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Postado em 27/04/2012 às 22:20

A Cota dos Ricos

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Vozes, muitas delas em Alagoas, levantam-se contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que afirma a constitucionalidade do sistema de cotas raciais em universidades.

Parte delas nunca frequentou uma sala de aula no CEPA, recheada de alunos negros. Ou parcela destas, mesmo que afrodescendentes, reproduz o argumento do racismo às avessas supostamente instaurado pelo regime cotista.

Outras, ainda, defendem a adoção única do critério da condição social como alternativa para pacificar a questão. Algumas mais, estas desprovidas de perspectiva histórica, esquecem-se de que a escravidão no Brasil é fato recente temporalmente. O seu fim tem pouco mais de 100 anos.

Eu, provavelmente, tenho amigos cujos bisavós chicotearam meus bisavós.

Interessante notar a forma rasa como o tema é discutido.

Em especial porque nenhuma destas vozes, jamais, criticou a cota dos ricos.

A cota dos favorecidos, que constituem parcela infinitamente diminuta em nosso estado miserável, repleto de jovens pobres, a maioria negros, assassinados a cada esquina, sem perspectivas e sem futuro. A cota dos bem nascidos. Ou, em escala heróica, a cota dos filhos de pais, pobres, heróis.

Todos alunos estudiosos, destaque-se.

Mas todos favorecidos pela condição econômica que ocupam, seja por trabalho árduo e honesto de suas famílias, seja pela perpetuação do capital na mão de uma elite de origem branca, que comemorou a Lei Áurea por poder se livrar do estorvo que os escravos velhos, doentes e inservíveis já representavam àquela altura. Seja por dividendos da corrupção que devasta nosso estado.

Há bem pouco tempo, antes do Enem, e antes das cotas raciais ou socioeconômicas, os grandes (e caros) colégios de Maceió se orgulhavam em veicular acintosa propaganda com os alunos que ocupavam, de acordo com a meritocracia, suas “cotas” em nossas faculdades públicas, isto em cursos concorridos e elitistas como medicina, por exemplo.

O outdoor era um escárnio: “Colégio X aprova 80% em medicina”. “Colégio Y: 90% de ‘feras””. Somadas, estas instituições de ensino, de qualidade inegável, não chegavam a meia dúzia de escolas.

Estes colégios de renome podiam ter suas “cotas” em universidades como a Ufal e a Uncisal.

Já os afros, os pardos...

Tais vozes que bradam contra as cotas raciais nunca se revoltaram contra este paradoxo de a universidade pública estar, durante décadas, a serviço da cota dos ricos, principalmente nestas terras campeãs em concentração de renda e covarde desigualdade.

O STF compreendeu que a questão das cotas nada tem a ver, hoje, com cor de pele.

Pena que muitos dos contra não tenham esta mesma compreensão.

Tags: cotas, stf, ricos, raça
Postado em 03/03/2012 às 22:33

Nossas Mitologias Econômicas

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Muitas são as explicações sobre a crise da economia alagoana.

Todas, como cachorro que tenta morder o próprio rabo, são redundantes no óbvio: não somos pobres, somos paupérrimos.

Os mitos são complexos vitais para a compreensão da condição humana.

Pois bem, voltemos aos mitos.

Nossa matriz lusitana nos legou uma boa dose de Sebastianismo.

É como diz o Fado Tropical: “sabe, no fundo eu sou [somos ou seríamos] um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo...(além da sífilis, é claro)”.

O mito é assim: Dom Sebastião, Rei de Portugal, morre em batalha no além mar, no século XVI. Sem herdeiros, a coroa acaba em mãos espanholas. A narrativa mitológica dá conta da iminente ressurreição do Rei, que retornando do além, e do além mar, libertaria os patrícios do domínio estrangeiro.

Quase seiscentos anos depois, vivemos de Sebastianismo econômico crônico.

A esperar, ad infinitum, uma salvação mitológica e quase sobrenatural que quebre as correntes que nos amarram e nos aprisionam.

Claro que há um tempo em que este Sebastianismo se firma enquanto explicação de mundo por aqui. Arriscaria dizer que este tempo é os anos 90 e a partir destes, com nosso novo ciclo de fogo-morto das usinas e quando as soluções ousadas (tipo Polo Cloroquímico) ou óbvias (tipo turismo) já haviam sido postas.

