamente, que virei sua fã instantaneamente, e quando pedi apaixonadamente para tirar uma foto comigo, ele, todo feliz com a fila que se formava, disse baixinho: “Eu âââââmo vocês!” que se traduzindo na linguagem do sentimento, dizia: “Obrigado por gostarem de mim!”

Eu vi um homem de chapéu panamá, subir ao palco e com sua voz forte, sua postura de gigante e sua presença de palco, fazer com que eu vertesse rios de lágrimas ali, no meio de todo mundo, ao recitar alguns dos mais belos poemas que conheço. Sentei-me todas as noites com gente que falava sobre ideais, sobre literatura, livros e cultura e não sobre pessoas e vida alheia.

Eu conheci Simone e Sandra, e descobri que são minhas fãs tanto quanto sou fã delas. Vi casinhas com eira, vi casinhas com beira e entendi por que a minha, não tem eira nem beira. Vi mulheres tecendo renda, trançando fios por dias e dias e dias, para no final de uma semana, vendê-los quase de graça. É a trama da vida de cada uma delas, que seguem felizes com a simplicidade grandiosa de sua arte.

Eu entendi, finalmente, como se mede o tamanho de um homem e onde é que mora sua grandeza. Eu conheci pessoas verdadeiras e indiscutivelmente talentosas e anônimas. Conheci também talentos que a mim, eram anônimos. Eu presenciei um black out que me fez lembrar o quanto adoro as estrelas, mas o céu de Marechal Deodoro é mais bonito do que o céu do resto do mundo.

Eu conheci duas mulheres lindas, que se amam e tem uma parceria linda vida afora, cheias de tranquilidade, amor e carinho uma pela outra. Eu vi que meu mundo se ampliou, por que o modo como vejo a vida, é diferente da semana passada. Me sinto como uma pequena bexiga que inflou, e jamais conseguirá voltar ao tamanho original. Eu dei risada por me sentir alegre, eu gargalhei por achar graça, eu chorei por me emocionar.

Eu percebi que no mundo existem pessoas exacerbadamente grandiosas. Só não sabia seus endereços e nem elas, o meu. Enfim, nada que eu seja capaz de escrever por aqui, fará justiça aos momentos que me foram proporcionados e eu, princesa esperta que sou, soube aproveitar cada um deles. Eu conheci gente de todos os cantos, com culturas diferentes e conheci gente de um só lugar, e compreendi o Orgulho de Ser Nordestino.

Quando Deus foi jogar sobre a Terra as sementinhas das almas talentosas, triplicou a quantidade no nordeste, por receio das sementes não vingarem, por causa da terra seca, e deu nisso. Esse grãozinho de areia que vos escreve, através desta, quer agradecer a cada um, e especialmente a Carlito Lima, que entre todos, foi o maior responsável pelo sucesso da II Flimar.
Muito obrigada.”
 

Postado em 13/09/2011 às 10:55

Tirinha: Humana, demasiada humana...

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Goretti Brandão ... ilustrando

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Postado em 12/09/2011 às 19:37

Anadia: Por que resolver diferenças à bala?

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Goretti Brandão

Resolver diferenças apagando vidas, principalmente às de ordem política, acontece desde tempos imemoráveis, próximo até do que se pode chamar de expediente usual. Basta vermos os assassinatos épicos no Senado Romano e no antigo Egito, só para ilustração. A eliminação de oponentes parece ser o caminho mais rápido para quem deseja desobstruir caminhos, esconder falhas e manter-se, sem empecilhos, onde se acha de direito. A meu ver, atitudes e ações desta natureza, revelam da parte de quem as pratica, uma conduta absurdamente egocêntrica, sustentada pela falta de ética, moral e respeito por aqueles que, por divergências, venham a ameaçar seus privilégios ou intenções.

A maneira em como é escolhido o ‘afastamento’ do caminho para quem se torna uma preocupação ameaçadora para tais pessoas, é, sobretudo, covarde. Elimina-se alguém, que de algum modo, coloca aquele que se sente coagido, diante da possibilidade de ter que enfrentar as conseqüências de seus próprios atos. Há casos conhecidos, onde pessoas que contraem dívidas deixam de pagá-las e ao serem pressionadas, resolvem dar cabo do problema, eliminando o credor.

Estupros levam, na maioria das vezes, ao assassinato das vítimas por parte dos estupradores, como ‘solução’ para se esconderem e aos seus atos. Nesse sentido, todos os dispositivos utilizados têm os mesmo desfechos, fatais, sempre com o mesmo objetivo. Em todas as ações criminosas dessa natureza, a necessidade de calar outrem, para que alguém se livre de ter que encarar o que fez ou está fazendo de errado, é parte crucial do contexto.

Egocentrismo que reproduz o desejo infantilizado de recorrer à supressão daquilo que é incômodo, indesejável e que vai frustrar os meus intentos, além de revelar situações, onde a exposição aos outros, daquilo de que sou capaz é inevitável. Por isso priva-se o outro - que tem, direta ou indiretamente, a posse do que o coloca em situação de risco -, do direito à vida, na tentativa de ‘salvar-se’ a si mesmo.

