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19/08/2010 19:58

 

O sorriso da pedra e a descida de Serra

Esse texto foi publicado, também, no portal O Globo.

oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/08/20/o-sorriso-de-pedra-a-descida-de-serra-917444517.asp

Olá, pensadores!

Para enfrentar uma campanha eleitoral, há que se ter mais que um bom passado político e boas referências. Num país como o Brasil, onde a imagem dos comerciais e as chamadas de marketing são capazes de influenciar bem mais que a história - boa ou má - dos seres políticos, há que se ter inteligência e uma boa visão do jogo.

Estivéssemos nós numa outra nação, com outra cultura, talvez a falaciosa campanha tivesse o efeito contrário: o candidato que se mostrasse simpático, risonho, promissor, contrariando toda sua vida pregressa, estaria cavando sua própria cova política. Mas estamos nos limites tupiniquins, e o "pão e circo" ainda funciona que é uma beleza. Sorrisos e maquilagens são mais que suficientes para engodar um povo que, no geral, desconhece até as atribuições que terão os candidatos em quem votarão.

Assisti aos primeiros programas da propaganda eleitoral gratuita de ambos os candidatos e tenho acompanhado seus últimos debates públicos. Sinceramente, a campanha esse ano está, no mínimo, desanimadora.

Tem me impressionado a falta de habilidade do candidato tucano à presidência da república, José Serra. De favorito, há menos de dois meses, o candidato já dista, mais ou menos, quinze pontos percentuais de sua principal rival, Dilma Rousseff, segundo os principais órgãos de pesquisa de intenção de votos. Se, no PT, o marketing tenta camuflar o azedume, no PSDB, ele afronta a inteligência do povo.

O discurso pseudomaternal de Dilma Rousseff e suas frases inócuas ainda me soam com uma suprema artificialidade. Vendo a candidata de Lula em seu programa, sou quase capaz de identificar o ventríloquo que a põe no colo e manipula sua mandíbula, fazendo-a pronunciar seus balbucios românticos. A carranca de Dilma é tão forte e sua falta de empatia tão gritante que a vejo como um sorriso pintado numa pedra. A Dilma da campanha, para mim, ainda não passa disso: um sorriso de uma pedra.

Mas seu principal adversário tem conseguido fazer um programa ainda pior. Sua autenticidade tem sido boicotada por sua inacreditável inabilidade. Serra fez da critica ao governo que tem, aproximadamente, 80% de aprovação popular, seu mote de campanha. Ao criticar o governo, Serra parece não entender que está contrariando os 80% de brasileiros que dizem aprovar o modo Lula de governar. A reincidência do tucano chega a ser burra.

Enquanto isso, Dilma Rousseff, que caiu de pára-quedas presidencial no cenário eleitoreiro desse ano, vai fazendo o dever de casa: endeusa o presidente Lula, se coloca na condição de princesa herdeira do trono e da missão, promete fazer mais do que ele fez e se esquiva das perguntas sobre seu passado na militância, sobre reformas não feitas no atual governo, sobre o PAC pela metade, sobre as mentiras que rondam sua vida.

E José Serra, numa espécie de autoboicote, segue demonstrando descontrole nos debates e preocupa-se muito mais em tecer críticas do que mostrar porque, realmente, "o Brasil pode mais". Focado em desacreditar o governo popular de Lula, o tucano só faz perder tempo, confiança e pontos na intenção de votos.



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09/08/2010 20:39

 

Votar certo... Como?

Esse texto foi publicado, também, no O Globo:

oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/08/10/votar-certo-como-917365441.asp

Olá, pensadores!

Sinceramente, acho de uma criatividade sem tamanho as campanhas do Tribunal Superior Eleitoral nesse período que antecede os pleitos, sobretudo, os nacionais. Numa das chamadas, o eleitor é posto como patrão e espanca, verbalmente, o candidato, numa sabatina mais rigorosa que a escolha papal.

Na chamada educativa citada, a intenção – creio eu – seria convencer o eleitor que, com o voto, ele bota no poder quem ele quiser. De fato, a teoria pura da democracia deveria mesmo ser assim. Mas, na prática, a coisa funciona diferente.

Tomemos Alagoas como exemplo dessa disfunção democrática. Eu até quero votar certo para o Senado, por exemplo, mas há como? Ou melhor, em quem votar, desses que aí estão, para que meu voto seja correto? Nas velhas raposas que manipulam pilastras da ética e ganham as eleições sem precisar de voto? Ou nos discursos verborrágicos, contagiantes, mas inertes, incapazes de se transformarem em água, pão, remédio, segurança e teto para os sedentos, famintos, doentes, vulneráveis e desabrigados?