E neste tempo teve de tudo em termos de saídas grandiloquentes e redentoras. Um arco tão completo e fértil em imaginação que já reuniu de fábrica de helicóptero a polo cinematográfico. De refinaria a estaleiro.

Defendamos os sonhos. E o surrealismo merece respeito, por essencial.

Agora, a saída para o escárnio de nossa situação econômica não virá de navio com Dom Sebastião na proa a nos conduzir.

Quem promete isso ou é mal intencionado, ou de boas intenções acaba por encher ainda mais nossos infernos.

Que já são, lamentavelmente, inúmeros.

 

Tags: economia, redenção, finanças
Postado em 23/02/2012 às 23:13

Carnaval e Ditadura da Felicidade

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A obrigação de ser “feliz” (ou ser visto como feliz) é uma das mais terríveis ditaduras contemporâneas.

Passado o carnaval, a exposição de imagens de “festa”, “contentamento” e “alegria” revela a imensa tristeza de nosso vazio coletivo.

Já não basta fantasiar os corpos nos corsos, nos desfiles, nos blocos. Tem-se que expor as constatações – bregas e bizarras – do lado “folião” de cada um.

Quem não optou pela “folia”, não ficou de fora desta ortodoxia. Restou a estes a publicidade e a propaganda de suas fantasias anti-carnaval, nas quais se enquadram as imagens fotográficas de retiros, de compras, de destinos blindados de frevo, axé, samba...

Esta aí o Facebook para comprovar.

Mais antitético quanto ao sentido do carnaval, impossível.

Sabe-se que a festa carnavalesca tem relação histórica com a fertilidade da terra, com a prévia para o jejum da Quaresma (um sublime significado não só religioso, como reflexivo) e com a celebração intensa do prazer.

A ordem era desregramento total neste curto período do ano.

E por que? Porque todo o feito no carnaval seria, passada a quarta-feira de cinzas, esquecido por todos (a não ser por quem gozou em verdade da folia, único que deveria recordar o vivido).

Assim, todo o desregramento do período carnavalesco era possível, pois superada a festa tudo voltaria ao “normal”.

Pena que a ditadura da “felicidade” hoje vigente não nos permite mais este celebrar.

E por que? Porque ao materializar e a disseminar seus “desregramentos (?)” em imagens nas redes sociais, por exemplo, clama-se pela lembrança tão eterna quanto efêmera.

Assim, inexiste o desregrar. O que há é puro exibicionismo.

Meus pêsames aos iludidos fantasiados de Olinda, Salvador, Rio e afins que expuseram suas folias em fotos na Internet. Ou aos renitentes, ou deslumbrados, que mostraram seus carnavais “alternativos” no “feice”.

Vocês não viveram a alegria do carnaval.

Vocês se dobraram à tirania do querer ser visto feliz, ao absolutismo do querer ser lembrado alegre em suas micro narrativas, desinteressantes e nulas para a humanidade.

Nada mais inconciliável com o anonimato folião e autêntico do verdadeiro carnaval.

 

Tags: carnaval, ditadura, felicidade
Postado em 06/02/2012 às 21:30

O Príncipe do Samba

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Enquanto o samba é violentado, maldito e ultrajado por Alexandres Pires, Kongs, Neymares e companhia, uma pérola (espero que não aos porcos) foi lançada na televisão.

Ao menos uma.

Quem não viu pode rever pela Internet a primeira parte. Já a segunda vai ao ar nesta sexta, dia 10, às 23:30 horas, na Globo News, com reprises.

Trata-se de um Sarau, programa apresentado por Chico Pinheiro, que tem como convidado nesta edição especialíssima o imenso Roberto Silva: 92 anos, ginga de 20, voz de sempre.

Num país que idolatra e que com histeria lambe botas de uma MPB moribunda e subserviente, salvo raríssimas e honrosas exceções, Roberto Silva, “Escurinho”, brilha.

E está na ativa.

Amém!

Após o surto do pagode de Cohab ou de “maurício”, é preciso que o velho mostre que há muito de novo. E Roberto está gigante no estúdio do Sarau, constrangendo-nos com uma elegância única e anulando as mitológicas do "samba" de auditório, se assim for possível classificá-lo.

