Postado em 15/12/2011 às 09:50

Amanhã tem Gal Monteiro & Ludmila no espetáculo DNA

Uma excelente conversa com Gal Monteiro

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O Projeto Palavra Mínima leva amanhã, sexta-feira, 16, às 20h, ao palco do Teatro Linda Mascarenhas, o espetáculo: Gal Monteiro & Ludmila em "DNA". Em entrevista, Gal fala sobre o trabalho artístico compartilhado entre ela, Ludmila e Dália, também sua filha - e que tem participação especial no show -, sobre sentimento, sensibilidade, herança artística, em como a arte transita livremente, prolifera, se mistura e preenche os espaços onde as relações de amor familiar são construídas e alicerçadas entre elas. Uma excelente conversa que trago para o leitor, amanhã, aqui no Ensaio Geral. Aguardo vocês!

Postado em 05/12/2011 às 10:10

O Grande Poder do Mestre Verdelinho

"A terra deu, a terra dá, a terra cria, Homem a terra cria, a terra deu, a terra há"

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Goretti Brandão


Simplória e bela, cheia de céu, como uma grande estampa de chita, que veste a cultura popular, uma estrelinha que vem e vai embora e que torna a aparecer no dia seguinte, caminha pelo espaço poético de Verdelinho. Outras estrelas, maiores ou miudinhas, aparecem e trocam de lugar com outras mais apagadinhas. Surgem as batatas de manivas, que ajudam a reforçar os sentidos que constroem e reconstroem os ciclos da germinação. Há o orvalho que molha o chão, pontuando a manhãzinha, há insetos e há o homem: criatura dentre outras que nascem do ventre da Terra.

A ideia de redondeza delimitada pela simplicidade de como se vê a vida, torna conhecidas as possíveis dinâmicas reproduzidas pelo universo inteiro, suficiente e metafórico – intuicionista – no microcosmo que a Terra passa a representar, e modela-se na sua vitalidade de mãe. A Mãe Gaia, a que sendo generosa é geradora de toda a vida. Verdelinho expõe o segredo de tudo o que nos sustenta, porque ele sabe que existe, por lhe ter sido revelado, através da observação feita por um si só, homem simples, sobre e a partir de pequenas coisas.

Ele não precisa prescutar e não o faz. Toda a maravilhosa manifestação da vida que, a si mesma se inaugura, é o bastante para a presença da sua filosofia, como a verdade mais verdadeira, tão às claras que nos encandeia, e que permite que surja e se afirme em sua verve, despretensiosa e limpa. Límpida. Longe de influências das calorosas discussões científicas. À sua contemplação que o faz afirmar que há - não de que deva haver -, um grande poder vindo da própria terra e que a faz criar e destruir e criar novamente assegura a sua certeza e a sua reverência, de que ela também é criatura viva.

Sobre o seu próprio eixo, a Terra gira e o faz, porque tem poder, porque cumpre seus rituais obedecendo às regras do universo. Deu, dá e cria, diz Verdelinho, porque tudo o que vive sobre a terra, e por ela é gestado, é para ela também alimento. Ela tem poder porque tem sabedoria. A de gerir seus ciclos vitais respeitando seus tempos e limites. Poderíamos chamar a isso de rotina, que o homem não consegue suportar ou incapacidade nossa de ver que nada retorna igual sobre a terra, embora assim pareça? Somos nós os capazes de profanar os tempos, o templo e a sabedoria de Gaia, com a nossa insensibilidade.

Mestre Verdelinho se volta para o mundo, que diferente da terra, simboliza os resultados da nossa ação sobre o nosso lar. O mundo é o lar e a Terra é o ventre que deveria habitar em nós, da mesma forma que somos seus habitantes. É para os homens, para o seu mundo feito sobre a terra, e não para a terra, que ele apresenta em sua defesa, um poder maior. Soberano. É um poder capaz de corrigir o mal que a ela infringimos, com a nossa arrogância de poder. Filosofia sim, a do mestre, que derrama sobre seus versos, escrita que parece ingênua, pelo modo como é transmitido pela escrita, a sabedoria singela, de quem honrado, pode ser aquele entendido como alguém que teve a Graça de ter conservado o coração de menino.

Essa é a possibilidade humana, a nossa chave capaz de mergulhar-nos nas profundezas de Deus: O Grande Poder que “corrige o mundo pelo seu dominamento”. Verdelinho deve estar mergulhado lá!