E para câmara federal? Quem são os nomes que, apesar de livres de escândalos, tem demonstrado realmente o que foram fazer em nome de Alagoas e de seu povo? Quem puder, me diga quando Alagoas teve alguma bancada verdadeiramente representativa na Câmara Federal. Afinal, Alagoas e seu povo existem para Brasília?

Na Assembléia Legislativa, vamos deixar os mesmos ou vamos colocar novos taturanas? Aliás, tirando os taturanas, os fichas-suja e os omissos, quantos sobram como opção de voto? Votar certo... Tudo bem... Mas, como?

Quando algum nome novo surge, parecendo querer romper com a lógica posta, o sistema – de engrenagens totalmente humanas e de combustível torpe, comprável – bruto, voraz e impiedoso, o massacra, de modo que não lhe sobram nem sílabas, nem letra, nem rabisco, nem ponto. E o massacrado, relegando o pouco da dignidade pessoal que parecia ter, baixa a cabeça e se assenta aos pés de seus algozes.

Os de boa vontade que não são, de pronto, destruídos, constituem a massa dos inexpressivos políticos que, a despeito de não se mancharem por ação nas, lambuzam-se por omissão, porque sabem que nada podem fazer contra a roda-viva. Essa semana, me chegou um cabo eleitoral e tentou persuadir-me a votar em seu candidato. Seu maior argumento era “o nome dele não foi envolvido em nenhum desses escândalos”. E só.

O mais engraçado é que agora, em cada carro plotado, em cada outdoor, em cada cartaz, tem um grande amigo meu ou alguém digno da minha mais profunda confiança: “Fulano de tal, esse é seu amigo” ou então “Cicrano de tal, nesse Alagoas confia”. Faces desavergonhadas que, só de quatro em quatro anos, se apresentam, com sorrisos falsos, amarelados e enganadores – porque photoshop apaga rugas, clareia os dentes e implanta cabelo, mas não corrige caráter, nem maquila mandatos débeis.

Pior é assistir, em todos os telejornais, a agenda diária dos principais candidatos e suas frases do dia: “iremos reduzir os impostos”, “vamos aumentar o salário mínimo”, “seremos uma potência olímpica”... Discursos logicamente perfeitos, respostas coerentes, mas tão irreais quanto os contos de fada que ouvimos, quando crianças. Tão óbvios, que nos causam irritação. Tão mentirosos, que se tornam impraticáveis. Tão incômodos, que é melhor esquecê-los.

Gostaria muito de estar aqui, tratando de propostas novas, de inovadores projetos, de prósperos rumos e animadores ares. Gostaria de estar tratando de política com o entusiasmo que esse tema merece. Mas as convenções partidárias e seus arrumadinhos e o início da atual campanha política já me encheram de asco. E quem quiser que diga que sou revoltado, ingênuo e que política só se faz assim.

De tudo, a única coisa que me sobrou foi a certeza de que, no próximo 3 de outubro, ainda que eu queira, não terei como votar certo. Não terei como dar uma de patrão, como ensina o marqueteiro do TSE. No máximo, vou em busca da minha quitação eleitoral já que, para a minha tristeza e felicidade dos manipuladores políticos, votar ainda é uma obrigação.



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29/07/2010 17:54

 

Lei da Palmada: mamãe estava errada?

Olá, pensadores!

Há certas coisas, no Brasil, que de tão absurdas chegam a ser engraçadas. Esse projeto da “Lei da Palmada” é, perdoem-me os amigos, uma piada sem precedentes. Não pela intenção – que é até louvável –, mas pela forma que seus autores acham que vão mudar a cultura social.

Pretende o projeto, através da aplicação de sanções legais, impedir que pais ou responsáveis usem qualquer tipo de castigo que provoque dor em crianças e adolescentes, ainda que para fins pedagógicos. Isso quer dizer que, se aprovado, a velha e boa palmada corretiva passa ser motivo para sofrer os rigores da lei. Já pensou?

Antes que os defensores ardorosos dessa mal interpretada onda de Direitos Humanos se levante, ponho-me na condição de criança que cresceu sob o efeito da orientação verbal de meus pais, mas que não foi poupado de uns merecidos beliscões e palmadas, quando deixei a birra ou a falta de modos aparecerem mais do que deveriam.