O cantor é acompanhado no programa pelo grupo Casuarina, que entrosado, revela-se e faz questão de ser mero coadjuvante frente ao “príncipe do samba”.

Não percam!
 

Tags: samba, roberto, morro
Postado em 02/02/2012 às 21:53

Sexo em Rede

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Quando se pensa que tudo já se banalizou nas chamadas redes sociais, nosso imaginário mostra-se como de fato o é: infinito e indomável.

 "I Just Made Love" é a prova.

Um Foursquare, a rede registra onde pessoas no mundo todo “fizeram amor”.

E mais: posições, sexo oposto, uso de preservativo. Estatísticas, comparativos, concorrência.

É mais uma tentativa, em vão, de tentar nos livrarmos (ou, no mínimo, nos iludirmos acerca...) da completa insignificância de nossa existência, idêntica ao clamor dos “revolucionários e libertários” do Twitter ou dos “adicionados narcisistas” do Facebook.

Certamente crescerá e certamente esta rede será suplantada por outra tão inútil quanto.

E não pensem que é modismo distante: até ontem, 52 habitantes de Maceió marcaram lá seus relatos de fornicação.

Não se trata do fim, porque nossa soberba e futilidade são infinitas. Acreditamo-nos superiores e mais importantes, mesmo que sejamos meros primatas (sugiro a leitura do fantástico Eu, Primata, de Frans de Waal. Isto para os mais persistentes. Os normais podem continuar “curtindo” e “tuitando”).

E agora, podem seguir publicizando seus locais de orgasmo.

Idiotas do mundo todo, uni-vos.

E gozai-vos!

Obs.: não se trata de crítica às redes sociais. E sim à predisposição humana ao inservível.

Serviço: http://ijustmadelove.com/
 

Tags: sexo, rede, registro
Postado em 01/01/2012 às 21:01

Uma cidade sem patriarca

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O ano de 2011 terminou e não se escreveu, ao menos a granel, nenhuma linha sobre ele.

O que só reforça nossa condição de incapazes, ou indispostos, a pensarmos nossa memória. O que só exemplifica nossa subserviência em aceitarmos acriticamente falácias como a da “terra da liberdade” ou a da “terra dos marechais”.

É Craveiro Costa que nos apresenta, ou melhor, quem nos intriga. Quem seria Manuel Antonio Duro?

“Todavia documento público, de 1611, refere à existência de uma casa de telha, em Pajuçara, propriedade de Manuel Antonio Duro, a quem Diogo Soares, alcaíde-mor de Santa Maria Madalena, doara uma sesmaria” diz o cronista de “Maceió”.

Não temos um patriarca.

E este é um indício de nossa incapacidade em construirmos (ou nos enquadrarmos, em menor medida) em relação a nosso passado. Derivaria daí toda nossa fauna de desrespeitos para com o ontem. Prédios são derrubados, fotografias jogadas fora, relatos ou deixados esquecidos, ou feitos esquecer. Malfeitos diluídos.

Por isso vive-se por aqui num eterno presente. Não revisamos, nem planejamos.

Planamos no absoluto agora.

Esta incapacidade é madrasta de nossa escassez de museus e, o pior, escassez da visitas a museus. Do abandono do que alguns chamam de “cultura popular”, folguedos, festividades remanescentes. De parte da passividade. Do remedo.

Voltemos a Craveiro Costa.

Ele já nos dizia: “nasceu espúria a cidade, no pátio de um engenho colonial, sem ascendência conhecida e assentamento autorizado nas crônicas do período histórico da luta pelo domínio do gentio da conquista da terra”.

De onde viemos em nossa hoje capital? Não sabemos.

Craveiro nos apresenta Manuel Antonio Duro como nosso primeiro “habitante”. Faz uma busca por conhecê-lo. Encontra registros esparsos, inclusive sobre seus familiares. Mas de concreto mesmo, além de outras peculiaridades, apresenta a data de 1611 como a indicada no documento que registra, na Pajuçara, já haver ele – Manuel – como primeiro "morador".

Em 2011 “comemoramos” 400 anos do primeiro da espécie.

A nosso gosto e a nosso jeito: nulos.

 

 


 

Clayton Santos

Jornalista e consultor em comunicação, é professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e doutorando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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