As circunstâncias que envolvem o assassinato do vereador de Anadia, o médico Luiz Ferreira, soma mais um caso com essas características, onde as averiguações iniciais apontam para um crime de caráter político e, ao que parece, levantam suspeitas, a partir de denúncias, de irregularidades na administração da prefeita da cidade.

O protótipo do poder emana forças poderosas e irresistíveis. Disto, a gente pode sempre ter a certeza, ao assistirmos o que as pessoas são capazes de fazer para permanecerem girando em sua órbita.
 

Postado em 07/09/2011 às 08:15

"Libertas quae sera tamem"

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"Libertas quae sera tamem"

Foto Web

Goretti Brandão

D. Pedro voltava a São Paulo, regressando de Santos, quando o correio o alcançou. Três cartas lhe foram entregues: Uma de Portugal, outra da sua esposa, a princesa Dona Maria Leopoldina e um ofício de José Bonifácio: lia-se que a Coroa o havia rebaixado à condição de simples delegado das Cortes. A sua autoridade ficava limitada às províncias onde ela era reconhecida, além da exigência do seu retorno a Portugal. Isso ocorreu depois que o príncipe tomou algumas medidas, que já prenunciavam os ventos da independência da Colônia, influenciado pela Inglaterra que muito tiraria proveito da separação entre Brasil e Portugal.

Indignado, ele amassa as três cartas, pisoteia-as, joga-as ao chão, sobe em seu cavalo e segue em direção às margens do Ipiranga. Lá, arranca as insígnias com as cores da bandeira portuguesa do seu uniforme e sob o sol das 16h30, em uma pequena elevação que o coloca em destaque, saca a espada e brada: “Por meu sangue, por minha honra e por Deus, farei do Brasil um país livre! Para em seguida proclamar a famosa frase: “Independência ou Morte”

É o artista Pedro Américo (1843-1905) que seis anos após aquele acontecimento, em 1888, nos concede as imagens que imortalizam o momento, onde à presença e bem na frente do príncipe está a sua guarda de honra, enquanto do lado esquerdo da tela, alguns humildes camponeses o assistem. Sobre os cavalos da tropa está toda a força e vigor da cena. Eles dão a impressão de terem acabado de chegar ao local e que vieram correndo. Sinalizam para a emoção dos cavaleiros apressados em ouvir o que D. Pedro tem a proclamar.

Com isso o problema da independência política estava resolvido, mas, a ‘independência’ no âmbito geral, não aconteceu para todos. A classe representativa da elite fez a independência do Brasil, através do príncipe monarca, e tendo se apoderado do controle do governo, orientou uma política, em harmonia com interesses particulares, inclusive os de D. Pedro.

Hoje é dia de desfile. Em Maceió, a Avenida da Paz, em Jaraguá, será palco de inúmeras apresentações. O desfile cívico-militar, em frente ao memorial à República trará policiais, Corpo de Bombeiros, as Forças Armadas, alunos de escolas e a população que emocionada e envaidecida, mergulha no espetáculo e acaba esquecendo-se de pensar sobre que independência nós estamos comemorando.

Afora a bela expressão de civismo patriótico, compete à simulação, disfarçar a realidade.
Sob qual inspiração estaria D. Pedro, quando escreveu o Hino da Independência? “Brava gente brasileira! Longe vá... temor servil: Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil.”
Hoje, os mais significantes inimigos da Pátria, infelizmente, são brasileiros.
 

Postado em 26/08/2011 às 15:26

Mulher: um animalzinho de estimação?

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Goretti Brandão

O mosaico de opiniões e posicionamentos sobre o Projeto de Lei da autoria da deputada baiana, Luiza Maia, que tem como objetivo a proibição do financiamento público de coreografias e músicas que colaboram para denegrir o sexo feminino é tratado como polêmico. Por outro lado a sua preocupação com a imagem cada vez mais banalizada da mulher, que as letras de determinadas músicas divulgam, propicia a discussão a respeito do assunto. Isso é, no mínimo, um bom começo.

À notícia estampada vejo a opinião das pessoas, que ficam divididas entre concordarem ou não com a aplicação da lei, caso o projeto consiga passar pelas três comissões que o avaliarão. Alguns criticam a atitude da deputada, achando que há coisa melhor a se fazer no momento. Outros afirmam e em muitas ocasiões, até com certa razão, que as mulheres: “elas gostam de ser esculhambadas” e ainda, que: “(...) toca aí uma dessas músicas prá ver se não tem um monte de mulher que começa a rebolar até o chão (...)”. Não há como duvidar disso, visto que tal comentário evidencia os fatos que estamos presenciando, cada vez com mais freqüência e ‘naturalidade’.