Podem vir me analisar: não sou doente, nem tenho qualquer problema de ordem psiquiátrica, nem psicológica, nem trauma, nem odeio os meus pais pelas palmadas de outrora. Muito pelo contrário, lembro de beliscões que foram decisivos para podar certos maus costumes que eu tinha (como o de desacreditar minha mãe, em público, matando-a de vergonha ou, aos nove anos de idade, me recusar a voltar pra casa, achando que meu momento de diversão, na rua, não devia ter hora para acabar).

Antes de me dar o moderado corretivo, ela me perguntava: “quantas vezes eu já falei com você sobre isso?”. Realmente, ela tinha falado diversas vezes... Tinha usado até desenho para me fazer entender... E, como eu continuava avesso, sua sábia pedagogia, no momento correto, funcionava que era uma beleza.

Que fique bem claro: não estou falando de espancamento, nem de excesso. Para isso, existe o Direito Penal. O que eu acho inadmissível é que, agora, venha o Estado, numa intervenção particular exacerbada, dizer que o que minha mãe fez é inaceitável, que precisa ser mudado, com a enganada crença de que a letra da lei tem o condão de, repentinamente, mudar o padrão cultural.

Chega a ser ridículo. Imaginemos a cena: a mãe, em casa, pedindo para o filho tomar banho e o garoto sem querer sair da frente do vídeo game. Depois de meia hora de pedido e insistência, a mãe olha para os lados, para certificar-se que não há um fiscal do Estado, e, ilegalmente, taca-lhe um beliscão. Agora, imagine essa e outra diversas cenas similares ocorrendo em vários lares, ao mesmo tempo. É piada ou não é?

Ora, o Estado não tem dado conta dos principais crimes e, mesmo contra as crianças, tem sido tão relapso quanto à correta e eficaz aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente que - afirmo sem medo de errar - não terá como fazer cumprir essa bobagem que os nossos parlamentares estão prestes a aprovar.

Embora a essência do projeto não seja reprovável, o modo de tentar fazê-la ingressar em nossa cultura, através da imposição legal, será, tenho certeza, frustrante. Essa questão não passa pelo Direito, mas pela Educação. E esse projeto é o principal sinal do Estado ineficiente: não tendo como educar, usa a força para camuflar sua negligência.
 



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15/07/2010 11:41

 

União civil gay: entre direitos, crenças e preconceitos

Este texto foi publicado, também, no portal O Globo:

oglobo.globo.com/opiniao/mat/2010/07/15/entre-direitos-crencas-preconceitos-917155694.asp

Olá, pensadores!

O Senado argentino aprovou, com 33 votos a favor e 27 contra, a lei que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Muito mais que o status de legalmente unidos, o “casamento” entre homossexuais é o reconhecimento do Estado de que seus cidadãos, com todas as suas diferenças lícitas, devem receber o mesmo tratamento.

Como era de se esperar, a discussão reacende a polêmica, contrapondo conservadores e religiosos, avessos à idéia, e liberais e os próprios homossexuais, que, há anos, encabeçam a luta por esse direito.

De fato, não podemos desconsiderar o fator cultural e o religioso, principais argumentos dos que se mostram contra a união civil homossexual. Não é tão simples convencer a grande maioria de que existe um outro padrão de relação afetiva. Mais difícil ainda é afrontar a crença dos religiosos que, piamente, crêem que Deus deixou o padrão familiar composto entre homem e mulher, relação fértil, sendo, tudo o mais, pecado.

Na orla dos direitos, um dos mais usuais argumentos dos religiosos contrários à idéia é que, não podendo mais apontar a homossexualidade como um pecado ou como uma conduta reprovável, estariam sendo cerceados de exercer plenamente seu direito de crença e, na mesma linha, de liberdade de expressão.

Sinceramente, discordo. Não se trata de cercear a crença de ninguém, mas, tão somente, de impedir que certa parcela da população seja discriminada, publicamente, pela simples orientação sexual que possui. É podar os tentáculos de uma intolerância que, paradoxalmente, nasce dos berços onde se prega o amor, a paz, a fraternidade, que são as igrejas.