Para conhecer a letra de Grande Poder, visite:

www.apalavraeparadizer.blogspot.com
 

Postado em 03/12/2011 às 07:37

Arte alagoana exibe qualidade e beleza no espaço do IPHAN

Com diversidade de temas e técnicas, a exposição de trabalhos dos artistas alagoanos, revela criatividade apurada

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Goretti Brandão

Aberta à visitação pública até fevereiro de 2012, podendo ser prorrogada, o IPHAN,  Instituto do Patrimônio Histórico e  Artístico Nacional, deu início na quinta-feira, 1º, à exposição coletiva Arte Alagoana, em seu espaço destinado para exposições temporárias. Trabalhos de artistas com técnicas e temas diversos enchem o salão de cores e formas e têm como principal objetivo atrair a atenção dos novos visitantes à cidade, divulgar a produção das artes plásticas de Alagoas, além de levar ao local, os que apreciam eventos dessa natureza.

A realização do evento foi uma ideia da artista plástica Darcy Farias, que expôs uma individual: A volta a Jaraguá, no IPHAN e que soube da desistência por parte de outro artista que faria a exposição seguinte. Daí, com o salão disponível resolveu ocupá-lo, organizando a coletiva. A escolha dos artistas foi selecionada por ela, em conjunto com o também conhecido e experiente artista plástico, Persivaldo Figueirôa.

“A escolha dos artistas, além da diversidade de temas e técnicas, foi uma sugestão minha e da Darcy. Passa pelo bom trabalho dos artistas sugeridos e escolhidos. São amigos e que já nos reunimos em outros momentos. São nomes representativos em nossa capital”, pontuou Figueirôa, que também é o responsável pela concepção da montagem da exposição.

O período compreendido entre dezembro a fevereiro, haverá no porto de Maceió o movimento de chegada de diversos navios e segundo ele, em consequência disso, espera-se que um número expressivo de turistas visitem a cidade. Daí a relevância da exposição, que tem neles o seu público alvo. A divulgação da arte produzida aqui também repercute a divulgação dos nomes dos artistas locais.

Os artistas que participam da coletiva são: Achiles Escobar, Beta Bastos, Darcy Farias, Denise Matos Diniz, Dorgivan Ayres, Gicélia Sampaio, Gustavo Lima, Goretti Brandão, Graça Dias, Lys, José Tenório, Lula Nogueira, Marcos Plech, Orlando Santos, Persivaldo Figueirôa Salles, Sandra Nees, Tânia Pedrosa e Zita Soares.

Para os interessados: A disponibilização do espaço para as exposições temporárias no IPHAN são feitas através de editais. Selecionados os artistas, há em seguida um calendário para os eventos, esclarece Persivaldo.

O IPHAN fica na Rua Sá e Albuquerque, 157, logo no início do bairro de Jaraguá, para quem vem da Pajuçara. Dê uma passadinha lá!
 

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Postado em 02/12/2011 às 08:48

Sentir para mim é encantamento

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Goretti Brandão

Sexta-feira ensolarada. É bem provável que o dia avance dessa forma. Manhãzinha, chuva desproposital e de pouca molha, levantou um cheirinho de terra aguada. Acordo. Estou viva. Quero escrever mas as palavras fugiram de mim, como fazem de vez em quando. Tudo que vejo é simplesmente tudo o que vejo e apenas o que vejo. A alma das coisas se esconde e meus olhos apenas refletem a vida sem mergulhar nela.

Preciso da permissão do que existe por dentro do que se vê, para entrar naquilo que não se vê. Pensar sobre árvores, sobre a chuva, sobre a mulher que passa na rua catando lixo, me obriga a senti-los. Sentir é encantamento, talvez delírio, porque não me basta pensar sobre o que está claro: a árvore, suas folhas, sua raiz. A chuva que molha, a mulher que necessitada, cata restos nas lixeiras.

Quero sentir a partir das imagens. Por isso é que me arrisco a sair do lugar de dentro de mim onde sou confirmada, para emprestar valor àquilo que, disposto, é quase sempre lido pelo pensamento, racional e tão exato que bloqueia outras versões da minha consciência.

Persigo como um cão furioso a busca de significados, porque assim, vendo sem poder ultrapassar o que vejo, percebo-me como uma câmera fotográfica nas mãos de quem faz fotografias sem saber enxergar o sentido das coisas. Busco completude e respostas que acalmem a minha ânsia e a minha necessidade de exigir de mim mesma a resposta da resposta para aquilo que sinto que as coisas representam e o que posso vir a ser por causa delas.