Na maioria dos comentários, no entanto, as pessoas concordam que algo precisa ser feito, mediante a situação que expõe a mulher de maneira vexatória e com aviltamentos, como ser comparada a um animalzinho de estimação ou um peculiar objeto sexual. A polêmica que foi levantada sobre essa questão é complexa, como outras, e nos ajuda a perceber que abaixo dela, é evidente o que nem sempre é evidente para muitos, ou seja: trata-se de encadeamentos que avolumam uma situação de amplo espectro, envolvendo vários elementos, que estão sendo constantemente infiltrados, como se fossem genuínos dispositivos culturais, firmados sobre tendências comportamentais surgidas naturalmente pela vivência social.

A nossa ‘cultura’ musical é pobre e reflete a nossa pobreza de discernimento, que se confirma, quando manifestações através da aceitação por parte de um número cada vez maior de mulheres e homens, que sequer questionam o teor da sua mensagem, são bastante visíveis. A assimilação fácil e indiscriminada, em praticamente todos os níveis sociais, de músicas que levam à distorção à própria conduta femininal é um problema grave.

É verdade que há muita coisa e em muitos setores da sociedade a serem alvos de Projetos de Lei, por parte de qualquer deputado, mas a preocupação de Luiza Maia é louvável, embora eu não creia que para problemas como esse, uma lei apenas possa revertê-lo, mas pode sim, pelo menos, ampliar nosso interesse sobre ele e suscitar nossa capacidade de questioná-lo.

O seu posicionamento, em questões que envolvem um olhar sobre ‘produtos culturais’ indesejáveis e ameaçadores à condição social dos sujeitos, embora incipiente e digno de observações, deve ser entendido como uma prática política. E importante.
 

Postado em 22/08/2011 às 15:37

Hoje é o Dia do Folclore

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Hoje é o Dia do Folclore

Ilustração: Goretti Brandão

Goretti Brandão

Se há um folguedo que tenho verdadeira devoção é o Pastoril. Ainda menina, dancei anos a fio, na escola que estudei. Apaixonada pelo cordão azul, eu subia no palco do auditório, durante o encerramento do período escolar. Era o mês de dezembro. As diversas canções, que aprendi a cantá-las para acompanhar todas as jornadas, lembro-me delas e canto até hoje.

A primeira vez que participei de um pastoril eu nem estudava ainda. Saí de borboleta, com asas feitas de arame e revestidas com filó amarelo. Nem sei que idade tinha, mas lembro que éramos, eu e outra menina, duas borboletas, uma azul e uma amarela, que entraríamos em cena - numa modalidade de pastoril para crianças pequenas, do jardim da infância -, como de fato entramos, depois de termos chorado, assustadas; presas que ficamos as duas, por nossas asas que se engancharam.

Na minha cidade sertaneja, Pão de Açúcar, havia um belo pastoril ensaiado por dona Zélia, uma senhora alta, morena e animada, que se apresentava no coreto em frente à Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, durante as festividades natalinas. Aquilo era um espetáculo! A comunidade toda levava cadeiras e se arrumava, lado a lado, para ver o pastoril dançar. Mesmo criança, eu sentia uma profusão, densa e envolvente, que transpirava harmonia.

Era como se todos da cidade fôssemos uma coisa só partilhando instantes únicos de intensa magia. As pastorinhas em fila, vestidas de vermelho e azul me encantavam, o som rítmico dos pandeirinhos tocando, os personagens: o pastor, a cigana, a borboleta. Tudo aquilo, visto ano após ano, era muito mais do que uma simples apresentação ou festejo, era um ritual que consolidava alguma coisa entre todos. Realizava-se ali a consolidação da identidade coletiva. Outro dia, assistindo um filme de Fellini, senti essa mesma sensação diante de uma cena, espetacular, onde havia um ritual que comemorava a passagem do inverno para a primavera.

As pessoas traziam para a praça o que não era mais usado em casa e faziam uma enorme fogueira queimando tudo, enquanto dançavam, finalmente, em torno dela. Via-se, ou melhor, sentia-se claramente, o fortalecimento da identidade ordinária àquelas pessoas, que juntas celebram o que tem influência e importância para todos: uma nova estação iniciada com o término da outra. A ritualização surge para materializar essa passagem. Aquilo ali é folclórico, se entendemos que folclore não se restringe apenas aos folguedos, mas a tudo o que diz respeito ao sentimento, ao pensamento e à ação que envolve um número significativo de pessoas.

Transferir o conjunto das experiências comuns para as representações metafóricas nos espaços da cultura é uma maneira onde a vivência do folclore é realizada. Nossos rituais: a dança, a roupa típica, as comidas, as crenças se exercitadas, são extensões que fortalecem nossa identidade e funcionam como somatório de preservação da personalidade das gentes, dos espaços demográficos, enquanto cidades, regiões e países, distintos. Mesmo com as mudanças trazidas com a globalização; a mestiçagem de pensamento, as constantes interações entre nossas experiências e a dos outros, é importante que não percamos a força expressiva do folclore, que nos reveste de quem somos.