Além disso, apesar de reconhecer a cultura como um elemento essencial a uma sociedade, negar certos fatos, há muito existentes, é ser, no mínimo, hipócrita. Desde que o mundo é mundo existem homossexuais... E sempre haverá. Querer ocultá-los sob o manto da clandestinidade, em nome de uma suposta moral conservadora ou de crenças religiosas, é querer forçosamente suprimir-lhes a existência.

A lei que foi aprovada pelo parlamento argentino (que pende apenas da sanção presidencial), não muda a essência das coisas – ou do problema, como alguns querem chamar. A lei não fará que nenhum heterossexual “vire” gay, nem que um gay acentue ainda mais sua homossexualidade. As pessoas já são o que são. Se se aceitam, ou não, por medo, justamente, da “repercussão” social, é outra questão.

A lei, como dito, é apenas um despertar para uma realidade que não pode mais ser escondida: eles existem e querem tratamento igual. Querem casar, adotar, formar família, deixar e receber herança, divorciar, etc... Querem aquilo que lhes é devido, afinal, a orientação sexual de ninguém é capaz de lhe retirar o título de cidadão.

No Brasil, embora ainda não haja lei, não poucas tem sido as decisões do Poder Judiciário reconhecendo os direitos civis de casais homossexuais, com destaque para o vanguardista Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Até em Alagoas, no meio de um nordeste preconceituoso e moralista, recentemente, o juiz Wladmir Paes de Lira reconheceu o status de união estável ao relacionamento entre dois homens.

Tudo passa pela construção moral e cultural e pela evolução da sociedade. Negros, índios e mulheres, por exemplo, há pouco tempo, aqui no Brasil, tinham nenhum ou pouquíssimos direitos e isso era socialmente aceitável. Hoje, quem ainda mantém esse pensando será taxado de retrógrado e preconceituoso. Em relação aos homossexuais, será a mesma coisa. Parabéns à Argentina.



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12/07/2010 16:56

 

Ela engravidou do irmão: deve ou não abortar?

Olá, pensadores!

Nos últimos tempos, fomos bombardeados com casos monstruosos de pais e irmãos que mantinham com filhas e irmãs relações sexuais forçadas, chegando ao extremo de constituir famílias sub-reptícias, marcadas pela dor e pela exacerbada crueldade a que as vítima foram submetidas.

Quem não se lembra do austríaco Josef Fritzl que manteve, por 24 anos, sua própria filha presa no porão de casa, tendo sete filhos com ela, caso que ganhou destaque mundial em 2008? Aqui no Brasil, em Pernambuco, em maio desse ano, um homem de 29 anos foi preso por ter engravidado a irmã, de 11. E tantas outras notícias emergem, constantemente, de casos como estes.

Um dos mais recentes, eclodido semana passada, ocorrido em Brasília, além da torpeza e repugnância dos acima citados, trouxe à baila uma discussão extremamente polêmica: a prática do aborto, quando a gestação é fruto de violência.

Por questões de preservação da menor e da família, os nomes dos envolvidos no recente caso na capital federal estão sob sigilo. Mas, o fato é que uma adolescente de 15 anos se encontra grávida de cinco meses e o pai da criança é seu próprio irmão, de 22 anos. Os pais dos jovens, cientes da situação, tomaram duas medidas: denunciaram o rapaz à polícia e requereram uma autorização judicial para interromper a gravidez..

Desnecessário comentar que esta família, de uma forma ou de outra – ou de ambas – teve suas bases severamente abaladas. Seja para os pais, que vêem um filho seu caçado pela polícia, seja pelo fato de eles mesmo o terem denunciado, seja por verem a filha carregando no ventre o fruto da uma violência fraterna, seja pela própria menina que, talvez, jamais se recupere psicologicamente desse trauma.

Mas a polêmica maior é a interrupção da gravidez da menor. Contrapostos entre si, o direito à vida do bebê e o direito à integridade psíquica e moral da menina e de seus familiares. Entre as opções, abortar, criar a criança ou entregá-la para adoção.

Se, por um lado, há que se considerar o direito à existência e à vida como supremos, nesse caso em especial – e naqueles cuja vida é fruto da violência – a verdade é que é praticamente insuportável para a vítima arcar com o fruto do crime. Se não é razoável, pela adolescente, por seus pais e pela própria criança, impor que a menina crie o filho que teve com seu próprio irmão, é igualmente dolorosa a possibilidade, para a família, de saber que há um ente seu, indesejado, vivendo em algum orfanato, abandonado, a espera de uma oportunidade para realmente viver.