Tenho sede de significantes e neles, nos que estão diante de mim, quero infiltrar perguntas, como faço à interpretação dos meus próprios sonhos, para revirar pelo avesso cada símbolo que me invade, até esgotá-lo. As minhas melhores perguntas sempre são as que fazem o meu coração. Se por algum motivo perco com ele a intimidade, sufoco a alma e não consigo enxergar para além do que vejo.

Não é de registros imagéticos que preciso povoar minha vida, mas dos significados que esses registros trazem. E extrair significados, valorá-los, conceituar relevâncias é a minha maneira de acrescentar profundidade à experiência de viver. Estou nublada. Acordei estéril. Funciono racionalmente em relação às minhas vivências no mundo, mas não me conforta definir as coisas pelo sim ou pelo não, apenas.

Os critérios do pensamento me ocupam um território, eu confesso, pouco conhecido, atrofiado até, e que me sufoca por isso. É o sentimento quem respira em mim.

Postado em 08/11/2011 às 08:16

"Ser artista é uma dádiva"

Cansado de pintar mesmices, Orlando Santos leva dos pincéis para as telas, um povo simples, o cotidiano e o regionalismo, através de um estilo pessoal, marcado por tendências cubistas

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Goretti Brandão

Homem de estatura mediana, brincalhão e de humor fácil, ele é um dos principais patrimônios vivos de Porto Real do Colégio, terra onde nasceu. É graduado em Contabilidade, sendo que, 31 dos seus 52 anos, são dedicados às artes plásticas. O alagoano, conhecido nos circuitos da cultura local, era ainda um menino de 12 anos, quando começou a pintar. Seus trabalhos já ganharam o mundo. Estão no Canadá, na França e em Portugal. Em Maceió, sua arte pode ser vista em hotéis, órgãos públicos federais e estaduais, instituições, pousadas, consultórios e residências. Minha conversa é com ele.

O que é ser um artista? Quais os louvores e as dificuldades em ser artista em Alagoas?
Ser artista é uma dádiva, nascemos com esse talento, embora o tempo nos faça refletir na opção dos seguimentos, assim buscamos em livros e pesquisas algo que nos revele o belo prazer. Em alagoas é muito complexo, o movimento irradia pelas vertentes do individualismo, parecendo até uma competição, onde o talento adormece com muita facilidade, e as pessoas dotadas ficam a mercê de meias dúzias para terem seu trabalho reconhecido.

Quem vai ao Aeroporto Zumbi dos Palmares pode apreciar um dos seus belos trabalhos. Percebe-se que ele tem um forte apelo e influência do movimento cubista. O que o faz escolher tais características em suas composições?
Estava meio cansado de fazer as mesmices, todos pintavam coisas parecidas, e eu estava num estagio de desenvolvimento onde me sentia preso pela pressão dos outros. Isso me incomodava, passei um certo tempo sem pintar, em pesquisas descobri novos estilos, dentre eles me deparei com o Cubismo. Mas eu não queria um cubismo prostituído, eu queria um cubismo que eu tivesse domínio, cores, e movimento... Pois há muito o movimento não aparecia, e eu me sentia sem perspectiva para continuar pintando. Achei fantástico o que lia me interessei, e fui pesquisando até achar um artista que em me identificasse dentro do cubismo. Achei Chagal, que não queria ser cubista, mas tinha um trabalho figurativo que me impressionou. Dai em diante entrei noutras academias e descobri Braque, Cezanne, Picasso, Tarsila, Di Cavalcanti, Portinari, todos foram minha luz... Segui...

No início do movimento, até 1912, o cubismo apresentava cores moderadas, formas, com predominâncias geométricas, desestruturas e desmembramentos. Decifrar a obra era uma condição que se seguia à sua apreciação. Era o Cubismo Analítico. Na segunda fase, no Cubismo Sintético sugiram as cores fortes, além das formas, agora voltadas para o reconhecimento das figuras. Seu trabalho tem como premissa, o cubismo dessa fase?
Não, o cubismo analítico me encantara por demais, eu nunca gostei de juntar pedaços, ou metade de elementos, colagem, (coisa do Cubismo Sintético) isso não me interessava. Enveredei pelo analítico, porque me sentia mais espontâneo para expor minha condição e conhecimento especifico vindo de outras academias que eu admirava. Achei que ser figurativo era o suficiente para trabalhar as transparências que não existiam no cubismo, e dar formas e expressão cubista para ser um inovador do cubismo aqui, quicá noutros lugares. Como dizem por ai, “é muito difícil ser cubista, e você retrata muito bem a gama de suas cores próprias.” Aprendi desde cedo a ter personalidade artística.