Na verdade, a solução menos drástica, nesse caso, somente seria obtida com ajuda da psicologia. Ouvir a adolescente e perquirir, minuciosamente, como se dava a relação com o irmão, o ato sexual (ou os atos), e qual a sensação dela em relação à criança. Traçar seu perfil e detectar, para ela, depois de tudo, o que lhe seria menos ofensivo. Porque do mesmo jeito que gerar a criança pode causar um trauma incurável na adolescente, um aborto também tem conseqüências traumáticas consideráveis. E, como adolescente é dependente dos pais, estes deveriam ter papel fundamental, mas não decisivo, na escolha do que fazer.

Mas, no presente caso, os pais já decidiram, inclusive, pela menina, sem muita psicologia. A lei permite, eles requereram e a justiça concedeu que se fizesse a interrupção da gravidez. Sinceramente, não estou certo de que essa tenha sido a melhor maneira de fazer sarar essa chaga purulenta que, sem sombra de dúvida, deixará nas vidas envolvidas uma horrenda cicatriz.

E você, o que acha?



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07/07/2010 10:07

 

Caso Manning: traição ou heroísmo?

Olá, pensadores!

O governo dos Estados Unidos, o exército e a justiça americanos, o FBI e, quem sabe, até o Jack Bauer, vão ferrar o soldado americano Bradley Manning, de 22 anos, acusado de ter fornecido, ao site WikiLeaks, um vídeo que exibe a tripulação americana a bordo de um helicóptero de guerra, um Apache, executando, fria e calculadamente, um grupo de civis iraquianos.

O vídeo que vazou mostra um episódio ocorrido em 12 de julho de 2007, em Bagdá, quando doze civis foram mortos, entre eles dois jornalistas da agência Reuters. Duas crianças ficaram gravemente feridas. A crueldade foi tamanha que até o carro que se aproximou para tentar socorrer os civis feridos foi metralhado.

As imagens deixam claro o massacre; mostram execuções praticamente à queima roupa, como a do fotógrafo Namir Hussein; registram o cínico diálogo dos soldados que se autoelogiam pelo bom “trabalho”; o sarcasmo dos militares, que alegam que o fato de haver crianças ali era por irresponsabilidades dos pais, que as deixaram em linha de combate; mostram tanques de guerra passando por cima dos corpos...

Como é de praxe, os porta-vozes americanos usaram seu poder para tornar oficial a sua versão do ocorrido. Segundo eles, os civis eram insurgentes armados; os jornalistas, pela proximidade, eram cúmplices; e eles, os americanos, haviam feito de tudo para tentar salvar as crianças. Na versão imperialista, foi um ataque a inimigos.

Mas aí, aparece o tal soldado americano, de 22 anos, analista de inteligência numa base em Bagdá e, em verdade, se insurge contra os seus compatriotas, derrubando irrefutavelmente a mentirosa versão americana. Segundo confessou ao ex-hacker Adrian Lamo (e este foi quem lhe denunciou ao FBI), o soldado gostaria que houvesse uma repercussão mundial sobre o assunto, esperando por reformas. Traidor, ele?

Bradley Manning, que está confinado desde 26 de maio numa prisão militar no Kuwait, mostrou ao mundo a verdadeira face da Guerra do Iraque, essa sim, merecedora de um Oscar. Enquanto alguns ativistas americanos pedem sua absolvição (e até condecoração), a poderosa cúpula americana enxerga que o ato de “heroísmo” incomodou demais e, agora, o “traidor” deve ser exemplarmente punido.

Em outros casos semelhantes, as penas variaram entre 10 a 20 meses de prisão, embora nenhum tenha tido tanta repercussão mundial. A acusação formal contra Bradley somente foi feita ontem, 6 de julho, pelo exército americano. O soldado foi indicado por dois crimes, previstos no código penal militar americano, e pode perder o resto da juventude na prisão.

Na verdade, se para os EUA Bradley Manning é um traidor, no resto do mundo ele há quem prefira chamá-lo de herói! Ele arranhou a imagem arrogante do poderio americano, dando mais uma prova do que já sabemos: as interferências bélicas estadunidenses são grandes farsas... Mentiras grosseiramente pintadas de paz!

Mas, seu ato dificilmente será reconhecido. O que veremos agora é a luta de um garoto de 22 anos, que pensou que podia mudar o mundo, contra a força institucional da maior potência do mundo. Nem precisa dizer quem vai se dar mal... Ou precisa?
 



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