No Brasil, artistas como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Rego Monteiro e Di Cavalcanti, apresentam características cubistas em suas obras. De alguma forma esses artistas tiveram ou têm influência em seu trabalho?
Di Cavalcanti tem uma predominância pela sutileza e expressão das multas, embora eu me detenha ao direito de fazer figuras expressivas com conotações brasileiras, porém as cores típicas da nossa região fumegam entre telas e telas, e me parece mais arrojadas por ser nordestino. Ele não era cubista, mas influenciado por Portinari que também não era cubista, tinha uma tendência natural ao que na época se chamava cubismo. Acho que entre Portinari e Di Cavalcanti, eu descobri bem mais minha arte, porque freqüentei o ateliê do Adélio Sarro em São Paulo, e descobri novos movimentos artísticos que me influenciaram, mas não me tiraram o direito de ser artista único naquilo que faço.

Pablo Picasso, como um dos precursores do estilo, é um dos primeiros artistas que nos remetem ao movimento. Sabe-se, portanto, que entre 1907 e 1909, as obras de Cézanne deram início à fase do cubismo. Diz-se que no Brasil não encontramos artistas exclusivamente cubistas. Como você se considera então?
Me considero um artista ousado, que buscou em pesquisas um trabalho maturado de curta duração, mas que marcou a época de 1907 a 1912, por não ter tanto cubistas na época, não foi possível a continuidade da academia, mas aqui somos poucos com essa tendência... Se não me engano eu sou o único que tenho essa influencia forte abrasileirada que carrego na alma e na consciência.

Sobre Picasso; o que você acha da sua obra?
Acho fantástico o trabalho da fase azul fase rosa, onde ele sintetiza suas angústias e revoltas, e sentimentalismo. Quanto à fase cubista não me interessei muito não, achei muito grotesco a expressão de Guernica, me deixou aflito a expressão angustiante, e aquelas metades utilizadas por ele não me trouxeram sensibilidade, eu não me sentiria bem se o retratasse. Respeito–o, ele era muito bom no que fazia, temos que respeitar, cada um faz e retrata o que chamam de arte da melhor maneira possível, aquela era a forma que ele achou para representar. Observando que as Damas de Les Demoiselles ele conseguiu fazer algo interessante no meu humilde entendimento, mas não captei uma mensagem igual noutros trabalho do mesmo seguimento. Com isso digo-lhe que era foi um gênio na descoberta, e conseguia retratar o cubismo iniciado por Cézanne de forma própria, isso sim me chamou a atenção, mas observo que ele tinha sua própria personalidade, e criou assim seu próprio estilo cubista. Foi o que eu fiz.

Como surgem as ideias: as cores, as figuras e os temas para os seus quadros?
Surge naturalmente, tenho um conhecimento dos círculos das cores, e acredito que isso me ajuda muito. As figuras surgem do nosso regionalismo, do cotidiano, da vontade de crescer de um povo simples e trabalhador, me inspiro muito no camponês, acho fantástica a lida, respeito e acredito na felicidade deles. Acho que a candura do olhar, a expressão, interagindo um ao a outro é um foco importante na nossa cultura.

As pessoas que freqüentam os salões de exposição, em sua maioria, se referem ao seu trabalho, que tipo de menção elas fazem? Elas identificam o seu estilo ou perguntam algo sobre a sua maneira de pintar?
Elas identificam muito bem, questionam a tenacidade da luz, a transparência e harmonia das cores, o circulo entre elas estão estampado em todas as telas, dizem que meus traços são de personalidade própria, e em pouco tempo muitos aproximam e dizem “Parabéns” você consegue um domínio que não encontramos com facilidade. (Isso me deixa feliz)

Como seus quadros são vendidos e quem são os compradores das obras do artista Orlando Santos?
Geralmente os clientes me procuram e fazem as encomendas, eu não pinto por série, geralmente faço um trabalho voltado para o objetivo do solicitante, quando me objetivo expor coisa que há muito não faço por falta de espaço, eu sigo um tema peculiar, e me dedico por inteiro. Sou fiel ao meu trabalho.

O que você acha que poderia ser feito para melhorar o interesse e impulsionar um comportamento positivo nas pessoas, para maior repercussão na sociedade, relativo à apreciação e valorização da arte e dos artistas alagoanos?
Acho que a classe artística se retrai muito, parecendo até que cada um tem seu trabalho e pronto. Esse comodismo artístico desestrutura o interesse de uma sociedade perceptiva. Acho que um movimento primoroso que pudesse respeitar o objetivo de todos talvez valorizasse mais o artista, e chamasse a atenção do povo. Qualquer movimento unificado gera frutos, se bem que não temos espaços, somos desintegrados, apenas lutamos com força para não deixar a peteca cair. Acho até um pouco de ousadia.
A apreciação de um povo dar-se pela cultura, esse ícone é muito peculiar, nem todos pensam na arte como arte, então não temos muito que nos preocupar com esse rótulo, mas fazer nosso trabalho, expor e convidar as pessoas que valorizam nosso trabalho. A arte precisa ser contemplada de outra maneira.

 

Para contactar o artista:

Tel. 82 - 8858-9804; 3322-3552

E-mail: orlandosantoss@yahoo.com.br

            

Tags: Orlando Santos, cubismo, artista-plástico, Maceió

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Postado em 03/11/2011 às 10:45

Sertão dourado no jardim das craibeiras

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Sertão dourado no jardim das craibeiras

Goretti Brandão

Goretti Brandão

Novembro chegou. As estradas de barro que nos guiam em direção ao sertão das Alagoas levantam nuvens de poeira que nos perseguem até o nosso destino. A vegetação muda de roupa com rapidez: do verde esperançoso à secura cor de siena queimada. Carcarás desenham traços imaginários no ar em vôos rasantes. Começam os tempos difíceis, reproduzidos anos após anos, por essas paragens.

Pelos caminhos ensolarados a natureza nos surpreende. Verdadeiros jardins de craibeiras, douradas, quebram a rigidez das imagens pontiagudas dos galhos secos, inaugurando uma beleza de deixar perplexo qualquer vivente. Ver sobre o chão que se vai esturricando, árvores cheias de viço, faz com que nos perguntemos como podem fazer parte da mesma realidade, e em um mesmo cenário, tanta secura e tamanha exuberância. Ao paradoxo exibido, só nos cabe a tentativa de dimensionar a experiência e aprofundá-la às memórias da nossa alma.

Um mundo amarelo despeja flores pelos caminhos e ipês liláses aparecem, aqui e acolá, estabelecendo o equilíbrio das cores. A natureza é astutamente dialética e habilidosa na escolha de sua palheta de artista. Mas, adentrando ainda mais o sertão, novas floradas se anunciam. São canafístulas e mulungus, inaugurando presença. Do alpendre, em uma cadeira de balanço, o homem do campo olha o tempo, olha o animal comendo o resto do verde e pensa na barragem que começou a secar.

Longe, o canto de um pássaro ecoa pela vastidão da paisagem até onde houver gente para escutar. Entrincheirado por mandacarus e xique-xiques, catingueiras e velames, um grupo de matutos tirou o dia para fazer um mutirão. Trocar o chão de cimento da casa de um deles. No copiar, veem-se os móveis entulhados do lado de fora, além de potes, santos, televisão. As vozes se misturam aos sons que preenchem o tempo. O calor aumenta. A mulher da casa matou duas galinhas da sua criação, para alimentar os homens.

No terreiro, quatro motos, todas com coxim, anunciam que tempos modernos chegaram ou que está chegando de uma forma muito estranha. Porque José, homem estudado, morador da cidade, contou que foi comprar cerveja no bar de Rosa, numa curva de estrada, e a encontrou assistindo pela televisão, uma animação digitalizada. A confusão foi grande quando ele quis explicar pra ela que aquilo era que nem desenho. Que aquelas pessoas não eram reais. Que nada ali era real. Saiu sem conseguir convencê-la.

A mediação tecnológica, para a singeleza de quem ainda vive a realidade de mundo através das lentes da ingenuidade, e sequer sabe distinguir o imagético do real, é algo surpreendente, e quem sabe, denuncie os enormes vazios da modernidade à diversidade de vivências e experiências humanas que se fragmentam ou que se apresentam para certos ‘mundos’ como incompreensíveis.

Mundos esses, sertanejos: de caatinga, de boi mugindo, de garças carrapateiras voando em bandos. Onde não há nada melhor do que encher a vista com tapetes de flores caídas sobre o chão pedregoso, sentir o calor da terra bafejando o vento quente no rosto e festejar o viver, como ele deveria ser: modesto e cheio de simplicidade.